08 abril 2009

Commands & Colors Ancients: Batalhas com história

O nascimento dum filho, como a grande maioria de vós o saberá melhor que ninguém, acarreta para um pai extremoso e ciente das suas funções, grandes responsabilidades e também grandes mudanças. Por muito que se oiça os conselhos e avisos dos mais velhos e experientes, nunca ninguém está devidamente preparado para as exigências insondáveis e incontroláveis duma cria, mesmo que esta tenha um ar absolutamente encantador. Face a isso, este pobre e honrado escriba deixou assim a vida boémia e lúdica a que estava habituado, remetendo a sua mísera existência a uma rotina de mudar fraldas, preparar biberões e acalmar choros descontrolados. Mas não se pense que não batem as saudades duma mesa cheia de amigos e boa pinga que tradicionalmente um bom jogo de tabuleiro oferece. Claro que sim, mas na impossibilidade, por ora, de mergulhar de corpo e alma no seu hobby de eleição, resta-lhe apenas meter o catraio no marsupial e entregar-se às jogadas diárias de Street Soccer e Powerboats que faz na solidão do seu PC.
Mas nem tudo são privações. Diga-se pois, em abono da verdade e do equilíbrio das coisas, que o que Deus tira com uma mão dá com a outra e estes tempos de abstinência serão compensados no futuro, porque a criança nasceu macho e, portanto, acredito que tenha dentro dela aptidões para ser um grande jogador e para passar ao lado do pai muitas tardes com dados de seis faces na mão. Não faço questão nenhuma que seja do Benfica, aliás provavelmente o futebol português não deve durar muito mais, mas levarei a meu encargo um esforço nobre para que ele saiba apreciar, na mais tenra idade, a excelência dum bom Knizia e a importância dum Wallacce dos primeiros tempos.
Gostava muito de continuar este paleio introdutório, mas terei primeiro de preparar o biberão para o alimentar, pois começo a ouvir os primeiros sinais dum despertar que, tenho a certeza, será bastante ruidoso.


Há já algum tempo que estava para escrever algumas palavras sobre Commands & Colors: Ancients, mas nunca o consegui fazer. Tecer parágrafos sobre jogos de guerra, especialmente quando são bons, é quase como, para um escritor de romances, aventurar-se na poesia. Mas afinal este é talvez o meu jogo preferido e, portanto, nada de mais lógico do que dar aqui a minha opinião.
Desenhado por Richard Borg, C&C:A é um jogo que pega novamente no seu aclamado Command Card Sytem que já antes tinha sido posto em prática com resultados interessantes em títulos como Battle Cry e Memoir 44. Tudo gira à volta de cartas que permitem ao jogador movimentar as suas tropas consoante as instruções nelas impressas. Ou seja, e para os poucos que não conhecem, o tabuleiro está dividido em 3 campos (direita, centro e esquerda) e as instruções, basicamente e duma forma muito grosseira, referem-se a ordens relacionadas com as posições na batalha. Exemplo: Movimentar 3 unidades do lado direito, movimentar toda a cavalaria que estiver no centro, uma unidade em cada um dos 3 campos, etc. Percebem a ideia? O objectivo é o jogador ter de fazer escolhas consoante a sua mão de cartas. O jogo deste modo cria limitações às movimentações e muitas dúvidas sobre que corpo do exército movimentar resultando daí uma experiência de jogo intensa e com o bónus de uma simulação de batalha durar no máximo uma hora.
O sistema em questão atinge o seu auge em C&C:A que calça como uma luva na história militar da antiguidade e faz rebolar de contentamento os curiosos e estudiosos das grandes batalhas. O primeiro título da franchise centra-se nas guerras púnicas e o jogador pode finalmente por em prática as suas aptidões de general e ver como se saia se vivesse naquele tempo e tivesse a cargo milhares de homens e alguns elefantes. É que estudar uma batalha púnica e saber os seus passos é um hobby mais menos recorrente e bastante saudável diga-se. No entanto, para todos aqueles que já passaram dezenas de horas e ler sobre o assunto, fica-lhes um amargo de boca sempre que fecham um livro e imaginam como seria um campo de batalha. É que, por muita teoria que se tenha, falta o mais apetecível. A sensação. E é essa lacuna que C&C:A vem, na minha opinião, colmatar na perfeição.
Em primeiro lugar as batalhas mais importantes e mais badaladas estão todas reconstituídas, como a do Rio Ticinus, Cannae, Castulo, Baecula ou Zama. A par disto, o jogador pode ler um pequeno apontamento histórico sobre a batalha em si e sobre o que aconteceu. Para além disso tenta-se recriar o tipo e quantidade de tropas envolvidas e as vicissitudes do terreno e da própria contenda. Um mimo.
Em segundo lugar estão lá os grandes generais cartagineses e romanos como Hamilcar, Hannibal, Hanno, Hasdrubal, Scipio, Cassius, Atilus, etc. Eles têm a sua peça especial que se movimenta e que é fulcral no desenrolar dos acontecimentos.
Por último o jogador pode também contar com uma panóplia extensa de unidades para se entreter. Infantaria, carros, cavalaria, camelos, máquinas de guerra, elefantes, camelos, arqueiros, etc. Cada uma destas unidades tem especificidades próprias e nem sempre são iguais dum lado ou do outro da barricada.
Bem, acabada que está a apresentação, vou ali pôr a chucha no Gabriel que ele parece estará resmungar com qualquer coisa.


