Têm sido correntes as conversas em torno da hipótese de nos próximos dias alguém vencer o Euromilhões e ficar com aquele dinheirão todo.
É sempre bom ouvir as pessoas a falarem nessa hipótese como se fossem favas contadas:
-Ai eu primeiro fazia isto, e depois também fazia aquilo...
Uma coisa parece certa, a maioria dos teóricos das fortunas virtuais são da opinião que qualquer pessoa que ganhasse tanto dinheiro teria de ocupar o tempo em alguma coisa. Aparentemente não é possível estar muito tempo sem fazer nada. Segundo um psicólogo autor dum livro sobre coisas relacionadas com a psicologia, o Homem é um ser que precisa de se mexer, de se envolver em alguma coisa para se sentir realizado e feliz.
E possibilidades não faltam. Uma rápida consulta pelos que me são mais próximos foi reveladora dos planos. Um jogava na bolsa, outro passeava 5 anos pelo mundo, outro dava-se como voluntário para ajudar os outros, outra ia adoptar crianças pró Sri Lanka, etc., etc.
- E tu, Hugo? Hum? O que é que fazias se te saísse tanto dinheiro?
A resposta não veio imediata, mas uma reflexão mais profunda revelou-a:
- Eu, eu acho que iria negociar arte!
O espanto invadiu a cara de todos aqueles que me ouviram, mas sem saberem que, por detrás desta revelação estão cerca de 4 meses de grande experiência em especulação e também a compra e venda de quadros dos maiores pintores do mundo. É um talento que tendo a esconder de todos mas que muito me orgulha, especialmente quando estou bêbado.

Tudo isto se deve ao génio de Reiner Knizia. Homem de ofícios vários que no longínquo ano de 1992 se lembrou de criar um dos jogos mais simples do mercado e também dos mais interessantes. Corre por entre alguns jogadores a teoria de que quanto mais simples um jogo for melhor este se torna. Não subscrevo a 100% esta afirmação, mas uma coisa é certa, quanto mais simples for o jogo, mais malta se predispõe a jogá-lo.
Modern Art é um jogo simples. Tem um conceito simples, uma mecânica simples e um objectivo simples. Tenho-o usado mesmo como introdução ao universo dos jogos de tabuleiro e tem tido grande aceitação por parte dos caloiros.
Por outro lado tem sido o título que mais tenho jogado nos últimos 4 meses e posso dizer que já não consigo deixar do jogar. Sou um jogador paciente e conservador, pelo que não é costume perder dinheiro com as transacções e tenho tido a felicidade de encher os bolsos com as vendas. Tenho notado alguma evolução nesta nobre arte do comércio de telas e embora seja virtual, devo dizer que se fosse a sério, meus amigos, estava multimilionário.
Modern Art, apesar do seu brilhantismo tem o seu calcanhar de Aquiles nos componentes. É dos jogos mais pobres a esse respeito que tive a oportunidade de jogar. Ainda para mais quando o tema é tão rico. Este jogo poderia servir dum bom veículo para mostrar a obra de pintores aos jogadores, principalmente a todos aqueles que não ligam patavina aos pincéis e às telas. Meia dúzia de partidas e qualquer um já sabia distinguir um pintor impressionista dum expressionista a milhas de distância. Penso que se as cartas tivessem reproduções de quadros famosos e de estilos diferentes o jogo teria uma componente educativa bastante grande e serviria até para os pais poderem mostrar aos seus rebentos os meandros da pintura.
Infelizmente os responsáveis de Mayfair Games assim não o entendem e preferem apostar no humor, inventando para o efeito, pintores atormentados pela vida e sem um talento especial, tirando talvez as obras do pintor Yoko que, pelo menos, sempre representam a Pop Art. Verdadeiramente arrepiante a forma como o jogo é tratado!

Quanto ao jogo propriamente dito, tudo se baseia no leilão. Cada jogador recebe uma mão de cartas e, à vez, vai colocando os quadros em cima da mesa para serem leiloados. Existem vários tipos de leilão:
O aberto - onde todos os jogadores vão subindo a parada até que ninguém cubra o último valor.
O leilão duma ronda - onde cada jogador, seguindo os ponteiros do relógio, tem apenas uma possibilidade de fazer a sua oferta.
O leilão fechado - onde os jogadores colocam a sua oferta em mão fechada e revelam simultaneamente o valor desta.
