03 janeiro 2007

2006: o ano da jogatana!

A introdução audaz

Chegada a altura do balanço, pode-se dizer, sem medo de mentir, que para mim 2006 foi o ano que se seguiu a 2005! Mas, mais importante do que isso, 2006 também foi o ano da Jogatana (que é, como se sabe, um signo chinês muito conhecido)! De facto, posso dizer sem correr o risco de pecar por exagero grosseiro, que este ano joguei mais vezes do que no ano anterior!

Também posso revelar, em primeira mão, que, numa atitude sem precedentes na minha carreira artística, durante este ano registei pacientemente *todas* as sessões de jogo em que participei, utilizando a ferramenta do BGG que existe para o efeito, numa manifestação de geekismo tão surpreendente como inesperada, num homem com a minha atraente compleição física, que não usa óculos e é capaz de manter uma conversa normal com uma mulher durante minutos e minutos, sem desmaiar num turbilhão orgásmico e suado, antes da primeira palavra.

Eestarei a geekificar? Estarei a ser vítima de um processo de transformação gradual e irreversível que culminará com a minha metamorfose total, morrendo para sempre Zorg, o atleta escultural, altivo e orgulhoso, mas sociável e bem sucedido junto das damas, surgindo no seu lugar Zorg, o geek patético, mirrado, fotofóbico e autista?

Ou, por outras palavras, estarei condenado a transformar-me num Hugo?

Esperemos que não e que esta mania parva de registar as sessões de jogos não passe de um delírio, passageiro e sem consequências, e não seja um sintoma preocupante de uma geekite galopante e imparável, contraída via tampo de sanita infectado, numa qualquer casa de banho pública deste país.

Mas, agora que o mal está feito, há que aproveitar os resultados! E a verdade é que agora disponho de informações exactas, quase até ao lançamento dos dados, sobre todos os jogos que joguei em 2006! Iupiiiiiiiiiiii! Assim é fácil tecer alguma considerações inteligentes e fundamentadas!

Infelizmente, eu não gosto de coisas fáceis, pelo que vou optar pelo caminho mais difícil e escrever meia dúzia de banalidades, sem qualquer interesse.

Os mais jogados

O jogo mais jogado em 2006 foi o simpático Roma!

É verdade, de acordo com os registos, joguei Roma 27 vezes! 27 vezes! Nada mau!

Para isto contribuiram certamente o facto de eu gostar muito do jogo (e até já ter escrito qualquer coisa sobre ele, neste blog - é chafurdar para aí, que alguma coisa deve surgir), o facto de ser um jogo exclusivamente para 2 jogadores, o que o torna elegível para ser jogado com 2 jogadores, ao abrigo da Lei Hugo número 27 (a que estabelece inequivocamente quais os jogos elegíveis para serem jogados a 2, pelo Hugo) e também o pouco tempo que cada sessão de Roma pode durar. Todas estas razões fazem-me acreditar que este continuará a sua carreira de sucesso em 2007...

O segundo jogo mais jogado deste ano foi - e este é surpreendente - o Caylus, com um total de 23 vezes! 23 jogos de Caylus, um jogo que não é, como qualquer gajo que já o tenha jogado sabe, propriamente um canapé! 23 jogos de um complexidade, bruteza e algum fundo... é de homem!

A uma média de 2 horas por jogo, significa que passei 46 horas deste ano, ininterruptamente a tentar construir partes de um castelo, numa qualquer terreola de França, quando poderia estar a fazer coisas muito mais produtivas, como por exemplo, escrever posts idiotas para este blog, tricotar camisolas de malha para o Inverno, ou registar sessões de jogo no BGG! No entanto, há um pormenor importante que diminui a dimensão da insanidade: destas 23 sessões de Caylus, só umas 11 ou 12 é que foram ao vivo e a cores, o que reduz o tempo total de construção de castelos em França para umas muito mais aceitáveis 27 ou 28 horas (porque no BSW cada jogo demora uns 20/30 minutos). Mesmo assim é muito!

Outros jogos muito jogados foram Thurn und Taxis, Modern Art, Puerto Rico, Um Reifenbreite, ou os aperitivos Lost Cities e Schotten Totten, todos com mais de 10 jogos registados.

A distribuição

Outra observação interessante que se pode fazer, olhando para estes dados, é a distribuição de cada jogo ao longo do ano. Tomem-se o Um Reifenbreite e o Puerto Rico como exemplo: ambos foram jogados 12 vezes no ano que findou, mas enquanto o Um Reifenbreite foi jogado principalmente até Maio/Junho, que é quando as saudades da volta a França começam a apertar e um gajo sente necessidade de brincar com bicicletas, o Puerto Rico só foi jogado em Dezembro, que foi quando o comprei nos saldos da Ti Ivone Dos Jogos, e também é a altura em que um gajo sente necessidade de chicotear uns escravos e produzir umas matérias primas numa qualquer ilha das caraíbas.

Os menos jogados

Olhando para a parte de baixo da lista, para os menos jogados, também há sentimentos ambivalentes. Se por um lado é inevitável ir buscar uma chibata e proceder a uma sessão de auto-fustigação ritual, como castigo por pérolas como Wallenstein, Mare Nostrum com expansão, Princes of the Renaissance ou El Grande terem sido tão pouco jogados, também não é menos verdade que há alguns jogos mal amados - cujos nomes não serão referidos para evitar ferir susceptibilidades - que não me apanham a jogar outra vez, nem que me metam os testículos num torno e apertem muito, ao som de sevilhanas!

A verdade é que à medida que um gajo vai ganhando calo, vai perdendo o medo de tratar os bois pelos nomes e de ir assumindo que há jogos que pura e simplesmente não prestam... pelo menos para mim!

A conclusão

Jogar é fixe! Comer arroz de marisco é baril! Registar as sessões de jogo no geek é doentio!

As 3 actividades envolvem uma dose considerável de risco pessoal e uma grande vontade de ajudar a humanidade a vencer os desafios que se lhe deparam.

Mas é um risco que estou disposto a correr! Nas palavras imortais e carregadas de sabedoria de António "Pazada" Silva, tratador de elefantes e responsável máximo pela recolha dos dejectos do zoológico de Lisboa: é um trabalho duro, mas alguém tem de o fazer!

02 janeiro 2007

2006

Cá chegamos a mais um ébrio Dezembro e começa a ser altura de fazer alguns balanços. É sempre complicado enumerar meia dúzia de jogos e considerá-los os melhores dum determinado ano. É difícil porque existem centenas de títulos novos que saíram para o mercado e eu só tive a oportunidade de experimentar uma percentagem muito pequena deles. Ainda para mais Essen teve lugar há muito pouco tempo e só aos poucos é que vamos percebendo o que realmente aconteceu por lá.
Por isso, e imbuído dum espírito de sensatez que aliás já me é habitual, decidi antes fazer uma lista das melhores sessões de 2006 em que participei. Este ano foi muito bom nessa matéria e as jogatanas sucederam-se a um bom ritmo, pelo que difícil foi mesmo escolher as mais divertidas e as mais emocionantes. Por outro lado também é uma forma de poder homenagear os jogos que passaram pelas mesas e que mais brilharam e contribuíram não só para a formação de novos jogadores mas também para consolidar os habituais. É afinal esta a magia dos jogos de tabuleiro, o convívio entre as pessoas, e a possibilidade de enfrentarmos os amigos em ambientes diferentes e motivantes, seja na idade média, seja nos leilões de arte, nas margens do Tigre e do Eufrates ou numa corrida de formula um.

1 – Modern Art
Se houve jogo que joguei incansavelmente este ano foi esta maravilhosa obra de Reiner Knizia. Daí o primeiro lugar. Mas Modern Art vai ficar para sempre associado a este verão que foi saudavelmente passado em terras alentejanas. Juntávamos todos, munidos de garrafas de vinho da região e percorríamos as horas da madrugada a leiloar quadros e mais quadros. Claro que para o fim da noite já não havia muito discernimento para leiloar seja o que for, mas acontecesse o que acontecesse e fossem quais fossem as circunstâncias da noite não sobrava nenhuma garrafa de vinho para o dia seguinte. Foram 7 dias em beleza passados entre a piscina, os prazeres do vinho e a arte de Knizia.

2 – Ticket to Ride Marklin Edition
Ticket to Ride Marklin foi um jogo que sempre que apareceu nas mesas encantou todos. Não só pela sua simplicidade mas também, e especialmente, pela sua imaculada beleza. Foi um jogo que contribuiu para que houvesse mais malta em minha casa para fazer uma jogatana aos fins-de-semana e, ainda por cima, malta por quem tenho muita estima. Agradeço ao Alan Moon pelo contributo que teve para o crescimento de jogadores à minha volta.
Por outro lado também o pequeno torneio de Ticket to Ride que fizemos em Lisboa correu muito bem e toda a gente se divertiu bastante.
Uma imagem bonita foi ver os jogadores que participaram de comboios na mão a distribuírem-nos pelas cidades alemãs.

3 – Elasund
Não tanto pelo jogo, que apesar de parecer ser bom, ainda não tive oportunidade de o voltar a jogar e por isso a minha opinião está muito baseada numa única experiência. Mas essencialmente a escolha deste terceiro lugar deve-se a uma sessão que tivemos com a Bel, ilustre contribuidora do blog brasileiro obatijolo. Bel fez uma viagem por Portugal e claro que não podíamos deixar escapar a oportunidade de fazermos um jogo com ela quando chegasse a Lisboa. E foi o que aconteceu. Foi uma noite bastante agradável onde falamos imenso sobre jogos e conhecemos um pouco o grupo de jogadores do Obatijolo (especialmente a Tânia).
E pronto, a magia dos jogos também é isso, podermos juntar a uma mesa pessoas que se não fosse este hobby jamais teriam a oportunidade de estarem juntas, ainda para mais quando têm um oceano pela frente.
Deixo um sentido abraço à Bel e a todos os obatijolenses e que tenham um belo ano de 2007 com muitos posts e também muitas viagens. Se algum de vós vier a Portugal já sabem que têm aqui malta à vossa espera!

4 – Princes of Renaissance
A pancada por este PoR bateu forte no final da primavera. Foi muita a discussão que o jogo proporcionou e discutiu-se muito as possibilidades que este título abre aos jogadores. Várias estratégias, guerra, bluff, leilão e muita interacção. Jogámos várias vezes e todas elas foram sempre deliciosas. Incompreensivelmente deixou-se de o jogar, consequência da quantidade de jogos que chegam da Alemanha. Mas é um jogo e pêras. Espero que seja posta no mercado a nova versão para a juntar à minha colecção. Gosto daquele leilão onde os jogadores vão controlando os gastos uns dos outros e depois aquela particularidade das guerras servirem para angariar dinheiro deliciam qualquer um. Wallace no seu melhor.