Quanto ao jogo em si, este lê muito bem o que deveriam ter sido as batalhas da altura. É tida e atenção a supremacia de certas unidades, a entrada delas em cena, a importância do líder como elemento moralizador, a vital necessidade das tropas estarem unidas e não dispersarem, a fragilidade dos flancos e a imprevisibilidade do comportamento dos elefantes e também de certas tribos barbaras que são incorporadas. Nesse aspecto a simulação parece-me muito bem conseguida e acho que é impossível fazer melhor. Só para verem até onde pode chegar o pormenor, a inexperiência dos generais envolvidos é tida em consideração, ficando para o efeito, o jogador, com mais ou menos cartas de jogo. Contudo, não se acobardem os mais justos, que existem batalhas realmente muito desequilibradas e portanto mal se monta o cenário já se sabe, em teoria, quem vai perder, mas relembro que o que interessa essencialmente é simular o que aconteceu no campo e não passar por cima da história para se ter cenários justos.
Existe contudo o elemento sorte. Há dados no meio e as contendas resolvem-se com um lançamento deles. Mas aí impera o cálculo das probabilidades. Se a infantaria resolve ir ao encontro da cavalaria, o mais certo é levar uma carga de porrada tal que para a próxima o jogador pensará duas vezes se valerá a pena repetir a graça. A infantaria, por exemplo, lança menos dados e movimenta-se mais devagar que a cavalaria. Existem vários tipos destas unidades e cada um desses tipos tem características diferentes tanto ao nível da movimentação como de poder de combate. A listagem é grande e é necessário consultar, pelo menos nos primeiros jogos as cabulas que a GMT gentilmente oferece para que as dúvidas sejam dissipadas rapidamente.
No calor da batalha é muito importante as unidades estarem unidas, especialmente em redor do seu líder. Isso torna-as menos vulneráveis aos ataques inimigos. O objectivo é manter um corpo coeso porque as vantagens são enormes tanto no ataque, como na defesa e também nas movimentações. Existem muitas cartas que activam o líder e todas a linha de homens que estiver unida. Isto permite que um jogador ao jogar uma carta deste tipo possa mexer mais peças, desferindo ataques mais mortíferos. Claro que conseguir fazer isso é difícil, porque no meio da confusão pode-se perder o controlo e com ele a formação. Os ataques pelos flancos conseguem resultar melhor, especialmente se forem desferidos pela cavalaria, mais ágil para estas ocasiões. Por outro lado algumas unidades podem retirar quando confrontadas com um ataque desproporcional do inimigo, evitando assim baixas importantes. O senão da opção é que recuam e poderão fugir da formação, tornando-se mais apetecíveis para ataques futuros. Mas mais vale uma unidade perdida do que morta. Até porque mais tarde pode ser possível voltar a inseri-la no corpo principal.
A ideia do jogo é esta, portanto todos os condimentos para uma recriação deste tipo estão presentes. As boas notícias não acabam aqui, porque existem no mercado mais experiências. O franchise já conta com algumas expansões como “Greece and Eastern Kingdoms”, “Rome and the Barbarians”, “Roman Civil Wars” e “Imperial Rome”. Portanto tem muito por onde se entreter caso goste deste período da história e tenha tempo para jogar. Por falar em tempo, tenho de me despachar porque está na hora de preparar o banho à sua alteza que tresanda a leite instantâneo que carinhosamente tem vindo a bolsar para o pescoço.