Existe também a possibilidade da venda ser directa, onde o jogador pede um valor pelo quadro sendo este vendido a quem o quiser comprar.
Existe, sob certas circunstâncias, a possibilidade de vender dois quadros ao mesmo tempo, tendo o jogador que os coloca à venda uma fonte de receita não negligenciável, até porque em cada turno só é permitido vender um quadro por jogador.
Cada quadro tem nele a inscrição do tipo de leilão a utilizar para a sua venda. Existem leilões em que os quadros atingem valores mais elevados, como o caso do leilão aberto. Um leilão fechado poderá render menos umas moedas que um leilão de uma ronda, embora este género de observações seja bastante relativo.
Basicamente é isto, os jogadores vão colocando sobre a mesa os quadros que querem vender e com os quais pensam obter uma maior receita, ou então numa manobra mais arriscada, contribuírem para estragar o jogo dos outros.
No final de cada uma das 4 rondas do jogo fazem-se contas.
Os 3 autores mais vendidos (dum total de seis) terão os seus quadros valorizados. Assim os quadros comprados do autor mais vendido renderão ao seu comprador 30 dinheiros, o segundo 20 e o terceiro 10.
A estes valores somam-se os valores das rondas seguintes, de forma que quanto mais se venderem os quadros dum autor, mais valiosos se tornam, tendo sempre em atenção que existe um universo limitado de pinturas dum determinado pintor.
No fim de tudo o jogador que tiver mais dinheiro é o vencedor.
Tudo muito simples e funcional.

O que assistimos na mesa é um envolvimento constante dos participantes no jogo. Ora leiloando, ora especulando, ora tramando o parceiro. A única coisa que interessa é ganhar dinheiro, fazer valorizar os quadros dos pintores que se tem em mão e vender tudo ao melhor preço possível.
Um dos aspectos interessantes do jogo é que a experiência do jogar varia muito consoante os jogadores. Existem jogadores que se esforçam por desvalorizar os quadros comprados pelos outros e jogadores que, o que lhes interessa, é dinheiro em caixa.
Ao certo não se sabe qual a receita para se vencer uma partida de Modern Art. Há quem diga que os quadros não devem ser comprados a mais de metade do preço de mercado, outros dizem que não, outros dizem que o que rende é comprar os próprios quadros, outros dizem que essa atitude é deitar dinheiro fora.
Gerir esta especulação é que torna o jogo motivante. Normalmente colocar na mesa um quadro do pintor da berra é mais gratificante para o vendedor e para o comprador que colocar um quadro dum pintor sem historial. Mas isso depende muito dos jogadores que estiverem na mesa e das cartas que se tem em mãos. Mas este raciocínio é o mais habitual e o que melhores frutos dá.
Modern Art é um pau de dois bicos, por um lado pode produzir reviravoltas extraordinárias ou então, pelo contrário, pode ser bastante previsível. Claro que a primeira situação torna o jogo mais motivante para quem o joga, mas são raros os jogos em que isso acontece. A experiência dos jogadores contribui para que o jogo seja mais prolongado e mais difícil, mas basta um elemento mais inexperiente para que as surpresas acabem. Nesse particular existem desequilíbrios que tendem a beneficiar quem menos arrisca. Nada de extraordinário mas que pode chatear os mais exigentes.
Mas seja como for eu adoro o jogo. Demora 45 minutos e os leilões constantes trazem um certo charme que só é beliscado pelos horríveis componentes, que nos relembram que Modern Art é apenas um jogo.
Em suma, se anda à procura dum jogo fácil, divertido, com muita interacção e que se jogue rápido, Modern Art é o seu alvo. É barato e o tema envolve bem os jogadores. É difícil pedir mais. Aconselho a compra duma boa garrafa de vinho. Afinal de contas, durante 45 minutos você está a sentir no pêlo o que é negociar arte e isso, caro leitor, exige alguma sofisticação.
Pontos Positivos:
- Jogo rápido e muito fácil de aprender
- Grande envolvimento entre jogadores e tema
- Quando jogado com jogadores experientes tudo pode acontecer
- O preço
- A possibilidade duma nova edição pode tornar a experiência visual de Modern Art mais interessante
Pontos Negativos:
- Componentes tão maus que até fazem chorar o mais insensível dos jogadores
- Tem alguns desequilíbrios que beneficiam os mais conservadores
É sempre bom ouvir as pessoas a falarem nessa hipótese como se fossem favas contadas:
-Ai eu primeiro fazia isto, e depois também fazia aquilo...