5 – El Grande
Foi uma surpresa para mim. Não o tinha ainda jogado, apesar de conhecer a sua fama. Joguei-o num encontro de Boardgamers e apaixonei-me logo. Comprei-o e joguei-o com o meu mais recente grupo de ex-non-gamers. Brilhou em grande estilo. Toda a gente a olhar para o tabuleiro, a pensar e a ter dificuldades em decidir-se. Assim é que eu gosto. Ver os jogadores envolvidos com os cubos, com as cartas e com um olho na pontuação. Bebeu-se vinho da Catalunha para dar ambiente às pupilas gustativas dos participantes e só acabámos já o sol se tinha posto. Toda a gente feliz por ter passado uma tarde das suas vidas a jogar um jogo fabuloso. El Grande é um grande desafio e andamos todos caidinhos por ele. Em 2007 tenho a certeza que vai encher as mesas da malta.

6 – Puerto Rico
Tem vindo a ganhar fama entre os jogadores que me rodeiam. Bem sei que é um jogo antigo, mas só o descobrimos verdadeiramente agora. Portanto andamos todos a afinar estratégias e a jogá-lo bastante. Dum momento para o outro já quase todos nós comprámos uma cópia para ter em casa, o que demonstra a sua qualidade. Bem sei que não é o estilo de muita gente, mas é um jogo com uma mecânica soberba e onde a interacção entre os jogadores está tão bem sacada que quase não se nota, mas que a há, há.
Muita gente contesta a posição alcançada de melhor jogo de sempre. Para mim é bem merecida. Posso enumerar dez jogos que gosto mais de jogar que este Puerto Rico, mas admito que é um jogo soberbo a todos os níveis e também muito viciante.
Foi ao mesmo tempo, peça principal dum torneio em Lisboa que correu bastante bem e que acabou por contribuir para que mais malta venha a estes torneios mensais.

7 – Struggle Of Empires
Foi logo ao princípio do ano, mas foi uma grande e emocionante sessão. 6 jogadores e um mundo por conquistar. Muita negociação, muitos interesses envolvidos e muito sangue.
Gosto imenso deste jogo ou não tivesse ele a assinatura do grande Wallace, e a sessão que fizemos, num dos primeiros encontros de Boardgamers do ano, usámo-lo para conseguir albergar no tabuleiro todos os participantes do encontro (6). O resultado foi o que se pode esperar dum jogo de Martin Wallace. Faz lembrar, de alguma maneira, o velhinho Risco e foi bom para mim voltar a sentir os destinos do mundo nas minhas mãos. Claro que a contrário do Risco este SoE é bastante mais evoluído e tem mais decisões num turno que o Risco num jogo inteiro, mas ver as nossas tropas todas dum lado para o outro no mapa mundo é sempre emocionante. Nunca mais o joguei o que é uma pena. Mas o facto de envolver conflitos militares acaba por afastar muitos dos gamers. Para mim, homem destemido, não há nada como um bom jogo de guerra para me alegrar a alma.

8 – Poker
É um jogo de cartas simples e todos os anos o ritual mantém-se. No dia de Natal, à tarde toda a família da minha namorada se reúne para uma partida de Poker. É a feijões, não existe nenhum dinheiro envolvido, mas a paixão com que se joga é tão grande que não se nota, ao longo das 5 horas, que estamos só na reinação. O objectivo é ganhar as fichas todas da mesa. Joga-se pela fama de se ser o melhor jogador de Poker da família e isso tem mais valor que qualquer maço de notas de euro que se possa levar para casa.

9 – Commands and Colors
Só o joguei a sério uma vez. Foi com o grande Zorg, e demorei algum tempo para entender a mecânica, mas quando deu o click fiquei apaixonado. Bebemos vinho e a batalha demorou a ser resolvida. É o melhor jogo a dois que se pode encontrar no mercado. É caro, é sim senhor, dá muito trabalho a colar aqueles autocolantes todos, dá sim senhor, mas confiem em mim, vale cada cêntimo. Nunca a guerra foi tão fantástica. Ao mesmo tempo este jogo permite ao jogador começar a olhar com curiosidade para os outros jogos de guerra que por aí andam. E como não há nada como um jogador estar bem informado, já começam a circular entre nós livros sobre a queda de Cartago, e sobre a história dos conflitos armados. Agora, para que a experiência seja mais real ainda, só falta comprar um elmo e uma espada.
Pela glória de Roma!

10 – Roma
Finalizo esta pequena lista com mais um título para dois jogadores. A verdade é que me fartei de jogar Roma e acho o jogo extraordinário para o fim a que se propõe e por isso merece este lugar. Dois jogadores e uma mecânica muito inteligente que permite pensar e também usar a imaginação para dar a volta às situações que vão surgindo ao longo duma partida. É rápido e motivante e está tudo dito.

E já que estou numa de balanço, vou armar-me em Professor Marcelo e dar também a minha lista de pontos positivos e pontos negativos do ano.
Os pontos positivos, felizmente são muitos. Começam logo por haver cada vez mais mesas disponíveis para a jogatana e mais jogadores para jogar. Dois factores importantes foram os responsáveis, o facto dos meus amigos e eu próprio termos comprado casa, havendo mais espaço e possibilidade de jogo e também por se sucederem os encontros de jogadores que trazem com eles uma verdadeira multidão de fanáticos que se juntam e jogam tudo o que há para jogar.
Outro dos pontos positivos que tenho de salientar é a existência de blogues sobre jogos de tabuleiro escritos em português que viram a luz do dia este ano. O ObaTijolo dos nossos amigos além mar, o SpielPortugal com novas críticas todas as semanas, o Bodegueims que tem a particularidade dos posts serem escritos em inglês e português e claro o site que serve de ponto central a isto tudo, o AbreoJogo. Se fosse o dono da Time elegia como personalidade do ano o Ricardo Madeira que nos tem juntado todos e feito os possíveis para que malta do RPG jogue também no tabuleiro.
Ponto negativo só mesmo a minha namorada continuar sem achar piada nenhuma a esta coisa dos jogos.

E pronto, foi assim 2006, que venha agora 2007 e que para o ano cá estejamos todos com a casa cheia de jogos.

15 dezembro 2006

Session Report: Railroad Tycoon

Apesar de já o ter comprado há quase 8 meses, nunca tivera chegado a oportunidade ideal para o jogar. Várias tentativas tinham sido feitas, mas sem qualquer sucesso. Ou porque faltavam jogadores ou porque não havia mesa suficientemente grande para albergar convenientemente o tabuleiro ou então porque a namorada fartava-se de me ver sempre a jogar e queria passear ou ir ao cinema no fim-de-semana.
Seja como for, uma coisa sentia-se, quanto maior era a espera, maior era a ansiedade e também maior a expectativa que eu tinha em relação a esta versão americana do extraordinário Age of Steam do mestre Wallace.



Comprei o jogo por uns míseros 35 euros numa loja online alemã o que fazia e faz deste exemplar uma jóia rara, até porque tinha vindo a público recentemente a notícia sobre a falência da Eagle e, portanto, nessa sequência, confesso, todos os dias em silêncio sentava-me no sofá a olhar para a caixa do jogo com um carinho semelhante ao carinho duma mãe pela sua cria.
Enfim, lá consegui convidar a malta de Moscavide (recém convertida ao Hobby) para uma partida. Já antes tinham feito a sua estreia com Ticket to Ride e Ra e portanto era chegada a hora para um jogo mais exigente e também ele mais pesado tanto nas escolhas que o jogador faz como na duração.
Sinto em relação a este pequeno grupo um carinho especial porque o ando a trabalhar convenientemente, dando-lhe apenas as quantidades certas de jogatana de forma a não o saturar e, ao mesmo tempo, criando nele uma espécie de formigueiro que o faz ansiar pela próxima vez. Em termos de Boardgames, sou para esta gente uma figura paternal, carinhosa e carismática que os defende dos perigos de outros jogos que rondam as mesas e que podem arruinar a felicidade de qualquer um como o Trivial, o Pictionary ou o Monopoly.
É bom sentir-me no difícil papel dum mestre cujos discípulos depositam nele o seu tempo e confiança e aceitam as suas escolhas sem as confrontar.



Mas, se este clima de respeito e amabilidade é um factor primordial na relação mestre/discípulos, quando chega a altura de nos sentarmos à mesa, estes nobres sentimentos são postos para trás e começa a haver uma certa tensão, onde os educandos lutam furiosos com o mestre de forma a salientarem as suas aptidões para a jogatana, humilhando sem escrúpulos e sempre que possível o homem que tanto os ensinou e lhes abriu os olhos e coração para um hobby que de outra forma não iriam conhecer.
Apesar das minhas derrotas nestes particulares encontros, tenho de confessar que o ambiente é extremamente agradável em todas as singularidades que envolvem o jogo propriamente dito. O novo jogador, o Luís, jogador de elevadas capacidades no Bridge e bilhar às 3 tabelas, trouxe um pouco de charme ao oferecer á mesa uma garrafa de Vinho do Porto e um tábua de queijos que muito deleitou os convivas e as pupilas gustativas dos mesmos.
Quanto ao jogo, esse, como se esperava, escorregou tão bem como o vinho. Tudo correu ás mil maravilhas e o envolvimento dos jogadores foi sempre elevado havendo muita interacção e disputa, tanto pelos pontos como pelas mercadorias e também, porque não dizê-lo, pelas fatias do melhor queijo.
Railroad Tycoon brilhou como seria de esperar. Os componentes, com carradas de miniaturas e dinheiro representado em notas em tamanho real, envolveram todos e o mapa, gigantesco, ao contrário do que eu esperava, acabou por complicar um bocado pois restava pouco espaço para os jogadores colocarem os cotovelos, isto apesar da boa educação não o permitir, causando algum desconforto.
A luta pela vitória foi renhida e só no final do jogo é que se soube quem venceu. Sorriu ao Luís, que soube inteligentemente gerir o dinheiro que ganhava em cada ronda, mostrando-se sempre poupado e ponderado nas escolhas que fazia. Este facto foi bastante apreciado pela namorada que olhava para ele com uma certa admiração, conseguindo antever um futuro promissor e com uma conta bancária recheada.
Oh Guida, deixa lá de sonhar e joga mas é!



No fim, já a noite ia longa, todos ficamos contentes e tivemos de acordar o Paulo que mesmo a dormir durante a sessão conseguiu ficar em segundo.
O jogo é muito bom, exige bastante ponderação e um sentido apurado para aproveitar as oportunidades que vão surgindo no mapa. São várias as opções que o jogador toma durante a partida, envolvendo-se emocionalmente com os comboios, com as cidades e com a empresa que vai criando.
Como diria a minha sobrinha:
- Pouca terra, pouca terra!