Refiro ainda, para que depois não diga que não o avisei, que as regras são relativamente fáceis de compreender, embora o livro de instruções seja considerável (mas tem muitos exemplos) e basta usar o bom senso e os conhecimentos militares para perceber o que possa estar mal compreendido. O único ponto desfavorável é que a caixa traz 250 blocos de madeira a que é preciso colar uns autocolantes minúsculos. É um trabalho árduo, não o vou negar e vai ser necessária muita, mas mesmo muita paciência. Pode contratar, em opção, um chinês para o trabalho que normalmente cobra 30 cêntimos pelo serviço mas arrisca-se a que o resultado não seja o que pretende.
Só para terminar, acho que este jogo deveria estar presente nas bibliotecas nas universidades, especialmente nas que têm faculdade de história. Como ex estudante de história, tive uma disciplina que se chamava história militar da antiguidade e parece-me que C&C:A dava um bom complemento às aulas e resultaria muito bem para explicar a organização das batalhas e como elas se processavam. Pelo menos não era tão enfadonho como os tradicionais slides em Powerpoint.

Classificação: *****

06 abril 2009

We're back!

Como é do conhecimento geral, o Hugo é, nada mais nada menos, do que a grande Matriarca deste blogue, fonte de toda a energia postadeira e inspiração para todos nós! Como também é do conhecimento geral, a Matriarca do blogue resolveu ser mãe (se não estavam a par, sugiro que façam scroll para o post abaixo e observem o Don Juan que aparece no meio do turbilhão de jogos: é o rebento do Hugo, por mais improvável que pareça) e isso retirou-lhe algum tempo de blogue.

Eu já lhe comuniquei que esta situação é inadmissível e que os nossos clientes merecem mais do que fotos de putos no meio de um turbilhão de jogos, por mais giros e sagazes que os putos pareçam.

Assim, consegui-lhe arrancar a promessa do reatar os posts num futuro próximo. Da minha parte, ocupadíssimo como estou a não ter filhos, vou tentar fazer o mesmo. Do Spirale, o contribuidor mais descaradamente inútil da história da blogosfera, nem vale a pena falar...

28 fevereiro 2009

O próximo jogo

Aqui está ele, o Gabriel.
Tem uma semana e manifesta já uma bela dose de aleatoriedade. Chora quando quer, dorme quando quer e come quando bem lhe apetece. É um bocado como rodar dois dados de seis faces.
Saiu-me um duplo seis.

Foto da Tatas

04 fevereiro 2009

Insecto publicitário

A história não tem qualquer interesse para o cidadão comum mas, para nós, homens e mulheres que gostam de passar algum tempo em frente ao tabuleiro, enche-nos a alma de alegria e, porque não admiti-lo, de enternecimento.
Descobriu o nosso querido Zorg numa das suas passagens pelo BGG que o actor Rich Sommer, desconhecido para muitos de nós, é um jogador de grande gabarito e tem, na sua casa, cerca de 200 jogos de tabuleiro. Atendendo aos padrões normais é uma colecção invejável pelo menos se a compararmos com a minha prateleira da sala de 20 títulos.
Ciente da sua condição de boardgamer e na ânsia de evangelizar o máximo de amigos e colegas possível, o nosso fiel artista decide numa manhã de sol, levar para o set de filmagens da excelente série onde é protagonista, Mad Men, um jogo bem querido de muitos de nós – Hive.
Os actores aderiram com entusiasmo ao desafio e, antes de entrarem em cena, não dispensavam uma partida deste xadrez com insectos. Ajudava a passar o tempo e sempre os afastava das drogas, álcool ou pior.
Seja como for, Rich Sommer, mostrou-se feliz com os resultados e a 1ª temporada da série ficou conhecida, por entre a malta do burgo, como a season Hive. No entanto, aproveitando o espírito da época onde a série se passa, anos 50/60, um dia levou o 1960 e o Twilight Struggle sendo a reacção também positiva.
Portanto meus amigos, aqui fica mais uma evidência. Lá em Hollywood, as celebridades não são muito diferentes das pessoas anónimas que conhecemos diariamente pelas ruas. Damos-lhes um jogo para as mãos e a experiência transforma-se em vício.
Assim é que é!