Uma coisa parece certa, a maioria dos teóricos das fortunas virtuais são da opinião que qualquer pessoa que ganhasse tanto dinheiro teria de ocupar o tempo em alguma coisa. Aparentemente não é possível estar muito tempo sem fazer nada. Segundo um psicólogo autor dum livro sobre coisas relacionadas com a psicologia, o Homem é um ser que precisa de se mexer, de se envolver em alguma coisa para se sentir realizado e feliz.
E possibilidades não faltam. Uma rápida consulta pelos que me são mais próximos foi reveladora dos planos. Um jogava na bolsa, outro passeava 5 anos pelo mundo, outro dava-se como voluntário para ajudar os outros, outra ia adoptar crianças pró Sri Lanka, etc., etc.
- E tu, Hugo? Hum? O que é que fazias se te saísse tanto dinheiro?
A resposta não veio imediata, mas uma reflexão mais profunda revelou-a:
- Eu, eu acho que iria negociar arte!
O espanto invadiu a cara de todos aqueles que me ouviram, mas sem saberem que, por detrás desta revelação estão cerca de 4 meses de grande experiência em especulação e também a compra e venda de quadros dos maiores pintores do mundo. É um talento que tendo a esconder de todos mas que muito me orgulha, especialmente quando estou bêbado.

Tudo isto se deve ao génio de Reiner Knizia. Homem de ofícios vários que no longínquo ano de 1992 se lembrou de criar um dos jogos mais simples do mercado e também dos mais interessantes. Corre por entre alguns jogadores a teoria de que quanto mais simples um jogo for melhor este se torna. Não subscrevo a 100% esta afirmação, mas uma coisa é certa, quanto mais simples for o jogo, mais malta se predispõe a jogá-lo.
Modern Art é um jogo simples. Tem um conceito simples, uma mecânica simples e um objectivo simples. Tenho-o usado mesmo como introdução ao universo dos jogos de tabuleiro e tem tido grande aceitação por parte dos caloiros.
Por outro lado tem sido o título que mais tenho jogado nos últimos 4 meses e posso dizer que já não consigo deixar do jogar. Sou um jogador paciente e conservador, pelo que não é costume perder dinheiro com as transacções e tenho tido a felicidade de encher os bolsos com as vendas. Tenho notado alguma evolução nesta nobre arte do comércio de telas e embora seja virtual, devo dizer que se fosse a sério, meus amigos, estava multimilionário.
Modern Art, apesar do seu brilhantismo tem o seu calcanhar de Aquiles nos componentes. É dos jogos mais pobres a esse respeito que tive a oportunidade de jogar. Ainda para mais quando o tema é tão rico. Este jogo poderia servir dum bom veículo para mostrar a obra de pintores aos jogadores, principalmente a todos aqueles que não ligam patavina aos pincéis e às telas. Meia dúzia de partidas e qualquer um já sabia distinguir um pintor impressionista dum expressionista a milhas de distância. Penso que se as cartas tivessem reproduções de quadros famosos e de estilos diferentes o jogo teria uma componente educativa bastante grande e serviria até para os pais poderem mostrar aos seus rebentos os meandros da pintura.
Infelizmente os responsáveis de Mayfair Games assim não o entendem e preferem apostar no humor, inventando para o efeito, pintores atormentados pela vida e sem um talento especial, tirando talvez as obras do pintor Yoko que, pelo menos, sempre representam a Pop Art. Verdadeiramente arrepiante a forma como o jogo é tratado!

Quanto ao jogo propriamente dito, tudo se baseia no leilão. Cada jogador recebe uma mão de cartas e, à vez, vai colocando os quadros em cima da mesa para serem leiloados. Existem vários tipos de leilão:
O aberto - onde todos os jogadores vão subindo a parada até que ninguém cubra o último valor.
O leilão duma ronda - onde cada jogador, seguindo os ponteiros do relógio, tem apenas uma possibilidade de fazer a sua oferta.
O leilão fechado - onde os jogadores colocam a sua oferta em mão fechada e revelam simultaneamente o valor desta.
Existe também a possibilidade da venda ser directa, onde o jogador pede um valor pelo quadro sendo este vendido a quem o quiser comprar.