29 novembro 2006

Babar: A arte de Mike Doyle

Dei por mim há relativamente pouco tempo a pensar que as editoras de jogos poderiam investir em edições limitadas para coleccionadores. Seria um negócio em princípio bem lucrativo, principalmente quando se trata de jogos que têm grandes adeptos. Falo do Puerto Rico, do Caylus, Tigre e Eufrates, Catan, Formula Dé, etc. As tiragens seriam obviamente limitadas e qualquer fã não resistiria a gastar uma boa maquia para ter uma edição de luxo do seu título preferido. Para mostrar aos amigos ou para simplesmente ficar a olhar para ela. Um pouco à semelhança do que a indústria de Hollywood faz com as edições de DVD.
Ora este tema veio outra vez à baila a propósito da edição brasileira de Modern Art. Saúda-se a audácia da Odysseia em apostar numa edição luxuosa dum jogo extraordinário e que certamente vai vender muitos exemplares, pelo menos assim o espero. (reparem como me faço à oferta dum exemplar por parte dos responsáveis da Odysseia).
Ora o autor do design da magnífica edição brasileira é um senhor chamado Mike Doyle, designer de profissão e adepto incondicional de jogos de tabuleiro. Colabora com muitas editoras e é para mostrar o seu trabalho que decidi publicar este singelo post.
Não há muito a dizer sobre o senhor, mas certamente muito para ver.
Aconselho vivamente a consulta do site e babem-se com os projectos pessoais deste designer e o que ele conseguiu fazer de jogos tão conhecidos como Tempus, Catan, Tigre eEufrates, Caylus, Dune, Age of Mythology. Percam-se nos links e nas imagens e depois digam qualquer coisa.

http://mdoyle.blogspot.com/



27 novembro 2006

Ensaio: Caçadas, pescarias e jogatanas

Estava a eu a passear pela costa litoral portuguesa quando me deparo com pescadores de ar sorridente, de cana de pesca na mão a tentarem a sua sorte num domingo soalheiro.
A paz e a tranquilidade que esses pescadores sentiam fizeram-me pensar como é bom ter um hobby que funcione como um escape para o corrupio diário que todos nós sentimos durante a semana.
Já antes também tinha observado, com algum entusiasmo, figuras nocturnas com os seus corpos estacionados à esquina das ruas esperando a chegada de outros companheiros para uma caçada em terras alentejanas.
Nunca fui um admirador das caçadas nem das pescarias pelo que nunca me meti nisso, mas para quem o faz, nota-se um brilho nos olhos cada vez que se fala no hobby que escolheram. È natural, afinal de contas são estes pedaços de tempo que tornam as vidas de cada um suportáveis e apetecíveis.
Como sabem todos aqueles que por aqui andam, há bem pouco tempo também eu escolhi um hobby. Os jogos de tabuleiro. Bem sei que é uma coisa que não traz estatuto nenhum e que causa alguma estranheza naqueles que estão mais habituados aos nomes de Monopolio e Trivial. É natural, até porque estes dois exemplos são o cúmulo da chatice e nada de verdadeiramente motivante acontece nesses tabuleiros.
- Qual é a capital de Turquia? Como se chamou o Presidente dos EUA assassinado em Dallas?

Normalmente quando digo a alguém que tenho uma tara por jogos de tabuleiro, os segundos seguintes a tal afirmação transformam-se num silêncio pouco sedutor para a minha pessoa e sinto que acabo de descer uns pontos na consideração da criatura que, cheia de boas intenções, fala comigo. A partir da revelação a conversa tem tendência para ficar incómoda e sinto uma súbita pressa do interlocutor em se pirar o mais depressa de ao pé de mim.
Ter o Hobby dos jogos de tabuleiro não é muito gratificante socialmente. Começa logo pelo trabalho. Imaginemos uma entrevista de emprego. A determinada altura o empregador vira-se e pergunta:
- Sim senhor, temos aqui um excelente currículo. Bem vejo que tem uma experiência considerável no ramo. Tem algum hobby?
Este tipo de perguntas colocam uma pessoa como eu entre a espada e a parede. Por um lado a acção imediata é contar a verdade. Sim senhor tenho um hobby chamado jogos de tabuleiro. Havia de experimentar, porventura até era capaz de lhe fazer bem.
Seja como for, se decidirmos arriscar, a resposta vem desinteressada como sempre:
- Hum...

Mesmo em jantares sociais a coisa também descamba. Principalmente quando as pessoas envolvidas se tentam conhecer umas às outras. Uns jogam futebol, outros fazem Jogging, outros caçam, outros pescam, outros jogam Playstation e ainda há alguns que vão ao futebol.
- E tu Hugo, quais são os teus interesses?
E se, entusiasmado, avanço com a verdade, uma vez que se o jogar Playstation e o ver futebol não despertou estranheza dos presentes, a resposta, ao contrário do que gostava veio enigmática:
- Hum...

Já com as mulheres o caso é ainda mais dramático. Existe uma dificuldade tremenda em aceitarem os jogos de tabuleiro como um hobby como outro qualquer. Não sei porquê, se calhar é mesmo uma questão de estatuto. Deve ser porque têm medo de dizer umas ás outras que o marido tem como hobby os jogos de tabuleiro. Têm a mania das grandezas é o que é. Se fosse pesca ou caça, hobbys de estatuto lendário, se calhar nem se importavam:
- Vê lá que o meu marido foi ao Alentejo caçar...
A reacção dos pares perante este desvendar privado desperta não só a aceitação como também a cobiça pelo macho.
- Interessante...interessante....
Ora os jogos de tabuleiro não conseguem competir com o alarido dum peixe esventrado num anzol ou dum coelho desfeito com um tiro na cabeça. Tenho notado muitas dificuldades dos parceiros de jogatana em conseguirem arranjar tanto tempo para o hobby como os caçadores para a caça, ou os golfistas para o golf.
Eu que o diga, cada encontro pode ser um martírio.
- Oh querida! Toma lá este perfume que me custou 50 euros e já agora esta sexta à noite não contes comigo porque tenho um encontro com a malta dos jogos. Prometo que não mato nenhum animal nem gasto dinheiro nenhum.
Mas, apesar das minhas intenções pacíficas, a resposta já é há muito conhecida:
- Hum...

15 novembro 2006

Critica: Modern Art

Têm sido correntes as conversas em torno da hipótese de nos próximos dias alguém vencer o Euromilhões e ficar com aquele dinheirão todo.
É sempre bom ouvir as pessoas a falarem nessa hipótese como se fossem favas contadas:
-Ai eu primeiro fazia isto, e depois também fazia aquilo...
Uma coisa parece certa, a maioria dos teóricos das fortunas virtuais são da opinião que qualquer pessoa que ganhasse tanto dinheiro teria de ocupar o tempo em alguma coisa. Aparentemente não é possível estar muito tempo sem fazer nada. Segundo um psicólogo autor dum livro sobre coisas relacionadas com a psicologia, o Homem é um ser que precisa de se mexer, de se envolver em alguma coisa para se sentir realizado e feliz.
E possibilidades não faltam. Uma rápida consulta pelos que me são mais próximos foi reveladora dos planos. Um jogava na bolsa, outro passeava 5 anos pelo mundo, outro dava-se como voluntário para ajudar os outros, outra ia adoptar crianças pró Sri Lanka, etc., etc.
- E tu, Hugo? Hum? O que é que fazias se te saísse tanto dinheiro?
A resposta não veio imediata, mas uma reflexão mais profunda revelou-a:
- Eu, eu acho que iria negociar arte!
O espanto invadiu a cara de todos aqueles que me ouviram, mas sem saberem que, por detrás desta revelação estão cerca de 4 meses de grande experiência em especulação e também a compra e venda de quadros dos maiores pintores do mundo. É um talento que tendo a esconder de todos mas que muito me orgulha, especialmente quando estou bêbado.



Tudo isto se deve ao génio de Reiner Knizia. Homem de ofícios vários que no longínquo ano de 1992 se lembrou de criar um dos jogos mais simples do mercado e também dos mais interessantes. Corre por entre alguns jogadores a teoria de que quanto mais simples um jogo for melhor este se torna. Não subscrevo a 100% esta afirmação, mas uma coisa é certa, quanto mais simples for o jogo, mais malta se predispõe a jogá-lo.
Modern Art é um jogo simples. Tem um conceito simples, uma mecânica simples e um objectivo simples. Tenho-o usado mesmo como introdução ao universo dos jogos de tabuleiro e tem tido grande aceitação por parte dos caloiros.
Por outro lado tem sido o título que mais tenho jogado nos últimos 4 meses e posso dizer que já não consigo deixar do jogar. Sou um jogador paciente e conservador, pelo que não é costume perder dinheiro com as transacções e tenho tido a felicidade de encher os bolsos com as vendas. Tenho notado alguma evolução nesta nobre arte do comércio de telas e embora seja virtual, devo dizer que se fosse a sério, meus amigos, estava multimilionário.
Modern Art, apesar do seu brilhantismo tem o seu calcanhar de Aquiles nos componentes. É dos jogos mais pobres a esse respeito que tive a oportunidade de jogar. Ainda para mais quando o tema é tão rico. Este jogo poderia servir dum bom veículo para mostrar a obra de pintores aos jogadores, principalmente a todos aqueles que não ligam patavina aos pincéis e às telas. Meia dúzia de partidas e qualquer um já sabia distinguir um pintor impressionista dum expressionista a milhas de distância. Penso que se as cartas tivessem reproduções de quadros famosos e de estilos diferentes o jogo teria uma componente educativa bastante grande e serviria até para os pais poderem mostrar aos seus rebentos os meandros da pintura.
Infelizmente os responsáveis de Mayfair Games assim não o entendem e preferem apostar no humor, inventando para o efeito, pintores atormentados pela vida e sem um talento especial, tirando talvez as obras do pintor Yoko que, pelo menos, sempre representam a Pop Art. Verdadeiramente arrepiante a forma como o jogo é tratado!



Quanto ao jogo propriamente dito, tudo se baseia no leilão. Cada jogador recebe uma mão de cartas e, à vez, vai colocando os quadros em cima da mesa para serem leiloados. Existem vários tipos de leilão:
O aberto - onde todos os jogadores vão subindo a parada até que ninguém cubra o último valor.
O leilão duma ronda - onde cada jogador, seguindo os ponteiros do relógio, tem apenas uma possibilidade de fazer a sua oferta.
O leilão fechado - onde os jogadores colocam a sua oferta em mão fechada e revelam simultaneamente o valor desta.
Existe também a possibilidade da venda ser directa, onde o jogador pede um valor pelo quadro sendo este vendido a quem o quiser comprar.
Existe, sob certas circunstâncias, a possibilidade de vender dois quadros ao mesmo tempo, tendo o jogador que os coloca à venda uma fonte de receita não negligenciável, até porque em cada turno só é permitido vender um quadro por jogador.
Cada quadro tem nele a inscrição do tipo de leilão a utilizar para a sua venda. Existem leilões em que os quadros atingem valores mais elevados, como o caso do leilão aberto. Um leilão fechado poderá render menos umas moedas que um leilão de uma ronda, embora este género de observações seja bastante relativo.
Basicamente é isto, os jogadores vão colocando sobre a mesa os quadros que querem vender e com os quais pensam obter uma maior receita, ou então numa manobra mais arriscada, contribuírem para estragar o jogo dos outros.
No final de cada uma das 4 rondas do jogo fazem-se contas.
Os 3 autores mais vendidos (dum total de seis) terão os seus quadros valorizados. Assim os quadros comprados do autor mais vendido renderão ao seu comprador 30 dinheiros, o segundo 20 e o terceiro 10.
A estes valores somam-se os valores das rondas seguintes, de forma que quanto mais se venderem os quadros dum autor, mais valiosos se tornam, tendo sempre em atenção que existe um universo limitado de pinturas dum determinado pintor.
No fim de tudo o jogador que tiver mais dinheiro é o vencedor.
Tudo muito simples e funcional.



