Por vezes, dada a minha heróica e incompreendida missão, comparo-me várias vezes com as testemunhas de Jeová que andam pelas ruas a distribuir o pastim “Sentinela” e a doar, de boa vontade, a palavra de Deus a quem a queira ouvir.
Heresias à parte, tenho um especial alegria por apresentar jogos novos á malta que passou comigo a adolescência e que, por uma razão ou por outra, se afastou. A vida dá as suas voltas e é natural que as pessoas sigam os seus próprios caminhos. Por isso vemo-nos poucas vezes, mas tenho-me esforçado para que os jogos de tabuleiro façam sempre parte dos nossos encontros e que sirvam, num futuro, como uma desculpa para estarmos juntos. A verdade é que as minhas últimas encomendas têm sempre em conta o efeito que o jogo vai produzir naquela malta. Bem sei que ainda agora começaram, que ainda estão muito verdes, mas não é de estranhar que, com a minha preciosa ajuda, no final do ano já estejam aptos a jogar qualquer das criações do mestre Reiner Knizia com uma perna ás costas. Enquanto isso a aprendizagem tem de ser gradual e cuidadosamente acompanhada tal e qual um pai que segue os primeiros passos da sua cria.
Depois duma sessão de Goa, há dois meses na Casa do Paulo, foi agora a minha vez de convidar a malta. A razão primordial era a apresentação da minha nova casa, mas no convite que enderecei fiz logo referência à vontade que tinha em fazer uma jogatana.
O pessoal apareceu em quantidade industrial. 6 pessoas baldando-se apenas duas o que até foi providencial porque senão não tinha jogo para todos.
Começamos a tarde com um pequena conversa sobre a vida de cada um. Todos se queixavam do mesmo. Os juros do crédito á habitação e o preço da gasolina. De resto tudo bem, ninguém foi despedido desde a última vez que falámos e até o Paulo começa a evidenciar, estranhamente, alguma esperança no futuro, isto apesar de ter sido o responsável pelo atraso de uma hora com que o pessoal chegou aos meus aposentos.
Anunciei então que seria o Ticket to Ride Marklin o jogo eleito e enquanto preparávamos o tabuleiro a pergunta mais ouvida foi a tradicional:
- Então e os dados? Não há dados?
Lá expliquei que era mesmo assim, que não se preocupassem que os dados não eram precisos para nada, aliás só serviam para atrapalhar.

Tinha uma esperança desmedida no sucesso que Ticket to Ride iria fazer a esta gente. A fé era tanta que até comprei Cerveja Guiness para servir de refresco às gargantas mais secas.
O Cabão, paradigmático e conservador avisou logo toda a gente que não jogava:
- Fico aqui a ver.
E ficou. Agarrado à sua caneca de Guiness repousou os olhos no tabuleiro e os ouvidos nas minhas explicações iniciais.
Normalmente a pior fase é a da explicação de como tudo funciona. A dificuldade reside não na explicação em si, mas antes em afastar a ideia pré concebida que estamos perante regras complicadas e complexas.
- Hum! Sem dados? Não sei não…
Mas pronto, lá expliquei o jogo calmamente e o pessoal foi entrando na onda, esclarecendo todas as dúvidas que iam surgindo. Foi engraçado, mas senti logo uma empatia deles com o jogo. Convenhamos que o mapa é bonito e as carruagens são bonitas para os olhos.
A maior dificuldade, contudo, residiu nos passageiros. Foi um bocado problemático aclarar a função destes pequenos bonecos no mapa:
- Para que é que serve os cameraman?
Mal ou bem lá ficou tudo mais ou menos entendido, pelo menos o suficiente para o jogo iniciar sem grandes percalços.