Existe, sob certas circunstâncias, a possibilidade de vender dois quadros ao mesmo tempo, tendo o jogador que os coloca à venda uma fonte de receita não negligenciável, até porque em cada turno só é permitido vender um quadro por jogador.
Cada quadro tem nele a inscrição do tipo de leilão a utilizar para a sua venda. Existem leilões em que os quadros atingem valores mais elevados, como o caso do leilão aberto. Um leilão fechado poderá render menos umas moedas que um leilão de uma ronda, embora este género de observações seja bastante relativo.
Basicamente é isto, os jogadores vão colocando sobre a mesa os quadros que querem vender e com os quais pensam obter uma maior receita, ou então numa manobra mais arriscada, contribuírem para estragar o jogo dos outros.
No final de cada uma das 4 rondas do jogo fazem-se contas.
Os 3 autores mais vendidos (dum total de seis) terão os seus quadros valorizados. Assim os quadros comprados do autor mais vendido renderão ao seu comprador 30 dinheiros, o segundo 20 e o terceiro 10.
A estes valores somam-se os valores das rondas seguintes, de forma que quanto mais se venderem os quadros dum autor, mais valiosos se tornam, tendo sempre em atenção que existe um universo limitado de pinturas dum determinado pintor.
No fim de tudo o jogador que tiver mais dinheiro é o vencedor.
Tudo muito simples e funcional.

O que assistimos na mesa é um envolvimento constante dos participantes no jogo. Ora leiloando, ora especulando, ora tramando o parceiro. A única coisa que interessa é ganhar dinheiro, fazer valorizar os quadros dos pintores que se tem em mão e vender tudo ao melhor preço possível.
Um dos aspectos interessantes do jogo é que a experiência do jogar varia muito consoante os jogadores. Existem jogadores que se esforçam por desvalorizar os quadros comprados pelos outros e jogadores que, o que lhes interessa, é dinheiro em caixa.
Ao certo não se sabe qual a receita para se vencer uma partida de Modern Art. Há quem diga que os quadros não devem ser comprados a mais de metade do preço de mercado, outros dizem que não, outros dizem que o que rende é comprar os próprios quadros, outros dizem que essa atitude é deitar dinheiro fora.
Gerir esta especulação é que torna o jogo motivante. Normalmente colocar na mesa um quadro do pintor da berra é mais gratificante para o vendedor e para o comprador que colocar um quadro dum pintor sem historial. Mas isso depende muito dos jogadores que estiverem na mesa e das cartas que se tem em mãos. Mas este raciocínio é o mais habitual e o que melhores frutos dá.
Modern Art é um pau de dois bicos, por um lado pode produzir reviravoltas extraordinárias ou então, pelo contrário, pode ser bastante previsível. Claro que a primeira situação torna o jogo mais motivante para quem o joga, mas são raros os jogos em que isso acontece. A experiência dos jogadores contribui para que o jogo seja mais prolongado e mais difícil, mas basta um elemento mais inexperiente para que as surpresas acabem. Nesse particular existem desequilíbrios que tendem a beneficiar quem menos arrisca. Nada de extraordinário mas que pode chatear os mais exigentes.
Mas seja como for eu adoro o jogo. Demora 45 minutos e os leilões constantes trazem um certo charme que só é beliscado pelos horríveis componentes, que nos relembram que Modern Art é apenas um jogo.
Em suma, se anda à procura dum jogo fácil, divertido, com muita interacção e que se jogue rápido, Modern Art é o seu alvo. É barato e o tema envolve bem os jogadores. É difícil pedir mais. Aconselho a compra duma boa garrafa de vinho. Afinal de contas, durante 45 minutos você está a sentir no pêlo o que é negociar arte e isso, caro leitor, exige alguma sofisticação.
Pontos Positivos:
- Jogo rápido e muito fácil de aprender
- Grande envolvimento entre jogadores e tema
- Quando jogado com jogadores experientes tudo pode acontecer
- O preço
- A possibilidade duma nova edição pode tornar a experiência visual de Modern Art mais interessante
Pontos Negativos:
- Componentes tão maus que até fazem chorar o mais insensível dos jogadores
- Tem alguns desequilíbrios que beneficiam os mais conservadores






