O que assistimos na mesa é um envolvimento constante dos participantes no jogo. Ora leiloando, ora especulando, ora tramando o parceiro. A única coisa que interessa é ganhar dinheiro, fazer valorizar os quadros dos pintores que se tem em mão e vender tudo ao melhor preço possível.
Um dos aspectos interessantes do jogo é que a experiência do jogar varia muito consoante os jogadores. Existem jogadores que se esforçam por desvalorizar os quadros comprados pelos outros e jogadores que, o que lhes interessa, é dinheiro em caixa.
Ao certo não se sabe qual a receita para se vencer uma partida de Modern Art. Há quem diga que os quadros não devem ser comprados a mais de metade do preço de mercado, outros dizem que não, outros dizem que o que rende é comprar os próprios quadros, outros dizem que essa atitude é deitar dinheiro fora.
Gerir esta especulação é que torna o jogo motivante. Normalmente colocar na mesa um quadro do pintor da berra é mais gratificante para o vendedor e para o comprador que colocar um quadro dum pintor sem historial. Mas isso depende muito dos jogadores que estiverem na mesa e das cartas que se tem em mãos. Mas este raciocínio é o mais habitual e o que melhores frutos dá.
Modern Art é um pau de dois bicos, por um lado pode produzir reviravoltas extraordinárias ou então, pelo contrário, pode ser bastante previsível. Claro que a primeira situação torna o jogo mais motivante para quem o joga, mas são raros os jogos em que isso acontece. A experiência dos jogadores contribui para que o jogo seja mais prolongado e mais difícil, mas basta um elemento mais inexperiente para que as surpresas acabem. Nesse particular existem desequilíbrios que tendem a beneficiar quem menos arrisca. Nada de extraordinário mas que pode chatear os mais exigentes.
Mas seja como for eu adoro o jogo. Demora 45 minutos e os leilões constantes trazem um certo charme que só é beliscado pelos horríveis componentes, que nos relembram que Modern Art é apenas um jogo.
Em suma, se anda à procura dum jogo fácil, divertido, com muita interacção e que se jogue rápido, Modern Art é o seu alvo. É barato e o tema envolve bem os jogadores. É difícil pedir mais. Aconselho a compra duma boa garrafa de vinho. Afinal de contas, durante 45 minutos você está a sentir no pêlo o que é negociar arte e isso, caro leitor, exige alguma sofisticação.

Pontos Positivos:
- Jogo rápido e muito fácil de aprender
- Grande envolvimento entre jogadores e tema
- Quando jogado com jogadores experientes tudo pode acontecer
- O preço
- A possibilidade duma nova edição pode tornar a experiência visual de Modern Art mais interessante

Pontos Negativos:
- Componentes tão maus que até fazem chorar o mais insensível dos jogadores
- Tem alguns desequilíbrios que beneficiam os mais conservadores


09 novembro 2006

Review: San Juan e as cartas estaminais

Há uns bons anos atrás, um jovem empregado do registo de patentes acordou de manhã pouco contente com o comportamento da mecânica clássica em referenciais acelerados a velocidades próximas das da luz. Podia ter acontecido a qualquer pessoa! E esse jovem fez a única coisa que uma pessoa que acorda de manhã descontente com o comportamento da mecânica clássica em referenciais acelerados a velocidades próximas da luz poderia fazer: despenteou o cabelo, deixou crescer um bigode à Artur Jorge, arranjou uma mulher boa e criou a teoria da relatividade, resolvendo o problema de uma vez por todas. O seu nome era Albert Einstein e é um ícone da cultura pop, aparecendo em inúmeras t-shirts por esse mundo fora.

No entanto, o que pouca gente sabe é que Einstein não acertou à primeira! Alguns anos antes da teoria da relatividade, que prima pela elegância e simplicidade com que resolve as questões mais complicadas, publicou outra teoria, a que chamou "A teoria das explicações incrementalmente complexas para problemas decrementalmente simples e cuja complexidade se pode aferir pelo comprimento do seu título", que procurava responder às mesmas perguntas, mas de uma forma muito menos elegante e simples, que envolvia partículas subatómicas falantes, espaços a 20 dimensões e forças conscientes com comportamentos emocionalmente instáveis e contas do psiquiatra brutais.

Era a atracção natural que a juventude sente pela complexidade a sobrepôr-se à racionalidade simplificadora, que tão bons resultados costuma dar.



Há uns poucos anos atrás, outro jovem alemão acordou de manhã muito pouco contente com a oferta existente no mercado, de jogos de tabuleiro com um tema de colonização das caraíbas e com um sistema económico interessante baseado na exploração sanguinária de mão de obra escrava. Podia ter acontecido a qualquer pessoa, também. Naturalmente, esse jovem fez a única coisa que alguém que acorda de manhã descontente com a oferta existente no mercado, de jogos de tabuleiro com um tema de colonização das caraíbas e com um sistema económico interessante baseado na exploração sanguinária de mão de obra escrava, poderia fazer: despenteou o cabelo, arranjou uma mulher fogosa e sem preconceitos, tatuou uma inscrição anti-racista no pénis e criou o San Juan.

O seu nome é Andreas Seyfarth, ainda está vivo e de boa saúde, e é um ícone sexual lá na casa dele, aparecendo em inúmeras fotos!

No entanto, o que pouca gente sabe é que Seyfarth não acertou à primeira! Alguns anos antes do San Juan, que prima pela elegância e simplicidade com que resolve as questões mais complicadas, publicou outro jogo, a que chamou "Puerto Rico" e que procurava dar resposta à mesma falha, mas de uma forma muito menos elegante e simples, que envolvia moedas, milho e uns tokens castanhos esquizofrénicos, com problemas em assumir a sua identidade de escravos selvaticamente explorados.

Era, tal como no caso de Einstsein, a atracção natural que a juventude sente pela complexidade a sobrepôr-se à racionalidade simplificadora, que tão bons resultados tem dado.

É verdade meus senhores, segurem as vossas calças, para não ficarem nuinhos com o espanto e não revelarem nenhuma inscrição anti-racista tatuada num sítio menos próprio: eu acho que o San Juan é melhor que o Puerto Rico e estou disposto a defender a minha convicção num ringue, numa troca de patadas voadoras e assentamentos de espadas, como fazem os homens!

Mas vamos ao jogo!



A caixa

A caixa é pequena e pouco entusiasmante. Nem sei porque me estou a dar ao trabalho de falar dela! O que vem lá dentro ainda excita menos: um baralho de cartas, uns quadrados de cartão com os vários roles, umas tiras, também de cartão, com os vários preços possíveis para os bens, um bloco para registar os resultados e um lápis. A resposta à pergunta que todos vocês estão a fazer neste momento em voz alta é: sim, o bloco e o lápis são mais inúteis que uma caixa de preservativos numa orgia de lésbicas, mas os restantes componentes são de boa qualidade!

O jogo

Tal como o Puerto Rico, este é um jogo sobre economia... e uma economia bastante tradicional!

Há que construir um sector produtivo, pô-lo a produzir bens à custa da exploração sanguinária de trabalho escravo - não sei se já tinha referido esta parte antes - e depois trocar esses bens para obter pontos. O interesse do jogo está na forma como tudo isto é feito e na forma subtil como a exploração sanguinária do trabalho escravo é omitida dos mecanismos do jogo.

Há aqui duas ideias brilhantes, pela eficácia e simplicidade, que merecem destaque, veneração e uma dança ritual esquimó de agradecimento ao Deus Tinui, A Grande Foca Branca: os roles e as cartas estaminais.

Ideia brilhante 1: os roles

O centro do jogo são os roles, que é uma ideia brilhante, também usada no Puerto Rico.

Há 5 diferentes (builder, prospector, trader, counsellor, producer) e cada um tem uma acção e um privilégio, com excepção do prospector que só tem privilégio.

Na sua jogada, o jogador escolhe um e aplicam-se os efeitos da acção a todos os jogadores. O privilégio só se aplica a quem escolheu o role.

O Builder permite construir edifícios e o privilégio é fazê-lo com desconto. O Producer permite produzir 1 bem, numa fábrica que esteja livre, e o privilégio é poder produzir 1 bem adicional. O Trader permite trocar 1 bem por mais cartas e o privilégio é poder trocar um adicional. O Counsellor permite escolher 1 carta de entre duas e o privilégio é poder escolher de entre cinco. O Prospector não tem qualquer acção e o privilégio é poder biscar uma carta do baralho, ou seja, só a pessoa que escolhe o Prospector é que beneficia do seu efeito.

Ideia brilhante 2: as cartas estaminais

No San Juan as cartas podem representar quase tudo! Os edifícios são cartas, o dinheiro são cartas e até os recursos são cartas. Só os jogadores é que não são cartas, mas é pena, porque poderiam perfeitamente ser!

Cada carta representa um edifício e há 2 tipos: edificios de produção e edificios especiais roxinhos, como o cabelo de uma cantora punk dos anos 70, com uma fixação no roxo.

Os edificios de produção, permitem produzir. Duh. Assim, quando alguém escolhe o Producer, cada jogador retira uma carta do baralho e, sem olhar para ela, coloca-a sobre um edifício de produção que esteja desocupado. A partir desse momento, essa carta torna-se o bem correspondente ao edifício de produção. Carta estaminal a dominar!

Os edificios especiais, roxinhos, como a túnica amaricada de um cabeleireiro, obrigam a uma piadinha homofóbica inevitável: quem os constrói demonstra ser uma pessoa especial, capaz de fazer uma afirmação de modernidade, tolerância e respeito pelas opções sexuais desviadas e antinaturais dos demais jogadores. Agora que já despachámos isto, posso referir que também permitem executar acções que, em condições normais, violariam as regras do jogo, como por exemplo produzir mais bens do que o normal, quando alguém escolhe o Producer, poder trocar mais bens do que o normal quando alguém escolhe o Trader, ganhar pontos adicionais (o Guild Hall permite ganhar dois pontos por cada edificio de produção que o jogador tenha, por exemplo), etc.

Grande parte da estratégia reside, por isso, na escolha de que edifícios produzir e quando.

Para contruir um edifício é preciso tê-lo na mão (ao edifício, claro), é preciso que alguém tenha seleccionado o role de Builder e é preciso ter dinheiro para o pagar. Notar que construir, neste contexto, tem o significado muito particular de colocar a carta à frente do seu dono, virada para cima, e não construir alguma coisa mesmo, com cimento, tijolos, imigrantes ilegais, máfia russa e essas coisas, como estou certo que a maioria de vocês estava a pensar. Mas há aqui um twist interessante: o nosso Andy não se contentou com esta história dos edifícios e dos bens serem cartas e levou o conceito estaminal mais longe, fazendo das cartas também dinheiro. E são as mesmas cartas!

Ou seja, imaginemos que eu tenho 4 cartas na mão e uma delas é uma fábrica de açucar que eu pretendo construir porque, pretendo lançar-me na arriscada e perigosa aventura da produção e comércio internacional de açucar, ou tão só porque quero meter açucar no café. Imagine-se também que o Hugo tinha seleccionado o Builder, porque não deve muito à inteligência e acha a imagem na carta do Builder bonita. Quando chegar a minha vez de usar a acção do Builder, terei oportunidade de construir a tal fábrica de açucar, pagando o seu preço, ou seja 2 pesos. Mas, pagar 2 pesos significa deitar fora 2 cartas das tais 4 que tinha na mão. Ou seja, depois da acção estar concluída, terei gasto 3 cartas: a fábrica de acucar, que agora repousará linda e altaneira à minha frente, virada para cima, depois de eu a ter construído e 2 cartas adicionais que "paguei" por ela, que agora repousarão lindas e altaneiras na pilha de cartas descartadas, viradas para baixo.