Devo confessar que esta obra de Alan Moore foi um sucesso impressionante neste grupo. Conseguia-se ver a satisfação na cara dos jogadores. Muitas piadas, muito riso, muito falatório e acima de tudo muito divertimento. Tiraram-se fotografias a dar com um pau e toda a gente fez as melhores poses para a objectiva. Éramos 6 (dois elementos formavam uma equipa) e por vezes no meio do regabofe alguém ficava mais silencioso a estudar o mapa e as cartas que tinha na mão a tentar perceber o melhor a fazer nas jogadas vindouras.
O Cabão, que tivera anunciado logo sem demoras a sua intenção de não participar no jogo, já estava, passados dez minutos, embrulhado nos cálculos necessários para resolver da melhor maneira a forma de cumprir os objectivos que lhe caíram em sorte.
A partida teve também a vantagem de ter sido bastante competitiva, pelo que haviam sempre 3 concorrentes muito próximos uns dos outros (eu, a Sara e o Paulo).
O mecanismo dos passageiros introduzido nesta nova versão do Ticket to Ride mudou completamente o jogo. Introduziu alguma complexidade, maior interacção entre os jogadores e também uma componente de estratégia bastante interessante. Estava visto, entre todos, que os pontos amealhados pelos passageiros nas suas viagens pelas cidades iriam decidir muita coisa. Durante quase uma dezena de jogadas, assistiu-se a um vai e vem de bonecos por todos os lados. O resultado foi a evaporação dos pontos em jogo num abrir e fechar de olhos. Dessa luta particular, a Sara e o Paulo afastaram-se de mim e voaram os dois para uma luta a dois. Mas a Sara continuava a ser a favorita. Saiu-se bem nos pontos que estavam em cima da mesa e já tinha pedido algumas cartas de objectivo.
Acabados que estavam os pontos das cidades, os contendores viraram-se para as caras de objectivos. Ronda após ronda eram pedidas cartas e mais cartas. Sentia-se no ar alguma tensão. Eu e o Cabão já caminhávamos para o terceiro litro de Guiness e o Paulo e a Fátima para o 3º bule de café.
Já sem hipótese, a dupla Melissa/Cabão tentava a todo o custo destruir o jogo dos outros, colocando rotas em pontos que podiam lixar os objectivos aos adversários. Esse sentimento de revolta teve alguma piada pois veio a introduzir uma aleatoriedade interessante que podia alterar duma vez por todas o rumo dos acontecimentos.
Terminado o jogo fizeram-se as contas e contaram-se os objectivos. Novamente a Sara e o Paulo ganharam vantagem nesse particular. A Sara conseguiu 5 falhando o sexto por uma unha negra. O Paulo apostou nos objectivos de curta distância e fê-los todos. A diferença de pontos dava uma vantagem à Sara de 6 pontos. No entanto, no último suspiro, o Paulo venceu os dez pontos de bónus que o jogador com mais objectivos cumpridos tem direito (Alan Moon decidiu alterar esta regra nesta versão). Venceu por 4 pontos num final dramático que pôs todos ao rubro.

Em conclusão Ticket to Ride Marklin foi o rei da festa, brilhou como uma estrela. Dominou e esteve em pleno, sem falhas e entretendo toda a gente como se esperava. Ainda para mais tem um mecanismo de pontuação que coloca os jogadores próximos uns dos outros trazendo uma indefinição quanto ao desfecho que faz crescer, jogada após jogada o interesse pelo jogo. As diferenças na pontuação vão sendo estabelecidas aos poucos e a coisa só começa a ficar definida na altura em que os passageiros começam a rodar pelo mapa. São muitos os pontos em disputa e uma hesitação pode fazer o jogador perder uns 6, 7 ou mesmo 10 pontos por passageiro. A ideia é não colocar os passageiros em viagem muito cedo nem muito tarde. Por exemplo, eu fui o último a mexer o meu 3º passageiro. Ganhei apenas 4 pontos. O Paulo, numa jogada amealhou uns 20 e tal. Por isso é bom de ver a importância destes pequenos bonecos para a pontuação final.
As locomotivas +4 introduzidas também nesta versão de Ticket to Ride não trazem nada de novo, mas também não chateiam.
Tenho também de dar uma palavra às cartas de jogo que estão bem melhores que as versões anteriores. Primeiro porque as cartas de objectivo têm todas as rotas do mapa desenhadas que acaba por ajudar bastante o jogador a delinear a sua estratégia inicial e depois para as cartas das carruagens que estão esplêndidas uma vez que apresentam miniaturas da Marklin e o nome dos modelos. Cada carta a sua miniatura. Reparei que alguns jogadores lhe prestaram a devida atenção.
Ticket To Ride Marklin é o jogo mais que perfeito para introduzir novos jogadores. Tem tudo. Beleza, elegância, competitividade e também alguma dose de estratégia.
A Sara no rescaldo duma derrota dramática lançou para o ar que o próximo poderia ser na casa dela. Seja como for o meu desejo é Railroad Tycoon. Duvido que alguém tenha mesa para aquilo, mas cá nos arranjamos.Até lá só me resta ler as regras e esperar que tudo corra, novamente, pelo melhor.