Não é preciso ser um génio para perceber as decisões interessantes e difíceis que este mecanismo simples introduz no jogo:

Uso esta livraria para pagar a construção do Aqueduto, ou espero um bocado até ter mais cartas e opto antes por construi-la?

Construo este aqueduto, que me vai permitir produzir um bem adicional na fase de produção e perco este guild hall, que vai render-me muitos pontos no final?

É uma ideia simples, mas muito eficaz!

Uma ronda

Uma ronda é um processo muito simples.

O jogador que tem a carta do governador escolhe um role e toda a gente aplica os seus efeitos (embora só o próprio beneficie dos privilégios). De seguida a vez passa para a pessoa à sua esquerda que escolhe outro role, dos que sobram, e assim por diante. A ronda termina quando o último jogador (aquele que estiver sentado à direita do governador) escolher o seu e os seus efeitos forem aplicados. Nessa altura, a carta do governador é passada para a esquerda, são verificados os limites de cartas e começa tudo de novo, com o novo governador a ser o primeiro a escolher. O jogo termina quando alguém construir 12 edifícios. O primeiro governador de todos é escolhido por um processo qualquer aleatório.

Apreciação final

San Juan é um excelente jogo! Dá muita margem de manobra aos jogadores e para se jogar bem é preciso saber aproveitar as oportunidades tácticas que vão surgindo, nomeadamente através das escolhas do role certo, na altura certa. Por exemplo, escolher o Trader quando ninguém tem bens para trocar a não ser eu, é uma vantagem importante para mim.

Mas não é tudo, já que tem também uma componente estratégica muito importante! Há muitas maneiras de fazer pontos e é preciso ir moldando a economia que se vai construindo de acordo com a estratégia escolhida. Por exemplo, se eu planear construir um Guild Hall perto do fim do jogo, que me vai render 2 pontos por cada edificio de produção, convém ter muitos edifícios de produção, para maximizar os seus efeitos.

A escolha da estratégia a seguir também não é trivial. Tem de se ter em conta a mão de cartas inicial, mas também é preciso ir tendo flexibilidade de adaptação, ao longo do jogo. Muitas vezes também é bom ser proactivo e não ficar à espera que saia uma determinada carta. Um bom jogador não é aquele que só domina uma estratégia e só joga bem quando lhe saem as cartas que lhe dão jeito para a implementar. Há que ter flexibilidade e o Counsellor está lá é para ser usado!

O San Juan tem ainda 2 outras qualidades importantes: joga-se depressa (com jogadores experientes, consegue-se terminar um jogo em 30/40 minutos) e é surpreendentemente bom como gateway game, devido ao seu baixo factor "incha porco!", que permite que os novatos vão jogando em segurança sem medo de levar uma berlaitada e sintam que construiram alguma coisa no fim, mesmo que percam o jogo.

Pessoalmente prefiro-o ao Puerto Rico. Parece-me mais elegante, acho a ideia de usar as cartas para tudo de génio e penso que constrange menos o jogador a cada jogada.

Enquanto no Puerto Rico há 2 estratégias conhecidas (a shipping e a builder) e quem dominar uma delas, pode lutar pela vitória em todos os jogos, independentemente das condições iniciais, no San Juan já não é bem assim. É preciso muito mais criatividade e capacidade de adaptação e não tanto, o dominar uma estratégia e o mais eficiente na sua execução.

Posto de outra forma: enquanto no Puerto Rico a cada jogada há 3 ou 4 alternativas válidas por onde escolher - e admito que muitas vezes essa escolha é dificil e interessante, porque o Puerto Rico é, de facto, um bom jogo - com o intuito de implementar uma de duas estratégias, no San Juan há 7 ou 8 alternativas válidas, para implementar uma de muitas estratégias possíveis.

E ainda por cima é barato e joga-se bem a 2, 3 ou 4! O que é que estão à espera? Vão a correr comprar! Já!


03 novembro 2006

Campeonato de Puerto Rico

Este blog transformou-se derepente numa agência noticiosa onde as notícias circulam à velocidade da luz.
A verdade é que este mês tem acontecido muita coisa. Essen e o encontro de boardgamers são só alguns exemplos.
E para que a euforia não acabe nunca, serve este post para dar a conhecer oficialmente o primeiro campeonato de Puerto Rico de Portugal.
Pois bem, terá lugar na loja Runedrake sita na Travessa Henrique Cardoso 71B em Lisboa (estação de metro de Roma). A inscrição custará 5 euros e o vencedor ganhará honra e o reconhecimento dos pares como o melhor jogador de Puerto Rico do País.
Não sei se será muito ou pouco, mas o importante é participar e conviver.
Os jogos começam a partir das 14 horas do próximo Sábado dia 11 de Novembro e acabarão quando Deus quiser.
Para todos aqueles que queiram participar mas que não sabem as regras, na próxima Quarta Feira dia 8 de Novembro vai-se fazer um “workshop” onde os interessados podem aprender as regras e melhor do que isso, jogar.
Por isso não se acanhem e apareçam. Prometemos que não ouvirão musica dos Vaya con Dios.
Para mais informações consulte o site http://abreojogo.com

01 novembro 2006

Session Report: Bel em Portugal

Finalmente aconteceu. Aproveitando a estadia em terras lusitanas da Isabel, ilustre contribuidora do blog brasileiro Oba Tijolo, juntamo-nos para uma jogatana na casa do Zorg e também para trocar experiências e opiniões sobre Lisboa e, claro, sobre o que nos juntou, os jogos de tabuleiro.
De mochila às costas, depois de ter dado uma valente volta pelo país, Isabel chegou à capital sã e salva e conforme o que estava prometido, encontrámo-nos todos.
Jantámos em Cascais e o repasto foi bastante agradável, como era de esperar. Contaram-se histórias daqui e dali e ficámos todos bastante esclarecidos sobre as capacidades duma figura mítica brasileira de nome Tânia que domina as mesas tal e qual um leão domina as selvas. Os feitos dela são incontáveis e confesso que tanto eu como o Zorg sentimos bastante medo. Tive uma sensação parecida à que tinha em criança quando assistia aos filmes de terror, especialmente ao Exorcista e durante a noite não preguei olho. A minha namorada agora, sempre que me quer assustar diz:
- Olha que eu chamo a Tânia!
Falámos imenso sobre os nossos jogos preferidos, aos que queremos jogar e aos que vamos comprar nos próximos tempos. É bem visível que Reiner Knizia e Himalaia dominam as preferências de todos e a Isabel demonstrou uma curiosidade sobre Martin Wallace.
Passado o tempo da refeição fizemos uma caminhada longa até à Boca do Inferno com o intuito de aterrorizar a nossa simpática convidada. Mas o ambiente medonho e infernal deste precipício pareceu não incomodar a jogadora brasileira:
- Para quem já viu a Tânia a jogar Ticket to Ride, isto não é nada!
Tomámos contacto também com as grandes invenções do Dimitri. A Isabel teve a amabilidade de explicar as regras dos jogos dele e ficámos bastante impressionados com as ideias. Talvez tenhamos a possibilidade, num futuro próximo, de experimentar as suas criações.
Fomos então para casa do Zorg e jogámos os três à nova criação de Klaus Teuber que eu não conhecia mas que já tinha ouvido falar - Elasund. Tivemos um serão bastante agradável e o jogo fluiu bem e é bastante interessante o que demonstrou que o criador de Catan continua em grande forma para alívio dos gamers.
A vitória sorriu-me e a diferença foi tão grande em relação ao Zorg e à Isabel que por uns momentos tive a sensação do que é ser Tânia.
A noite já ia longa e lá nos despedimos fazendo algumas promessas de jogar online no BSW.
Mas na minha memória ficou a simpatia desta amiga de hobby e claro, a tradicional frase de cada vez que os dados lhe eram favoráveis:
- Oba!


30 outubro 2006

Session Report - Encontro Mensal de Boardgamers

Já começam a faltar as palavras para descrever o gozo que dá participar nos encontros mensais de Boardgamers promovidos pela RunaDrake e pelo site Abreojogo.
Aquilo é jogar até cair para o lado. Há sempre um jogo para aprender e sempre uma mesa para o experimentar. Os títulos disponíveis nestas sextas são mais que muitos e torna-se impossível jogar a tudo o que aparece, mas garanto-vos que se joga muito. Neste encontro bateram-se todos os records. Vinte pessoas, 12 horas, 40 jogos disponíveis.
Nem nos levantámos para comer. Pedimos 4 pizzas familiares para alimentar a malta toda e continuámos no vício hora após hora como se o mundo terminasse no dia seguinte.
A fasquia continua a subir a cada encontro mensal e cada vez aparecem mais jogadores, e acreditem que cada um parece mais viciado que o outro.
Eu só me aguentei até às 3 da manha e até lá jogou-se Modern Art, Caylus, Commads & Colors, Tigris, Ra, Citadels, Gheos (que não apaixonou), Queen’s Neclage, Torres e uma explicação de 60 minutos das regras do Guerra do Anel.
Malta veio muita, chegando aos 20 participantes que encheram por completo o 1º andar na RunaDrake.
Aqui ficam as fotos tiradas e esperemos todos que da próxima estejam ainda mais jogadores.
Menção para o pobre do Ricardo que não esteve presente, mas que esperemos todos que da próxima apareça.
Continua em cima da mesa o projecto do campeonato de Puerto Rico que se espera vir a ser concorrido. Para mais informações clickem no link Grupo de Lisboa.














25 outubro 2006

Encontro de Boardgamers em Lisboa

Vai ter lugar esta sexta-feira na loja RuneDrake mais uma um encontro de Boardgamers. A morada é Trav. Henrique Cardoso Nº71-B (perto do Maria Matos e da estação de metro de Roma).
Desta vez contamos com muitas novidades.
Para já fazemos fé para que apareçam uma vintena de jogadores, uma vez que, ao que parece, a malta do blog Spielportugal está com vontade de se sentar à mesa com os alfacinhas.
Mas o grande atractivo, meus senhores, são os joguinhos que o Philip Moringer trouxe directamente de Essen. Ainda não foram revelados os títulos, até porque o segredo é a alma do negócio, mas pela emoção com que o Philip nos avisou da novidade, vem aí chumbo grosso.
Um certo zum zum, já a circular pelos canais habituais, dá a boa notícia que poderá estar disponível no encontro o tão aguardado Shogun, uma versão mais comercial do magnífico Walleinstein há muito esgotado das lojas de todo o mundo e que muita pouca gente teve a oportunidade de experimentar.
Em todo o caso, todos aqueles que nunca jogaram e que tenham a curiosidade do fazer, estejam à vontade para aparecer. Este encontro não é um evento fechado e privado onde só os mais experientes podem jogar. Nada agrada mais a um gamer do que introduzir um não gamer no vício. Existe uma ternura desmedida pelos novatos que até pode chegar ao ponto dos deixarmos ganhar. Por isso venham em força.

24 outubro 2006

Essen: o sumo!

Agora que a feira terminou, podemos pegar nela, espremê-la como se fosse um citrino e ver que jogos caem para o espremedor! Estes serão o sumo, o cream of the crop, a nata do que se jogou em Essen, pelo menos para quem seguiu Essen à distância de uns ciberbinóculos, como foi o meu caso. Para o ano talvez seja diferente...

O destaque

O meu destaque vai para Space Dealer. Era o patinho feio da Eggertspiele, que concentrava todas as atenções no seu Imperial, mas acabou por ser um dos jogos preferidos de quem por lá passou (6º lugar na sondagem da fairplay), apesar de ser um jogo arriscado, cheio de mecanismos muito pouco comuns, como as acções simultâneas restringidas pelo cair dos grãos de areia nas ampulhetas. Ainda para mais, isto é um jogo de estratégia, com escolhas complicadas a serem feitas pelos jogadores e não um brinquedo para miúdos. Grande risco da Eggertspiele e do designer Tobias Stapelfeldt que, depois de Neuland, volta com algo de bastante inovador e entra para a minha lista de gajos a seguir com atenção e a que dou o nome de "Lista dos gajos a seguir com atenção".

As desilusões

As desilusões são sempre relativas, quando não se esteve lá nem se jogaram os jogos. No entanto, há jogos que eu esperava que fossem universalmente amados e aclamados como a próxima coisa mais fixe de sempre, logo a seguir à feijoada, e acabaram por ficar um pouco aquém. Nesta categoria caem Perikles, que passou relativamente despercebido mas, como bom Martin Wallace que é, merece que nos mantenhamos atentos ; Gloria Mundi, que esteve 560 anos em produção, é o jogo de estreia da Rio Grande na publicação de jogos e não foi aclamado como a Mãe de Todos os Jogos, como seria de esperar ; Imperial, que parece fixe, mas eu pessoalmente esperava ter ouvido relatos de pessoas a desmaiar de alegria com um sorriso esculpido na face com um cinzel, logo depois de terem tido oportunidade de o jogar e, ao que sei, isso não aconteceu ; Mastro Leonardo, que vinha rotulado como o jogo que melhorava os mecanismos do Caylus para sempre e acabou por perder o título de "Caylus dos Maricas Dourado" para o surpreendente, tão Caylus, mas muito mais maricas, Pillars of the Earth.

As surpresas

O surpreendente Pillars of the Earth, que a gente tinha incluído aqui por consideração para com a namorada do Hugo e acabo por vencer o afamado e desejado título de "Caylus dos Maricas Dourado". O Mr. Jack, que eu nem sabia que ia ser editado e por isso foi uma surpresa para mim e confirma agora tudo o que de bom eu tinha ouvido sobre o Une Ombre sur Whitechapel, pelo que segue directamente para a minha lista de compras. O Tara: seat of kings, que tínhamos rotulado como "mais um jogo engraçadote, mas inofensivo" e que acabou por mostrar os dentes, sendo um dos preferidos do público. O Space Dealer, que eu pensava que era um joguito da treta sobre comércio espacial e acaba por se tornar no destaque do gajo que não esteve em Essen e seguiu tudo via internet, ou seja, eu.

As confirmações

Yspahan, que toda a gente pensava que ia ser um dos mais amados e acabou por ser o mais amado. A Ystari continua em grande!
Hermagor, que nós esperávamos que fosse um grande jogo e aparentemente é um grande jogo. Graenaland, no qual eu pessoalmente apostava bastante e parece ter confirmado essa aposta e ainda tem componentes bonitos. O Maestro Leonardo, que apesar de ter perdido o principal galardão a que concorria ("Caylus dos Maricas Dourado"), acabou por ser também um dos jogos mais apreciados da feira. O Battlelore: confirma-se que é o Memoir 44 colecionável, passado num ambiente de fantasia e caro como o caraças. Mais um título a seguir com atenção, portanto!

No limite

No limite ficam Khronos, que parece ter sido bem recebido, mas ainda não há informação suficiente disponível e Through the ages, sobre o qual ainda não há informação suficiente disponível, mas parece ter sido bem recebido.

Para a minha lista de compras vão:

Space Dealer, Mr. Jack, talvez o Tara, talvez o Maestro Leonardo, talvez o Perikles, talvez o Through de Ages, talvez o Khronos. O Pillars of the Earth compra o Hugo de certeza, por isso não preciso de comprar eu quando sair em inglês! ;)

23 outubro 2006

Essen report #3

Space Dealer

Este e Imperial constituem as novidades da Eggerspiele para Essen. No entanto, este é um jogo a seguir com particular atenção, já que esteve a ser desenvolvido durante 4 anos e apresenta uma série de inovações interessantíssimas, que combinadas com o excelente buzz que tem recebido, fazem-no merecer um post dedicado.

A ideia deste jogo é simples: cada jogador é um mercador espacial e começa no seu planeta, com uma nave, 1 fonte de energia básica e 1 carta de tecnologia que produz um tipo de bem. Também começa com mais cartas na mão que podem ser ligadas à fonte de energia para produzir mais bens ou para conceder ao jogador poderes especiais. Os bens produzidos podem ser transportados na nave para satisfazer encomendas dos outros jogadores, noutros planetas. Ao satisfazer estas encomendas, o jogador recebe pontos. Até aqui, isto parece tão inovador como as sandálias de um monge franciscano. A inovação vem agora: cada jogador possui 2 ampulhetas e para produzir o que quer que seja, tem de colocar uma das ampulhetas na carta e só quando o tempo se esgota é que recebe o bem, ou o poder especial. Todos os jogadores jogam em simultâneo e não há conceito de ronda. Ou seja, de todas as acções que se quer fazer, só se pode fazer duas de cada vez, porque só há 2 ampulhetas por jogador. Para além disso, como o jogo é complexo, é muito mais importante seleccionar bem as acções que se quer fazer e ter uma estratégia pensada, do que propriamente mexer depressa nas ampulhetas. O jogo dura exactamente meia hora e o tempo até pode ser controlado através da audição de um CD, incluído na embalagem.

Isto é, de facto, muito inovador mas ao mesmo tempo parece-me bastante interessante. Para além disso, as reacções iniciais de quem tem experimentado o jogo têm sido entusiásticas, o que ainda desperta mais a curiosidade. Por muito bom que seja o Imperial - e parece que é bastante bom - este Space Dealer é, provavelmente, o jogo mais desconcertante da feira e um sério candidato a best of show.

Essen report #2

Bom buzz

Isto não tem a ver com Essen directamente, mas como são novidades sobre um jogo novo que está a ser lançado lá, aqui vai: a gamebox, uma revista alemã sobre jogos, publicou uma review muito generosa sobre o The Pillars of the Earth. Para além de dizer que é um excelente jogo, atribui-lhe a nota impressionante de 10 em 10. No entanto - e isto já tem a ver com Essen - o jogo também tem sido um dos sucessos da feira, pelo que é definitivamente um título a seguir com atenção, tal como este blog tinha antecipado...

O lendário jogo Une ombre sur Whitechapel, o jogo de dedução da autoria de Bruno Cathala e do qual só existiam 250 cópias feitas pelo próprio autor, na esperança de que fosse publicado, foi, de facto, publicado. O seu novo título é Mr. Jack e parece que o jogo confirma todas os louvores de quem tinha jogado uma das tais 250 cópias. É um jogo de dedução, mas muito pouco vulgar, já que mistura uma componente de estratégia e um tema muito envolvente. Interessa-me bastante!

Midgard é o novo título da Z-Man games e está em pré-produção, pelo que só deverá estar disponível em Dezembro. É um jogo de pancadaria, mas que utiliza o mecanismo de draft de cartas (tal como o japonês Fairy Tale). A ideia é ir construindo uma mão de cartas que depois se usam para mover os exércitos no mapa, atacar os adversários e desencadear acções especiais. O jogo tem tido uma excelente recepção, por isso é mais um a manter debaixo de olho.

Die Baumeister von Arcadia (algo como os arquitectos de Arcadia) é o novo jogo de Rüdiger "Goa" Dorn. Os jogadores vão usando cartas para construir edifícios, ou colocar pessoas. Quando estes edifícos estão completamente rodeados (de pessoas ou outros edifícios), pontuam. O jogador que colocou a última pedra, recebe um selo e todos os jogadores com pessoas ao redor do edifício recebem um selo por pessoa. Parece que é um gamer's game bem desenvolvido, equilbrado e com vários caminhos possíveis para a vítória, o que não espanta, vindo de quem vem.

20 outubro 2006

Essen report #1

Essen já começou, bomba e recomenda-se! O blog entra por isso em modo CNN! Mais posts, mais informação e menos poesia! Quando a feira terminar, o blog regressa ao habitual modo Canal Parlamento, com ficção, imaginação e lirismo a rodos e para todos!

Bom buzz

Graenaland parece estar a ser um dos primeiros sucessos de Essen deste ano. Segundo Rick Thorquist, a dominatrix impiedosa das notícias de jogos de tabuleiro, foi um dos jogos mais vendidos durante o primeiro dia e tem surpreendido pela qualidade e beleza de alguns dos seus componentes (as fotos pré-Essen que existiam referiam-se a um protótipo), para além da jogabilidade, claro. Tem vendido que nem tremoços, numa festa da imperial!

- Walhalla!
- Santinho!
- Disseste, Fernando Santinho?
- Não, pá estava a desejar-te saúde.
- Mas eu não espirrei!
Bom, adiante que isto não é para ter poesia! Às vezes esqueço-me! Walhala tem Vikings, tem mecanismos originais, joga-se depressa e parece que é mais um promissor medium weight game. Foi também um dos sucessos do primeiro dia e merece um olhar mais atento.

O Notre Dametinha sido relegado para o canto dos jogos-leves-bons-para-servir-de-gateway-mas-maus-para-tudo-o-resto, depois das primeiras impressões falarem numa classificação baixa, na escala de complexidade da Alea. No entanto o grande repórter teve oportunidade de jogar isto e ficou maravilhado! Disse as palavras mágicas ("este é um gamer's game!") e diz que o vai comprar de certeza! Quando um gajo que vive de escrever sobre jogos e tem 600 ou 700 jogos na sua colecção privada, diz que vai comprar mais um "de certeza!" isso é motivo suficiente para eu dizer: vou olhar para ele com atenção, de certeza!

Mau buzz

Project Skyline! O nosso Rick jogou e detestou tanto, que teve de sair a meio enquanto vomitava, largava espuma pelo nariz e era acometido de convulsões histéricas incontroláveis! Ausência de estratégia, ausência de decisões relevantes... ausência de jogo, diria eu! Parece que se resume a lançar dados e a rezar para que a sorte nos ajude. A evitar!

Curtas

Fórmula Dé vai ser reprinted lá mais para o natal. Segundo os designers, esta vai ser a última reimpressão do jogo. Mas - e esta é a parte melhor - parece que vai surgir uma nova e melhorada versão no ano que vem. Isto interessa-me porque se conseguirem resolver os problemas do jogo (a duração, principalmente) e modernizá-lo um pouco, sou gajo para comprar esta nova versão! O Fórmula Dé Mini é giro, mas é demasiado light.

E o melhor fica para o fim: Karl Heinz Schmiel, o lendário criador de jogos de culto como, "Mamã, onde está o meu pepino?", ou "Vamos todos à escola com o pequeno ursinho fofinho"... não, estou a gozar, como é óbvio! Outra vez: o lendário criador de jogos de culto como Die Macher, ou Extrablatt, vai lançar um novo jogo, a ser publicado pela Rio Grande! Schmiel é conhecido por criar verdadeiros gamer's games, complexos e estimulantes, pelo que o meu interesse nesta nova criação é elevado! Este rapaz não faz brinquedinhos para meninas, faz jogos de homem! Pode ser que se entusiasme e decida também fazer uma reedição do Extrablatt, que tem sido um dos jogos que mais tenho perseguido, sem sucesso até hoje. Tudo isto me inspira para jogar Die Macher um destes dias... só falta encontrar as vítimas...

E por agora é tudo. Venham cá, de vez em quando, que é provável que encontrem mais novidades!

Zorg, ouvar ende áute!

19 outubro 2006

A bomba de Essen?

Aproveitando o último post do Zorg e tendo sempre presente a máxima deste blog, “para os leitores tudo”, dediquei-me à compreensão e leitura das regras do jogo Imperial, título muito esperado por todos aqueles que por aqui andam.
A espera parece-me bastante compreensível e depois de ler as regras as minhas esperanças também são muitas.
Mas afinal o que se pode dizer sobre este Imperial?
Infelizmente tudo o que posso escrever sobre ele baseia-se apenas nas regras e não numa experiência em tabuleiro, o que faz ,como se pode imaginar, toda a diferença.
Uma das coisas que posso afirmar sem receio de falhar, é que todo o ambiente que se espera do jogo está lá todo. Não só porque o mapa é uma maravilha como também todas as particularidades que o autor introduziu no jogo fazem com que os jogadores tenham a sensação de estar em pleno século XIX e que os seus corpos evidenciam uma grande pança e também uma bigodaça capaz de fazer inveja ao Dali.
Por outro lado é usado o mecanismo da roda. Ou seja uma roda dividida em 7 campos mostra as 7 acções que um jogador pode fazer no seu turno. O que acontece é que o marcador do jogador só pode movimentar-se 3 campos de cada vez. Ou seja o jogador só poderá fazer uma de 3 acções, ficando 4 acções inacessíveis. Claro que o jogador pode fazer qualquer acção, mas se quiser uma acção inacessível vai ter de pagar por ela, enquanto se quiser fazer uma acção disponível não pagará nada. Essa mecânica, já usada em Antike é bastante interessante e faz o jogador pensar nas suas jogadas futuras com alguma atenção, para que as suas acções sejam sempre gratuitas.
Por outro lado, o jogador vai construindo fábricas (que rendem dinheiro, exércitos ou navios), vai movimentar exércitos (que podem servir para uma guerra ou para ocupar uma região com fábricas de outros jogadores eliminando a sua produção), aumentar o seu prestígio no governo das potências em jogo, celebrar acordos e tratados com outros jogadores (pactos de não agressão), construir frotas (que permitem o movimento dos exércitos pelo mar para qualquer região do mapa que tenha um porto), recolher impostos das regiões circundantes às grandes potências (depois de ocupar militarmente essas regiões), etc, etc.
Tudo está relacionado. Agora o que é verdadeiramente interessante é que o jogador não representa uma potência. Apenas investe dinheiro nessa potência, ou seja, o jogador que der mais dinheiro para títulos de investimento ganha a possibilidade de governar essa potência, usando para o efeito o exército a seu bel prazer e retirando os benefícios das fábricas, podendo também construir fábricas, etc. O que acontece é que outro jogador pode, a qualquer momento, comprar mais títulos de investimento e ficar ele com o controlo de tudo, renegando o anterior governante para o esquecimento, ou então, para o governo doutra potência. Parece-me que ao longo do jogo os jogadores vão governando os países à vez consoante os seus interesses.
Por isso o dinheiro é bastante importante, porque o dinheiro compra influência política.
Outra coisa gira é que existe o dinheiro do jogador e o tesouro da potência. Cada potência gera o seu próprio tesouro que é acumulado. Este dinheiro não pode ser usado pelo jogador que governar a potência, só irá para a mão deste em determinadas condições.
De referir ainda que os jogadores têm sempre interesses espalhados pelas potências. Normalmente o que poderá acontecer é que os jogadores tenham em cima da mesa titulos de investimento de todas as potências, mas quem controla os destinos dessa potência é o jogador com o título de investimento maior. Mas os jogadores com investimento menor podem a qualquer momento exigir dividendos dos seus investimentos. Se o tesouro da potência em questão tiver esse valor passa para a mão do jogador, senão terá de ser o governante a pagar essa quantia.
Parece confuso e na verdade é. Eu tive alguma dificuldade em perceber algumas mecânicas e as regras não são de todo explicitas em algumas circunstâncias, nomeadamente no que se refere à pontuação, aos investimentos, etc. Mas nada que não se resolva com paciência e uma ida ao BGG.
Agora, no geral, parece-me um jogo muito bem pensado e com mecanismos verdadeiramente interessantes. Por outro lado julgo que é um jogo bem pensado de mais e que se algum mecanismo falha vai tudo por água abaixo. Parece-me um jogo arriscado no sentido que ou é uma obra-prima ou então é uma porcaria. Todas as coisas do jogo estão de tal forma relacionadas que basta haver um desequilíbrio para que o título se espalhe ao comprido.
Infelizmente só quando se jogar é que se pode saber o que aconteceu. Uma coisa é certa, não existe sorte no jogo. Tudo é um xadrez, movimentam-se exércitos, constroem-se fábricas, investe-se dinheiro. As batalhas são decididas á razão do numero de exércitos. 2:1 quer dizer que morre um exército de cada lado e sobrevive um.Vamos ver o que vai acontecer. Esperemos que seja um estoiro e que nos delicie a todos quando sair para as lojas. Seja como for, se tudo correr pelo melhor, esperem um jogo cerebral com 1000 indecisões por minuto.
Como diria a avó do Zorg enquanto cuspia para o chão: "Nunca esperes demasiado dum jogo sem o factor sorte."

17 outubro 2006

Curtas sobre o post directamente abaixo!

É verdade, meninos e meninas, está confirmado pela grande dominatrix das novidades em cartão, esse patifório que dá pelo nome de Rick Thornquist, que o Pillars of the Earth, o jogo baseado no romance homónimo que vai estrear em Essen (o jogo, não o romance homónimo), estará disponível para jogar online, no nosso amado Brettspielwelt. Grandes notícias para quem estava interessado no jogo e terá assim oportunidade de jogar e também para quem não estava interessado no jogo e terá assim oportunidade de jogar.

Outra novidade horripilante é que o Khronos tem um trailer! É verdade, um trailer! A única coisa a dizer numa altura destas, e citando o imortal Lauro Dérmio, létes luque éte da tráila: http://www.matagot.com/khronos/!!!

Sobre o Imperial também há coisas boas: as regras estão online e podem ser consultadas aqui!
Ainda não tive oportunidade de olhar para elas - uma vez que este maravilhoso blog ainda não me rende o dinheiro suficiente para poder deixar a alta finança e a intriga política internacional de uma vez por todas, para me poder dedicar exclusivamente a isto - mas, com um mapa daqueles, o jogo só pode ser bom!

De resto, a oeste nada de novo...

11 outubro 2006

Essen 2006: as nossas apostas!

Todos os anos, por volta desta altura, os jogadores de tabuleiro de todo o mundo começam a comportar-se duma forma estranha e que, com o desenrolar dos dias, começa a afectar toda a estrutura familiar em que estão inseridos. O problema não parece ser dos pobres indivíduos que, coitados, tentam ser fiéis às sua próprias convicções e particulares individualidades, mas antes daqueles que os rodeiam:
- Ó querido sai do computador 5 minutos! Sempre aí metido! Há uma semana que não comes, não falas com ninguém, tomas banho de três em três dias, começaste a fumar feito maluco e já passaram quinze dias desde a última vez em que me fizeste sentir uma mulher de verdade! Que hálito é esse? Hum? Andaste a beber álcool? Oh meu Deus!

O caso não é para menos. Aproxima-se mais uma edição da Essen, o certame mais importante de Jogos de Tabuleiro de todo o mundo. Geek que é geek quer estar presente, não só para jogar as novidades em primeira mão, mas também para ganhar alguma credibilidade neste mundo onde a competição por colocar as primeiras impressões nos blogues que povoam a blogosfera é cada vez maior.
Por aqui, como seria de esperar, o nosso blog fica em casa pelo segundo ano consecutivo. Falta de orçamento e patrocinadores dispostos a investir nos nossos escritos ditaram o fim do sonho.
Pior do que isso, mesmo que haja boa vontade, não é muito fácil convencer o agregado familiar a visitar tal cidade alemã.
- Hum? Essen? Isso é o quê? Nunca ouvi falar disso. Eu quero é ir para Paris, Roma, Londres, Praga, Madrid ou Barcelona. Agora Essen!? Era o que faltava!

Mas enfim, não será por causa destes infortúnios mundanos que vamos deixar de dar aos nossos leitores informações vitais sobre as novidades presentes na Alemanha. Todos os anos há a grande surpresa de Essen - no ano passado foi o nosso bem conhecido Caylus - e nós temos algumas apostas pessoais, sobre o jogo que arrecadará esse título na edição deste ano.

As apostas do Hugo

Leonardo da Vinci
Um dos jogos que mais furor pré Essen está a fazer é Leonardo Da Vinci de um grupo de italianos loucos pela renascença e fãs incondicionais do autor das mais improváveis invenções que o Homem quinhentista alguma vez sonhou inventar. Claro que a maior parte dos seus épicos projectos nunca chegou a ver a luz do dia, mas agora, graças aos esforços desta malta italiana, vamos poder arregaçar as mangas e tentar nós construir as mais espampanantes máquinas renascentistas. Já tive a felicidade de ler as regras do jogo. E a primeira impressão que tenho é que estamos perante um jogo bastante emotivo e desafiante. O jogador vai ter de massajar o cérebro e vai-se confrontar com umas dez decisões a tomar por minuto. Leonardo da Vinci pega na mecânica do grande vencedor de Essen o ano passado, Caylus, e trabalha-a duma forma bastante interessante. Apesar de não ter lido as regras com muita atenção, o objectivo é conseguir adquirir materiais necessários para construir as invenções a que cada jogador se propõe no início do jogo. Até aqui nada de novo, o interessante é que ao contrário de Caylus, as casas dão mais do que um benefício. E todos os jogadores podem estar representados na mesma casa. Ou seja, quando chegar a vez de resolver a casa, o jogador que tiver mais trabalhadores lá pode escolher um dos benefícios disponíveis reduzindo o leque de opções dos restantes jogadores. Para apimentar mais as coisas, o jogador que tiver mais trabalhadores ganha o benefício sem ter de pagar nada, enquanto os seguintes vão ter de pagar florins para accionarem os benefícios seguintes. Quanto menor a influência mais paga. Mas o que podemos encontrar em Leonardo Da Vinci é, teoricamente, um melhoramento da mecânica do Caylus. Como é que isso vai resultar no tabuleiro? Bem, vamos ter de esperar, mas as primeiras indicações são bastante boas.



Hermagor
É o novo jogo de Emanuele Ornella (Il Principe e Oltremare) e para muitos o melhor. O jogo consiste, numa primeira fase, em colocar mercadores nos mercados para arrecadar mercadorias e, numa segunda fase, vender as mercadorias nas cidades adjacentes. Pelo que se diz é um jogo de timing e com uma boa interacção entre os jogadores. Quanto mais se avança no jogo mais tenso vai ficando o ambiente e o espaço de manobra mais reduzido. O mais astuto vai acabar por vencer porque, pelo que me pude aperceber, as mercadorias vão sofrendo alterações no seu preço ao longo das duas horas duma partida. À primeira vista, acho que será interessante de jogar, pelo menos eu tendo a gostar de jogos em que haja variações no valor das coisas que estão em jogo. Pelas palavras dos playtesters é importante o jogador conseguir um cálculo aceitável relativo ao custo duma mercadoria e ao benefício que pode ter com ela. É um título onde a eficácia dos negócios é bastante compensada. Merece uma atenção especial.



Imperial
A verdade é que uma das coisas que não se pode retirar mérito às companhias de jogos é o especial cuidado com que tratam o grafismo dos mesmos. Veja-se o trabalho incrível que a Days of Wonder está a fazer neste capítulo. Pois bem, tudo isto a propósito de Imperial. Um épico de 3 horas da Rio Grande que traz aos escaparates mais uma criação de Mac Gerdts pós Antike. Apesar de ter caído no gosto de muitos jogadores, existe a convicção que o jogo esteve a uma unha negra de se tornar um clássico, de forma que é com muita expectativa que se aguarda este Imperial. O tema é convincente. Estamos em plena ressaca da revolução industrial, onde os grandes capitais tentam arranjar mercados mundo afora. O interessante aqui é que, como pano de fundo, temos seis impérios representados e os jogadores vão exercer influência sobre eles de forma a conseguir mais mercados e algum poder militar. Estamos numa época em que a corrida ao armamento estava descontrolada e as grandes potências tentavam, a todo o custo, ameaçar o vizinho aumentando o seu arsenal bélico. O tema é interessante e são muitos os olhos que estarão atentos neste título. O facto de não existir o elemento sorte faz crescer a ansiedade. Podemos construir fábricas, exércitos e frotas. O jogador vai tentar espalhar pela Europa influência política, económica e militar. Tenho de confessar que o meu coração dispara cada vez que olho para a foto da caixa.



Gloria Mundi
A tinta que este jogo já fez correr é tanta que mais vale não antecipar nada. Mas desde os meus tempos de iniciado, tenho olhado para a capa do jogo com paixão e tenho ficado sempre em expectativa. O tema interessa-me imenso e é talvez o período da História que mais vibro. A queda do império romano. Ora a ideia do jogo consiste na fuga dos jogadores de Roma para as províncias africanas enquanto os Bárbaros não chegam ao centro do império. Enquanto isso é possível fazer oferendas aos deuses, construir vilas e cidades e haverá muitas oportunidades de lixar os outros jogadores, pondo-os à mercê das hordas bárbaras. A ideia que me ficou é que se um jogador não tiver em atenção as acções dos outros jogadores não será bem sucedido no resultado final. Disputa não faltará certamente. Uma das razões para os sucessivos atrasos deve-se ao facto de o jogo não estar devidamente oleado e tendo, por isso, alguns desequilíbrios. Aparentemente essa fase já está ultrapassada e parece-me que Gloria Mundi vai ser um nome a ter em conta para o próximo Natal. Um pormenor interessante é que todas as palavras inscritas no tabuleiro vêm em latim, o que lhe dá um ar bastante sedutor.



Pillars of the earth
Certamente muitos de vós devem estar a pensar mas que raio. Pois eu explico. A minha namorada (uma não gamer incondicional) esteve o Verão a ler esta obra literária de 1000 páginas escrita por Ken Follett. Todos os dias me contava o quão extraordinária era a história e que era o melhor livro que alguma vez tivera lido.Segundo a narrativa vinda no calhamaço tudo gira à volta da construção da catedral de Kingsbridge. Aparentemente a grande missão do jogador no tabuleiro é exactamente essa, construir a catedral. Mas irão também estar representados muitas personagens do best seller de Follet.Este vai ser um jogo que irei oferecer à minha namorada com elevado prazer, até porque pode ser que o jogue e mude de opinião em relação a este hobby.



As apostas do Zorg

Essen este ano parece particularmente interessante. Há novos títulos de criadores consagrados (Teuber, Wallace, Knizia, ...), há títulos menos novos de criadores por consagrar (Gloria Mundi, Silk Road e até, de certa forma, Gheos) e há alguns criadores promissores que trazem novidades aparentemente interessantes (particularmente o checo Vladimir Chvatil, que traz 2 jogos novos, depois do sucesso que foi Prophecy). Partilho de algumas das expectativas do Hugo (principalmente no que diz respeito a Imperial, Gloria Mundi e Leonardo da Vinci), mas também tenho algumas expectativas elevadas em relação a alguns títulos mais obscuros, pelo que vou optar por falar destes últimos, para evitar repetições.

Mas vamos aos jogos!

Perikles
"Come sempre de boca fechada e Martin Wallace é Martin Wallace", foi o que a minha avózinha sempre me ensinou, por entre duas goladas de rum de qualidade e uma baforada no seu cubano genuíno. E a verdade é que na minha colecção, vão entrando cada vez mais títulos do prolífico e criativo autor inglês: Age of Steam, Princes of the Renaissance, Conquest of the Empire II e Byzantium já cá cantam e são muito amados pelas hostes. Quanto a este Perikles, devo dizer que parece bastante interessante. Aparentemente é um jogo politico-militar. Fala-se até num Struggle of Empires com uma vertente política, o que, a ser verdade, seria algo de maravilhoso. E a verdade é que minha avózita também me dizia, enquanto punha a farda a secar, que "se é para jogar um jogo politico-militar, mais vale que seja feito por um inglês". Aguardo, por isso, com grande espectativa este Perikles.



Gheos
Não há como escondê-lo: sou o maior! Mas isso não é relevante para este post. O que é relevante é que fique claro que jogos de civilização atraem-me mais do que... jogos que não são de civilização! Pode dizer-se que se os jogos de civilização fossem boys bands, eu seria uma adolescente histérica, na primeira fila do concerto, com um cartaz a dizer " I wanna have your baby!!!!!". E este Gheos é um jogo de civilização! Melhor do que isso, a acreditar no que se tem para aí escrito, é um jogo com regras relativamente simples, rápido, que se joga bem com 2 jogadores e que é descrito como "uma mistura entre carcassonne e tigris e euphrates". Ou seja, é um jogo adequado para prosseguir o ardiloso plano que engendrei e que tenho posto em prática nos últimos tempos: transformar a minha inocente e ingénua cara-metade, numa viciada incurável e doentia, sempre disponível para jogar um joguinho, sempre sequiosa de um fix de jogo, disposta a tudo, até vender as pratas lá de casa, para ter dinheiro para a próxima encomenda da Playme. E este Gheos pode ser uma ajuda importante no atingir deste nobre e louvável desígnio! Ainda para mais ganhou alguns prémios enquanto protótipo, o que lhe dá aquele saborzinho apimentado extra, que me deixa ainda com mais água na boca. Para além do mais, a minha avó sempre me disse, enquanto construía um abrigo na floresta, "se vais tentar fazer da tua namorada uma jogómana incurável, mais vale que seja com um jogo de civilização apimentado".



Graenaland
A indústria dos jogos de tabuleiro é como todas as indústrias: há os big players que dominam o mercado e tendencialmente são mais conservadores nas suas apostas e depois há os outsiders, que, dispondo de menos meios, fazem da criatividade e do risco a sua grande estratégia para entrar no mercado. Depois do sucesso inesperado do Prophecy (que ainda lá está em casa, à espera da estreia), eis que do mesmo criador e da recém criada Czech Board Games surge este Graenaland, que já mereceu rasgados elogios do mestre dos novos lançamentos, o lendário Rick Thornquist. Diz o mestre que o jogo está muito bem feito, que faz lembrar o Catan e que possui um mecanismo bastante inovador de distribuição dos recursos entre os jogadores, através de propostas dos próprios. Tudo isto me cheira muito bem e, como dizia a minha avó enquanto cofiava a sua barba farta, "se vais jogar um jogo parecido com o Catan, mas com um mecanismo inovador de distribuição de recursos, mais vale que seja feito por um gajo que saiba falar checo fluentemente".



Kampf um Rom
Klaus Teuber é um dos Deuses maiores do panteão joguístico. Ultimamente andava um pouco em baixo de forma e tinha perdido algum do seu mojo, depois de algumas criações menos felizes, como o Candamir. No entanto, o recente Elasund anunciou ou mundo que o velho mestre tinha controlado a alimentação, retomado o exercício regular, perdido os quilinhos a mais e estava de volta ao seu melhor nível! Elasund é mesmo um grande jogo, que só podia ter sido criado por um autor em grande forma! É por isso que eu em geral e o mundo gamer em particular aguarda com enorme expectativa a sua mais recente criação, este Kampf um Rom, em estrangeiro, ou Luta em Roma, em lusitano corrente (tradução gratuita, fornecida por mim). As informações ainda são poucas, mas parece que este é um jogo baseado na lenda Settlers of Catan, mas passado no tempo do império romano. Os jogadores comandam tribos de bárbaros que saqueiam o indefeso império sem dó nem piedade, como se este lhes tivesse feito algum mal. A complexidade é maior do que no Catan e, depois do Elasund, este jogo promete muito! Para além do mais, como dizia a minha avó enquanto limpava a sua AK-47, "se vais jogar um jogo do império romano, mais vale que seja um feito por um autor sem excesso de peso".





















Khronos
Este é, provavelmente, o título mais obscuro deste post. De um autor desconhecido, editado por uma editora desconhecida francesa... onde é que eu já ouvi esta história antes? Para além do mais, as regras disto parecem interessantíssimas: o jogo é sobre viagem no tempo e então tem 3 tabuleiros que representam a mesma área geográfica... mas em tempos diferentes! Os jogadores podem viajar entre as 3 épocas e construir edificios e - esta é a melhor parte - os edificios que se constroem numa época, aparecem nas épocas futuras (ou tabuleiros), inteiros ou em ruínas. Não é brilhante? Claro que é possível que o jogo tenha falhas horríveis, nomeadamente em termos de equilibrio e falta de produção (com editoras pequenas, este risco ainda é maior), mas à partida acho a ideia extremamente interessante. Para além do mais o desenho da caixa é muito giro e, como dizia a minha avó enquanto tomava Havana pela força das armas, "se é para jogar um jogo de viagem no tempo, mais vale que tenha 3 tabuleiros e um desenho de caixa como deve ser".















P.S. 1: Este post é partilhado, apesar de ser colocado por mim. O Hugo é o autor da primeira parte (e da introdução) e eu da segunda.
P.S. 2: Não há como escondê-lo: a minha sábia avó é o Fidel Castro!