Podcast

Perfil do artista

A série

Imdb do homem

29 janeiro 2009

A nova onda

Bem, para muitos não é novidade nenhuma mas aqui fica para os mais distraídos a revelação da nova tendência de marketing por parte de algumas editoras para darem a conhecer os seus produtos.
A iniciativa ainda é recente, provem das americas como não poderia deixar de ser e parece-me que dentro em breve vai ser imitada pelas casas europeias.
Falo de vídeos de apresentação de jogos que, no caso, estão muito bem feitos e aguçam o apetite tanto de jogadores como de curiosos.
Deixo então aqui meia dúzia de exemplos, com legendagem em Português, agradecendo, para o efeito, a boa vontade do tradutor.

Starcraft

Tannhauser

Pandemic

Battlestar Galactica

Confrontation

Android

20 janeiro 2009

Le Havre: O som das gaivotas

Uwe é o homem do momento. Se houvessem revistas sobre Boardgames, em todas elas a fotografia deste designer alemão apareceria estampada na capa do mês de Dezembro. Seria um Uwe sorridente, despreocupado com o seu futuro e com a calma de quem finalmente conseguiu fazer algo de muito positivo pelo mundo e pelos seus habitantes.
Muitas das opiniões de 2007 tinham colocado Agricola no top dos melhores do ano. O jogo venceu todos os prémios a que tinha direito e merecidamente chegou ao topo do BGG ou seja, para todos os efeitos, assumiu-se como o melhor jogo de sempre, destronando de vez o mítico Puerto Rico. Relembre-se que Puerto Rico esteve 6 anos no poleiro e o efeito psicológico de ter sido destronado, relembra-me mais ou menos, na minha infância, a sensação de alívio que tive quando o single do Stevie Wonder “I Just Call to Say I love You” saiu do lugar cimeiro do Top Singles de Portugal.
Ora, face a esta evidência e mediante a notícia que o Sr. Uwe teria feito 4 jogos baseados em Caylus, os olhos do mundo estão postos agora em Le Havre, o segundo título da série. Logo nos primeiros comentários após Essen deu para perceber perfeitamente o que estava em jogo. Se Agrícola foi o melhor de 2007, Le Havre será o melhor de 2008. Um bocado como Coppola fez com os seus padrinhos.


Le Havre é um jogo muito semelhante a Agricola uma vez que não esconde e percebe-se bem, que a grande fonte de inspiração para o seu desenvolvimento foi o prestigiado Caylus. Não interessa aqui fazer uma listagem das diferenças. O que importa é dizer categoricamente para princípio de conversa e para dissipar todas as possíveis dúvidas que Le Havre é suficientemente diferente de Agricola para merecer a sua aquisição e fazer pensar aos fieis proprietários destes dois jogos qual deles é o melhor. A resposta não é de todo fácil e, tal como no futebol, as opiniões vão-se dividir. A defesa das mesmas tende a tornar-se mesmo bastante violenta no caso dos intervenientes possuírem um proeminente desamparo social.

A história de Le Havre não é nada fácil de contar. Somos uma espécie de negociante que se movimenta pelas ruas sujas e manhosas desta cidade costeira e que tenta conseguir o máximo de dinheiro possível nos seus negócios e investimentos. Mas a demanda pelo ouro tem como base e força motriz este porto francês que traz à sua população diariamente e sem interrupções, peixe fresco, animais, madeira, ferro, barro e cereais. São estas as matérias-primas com as quais os jogadores podem iniciar a dinamização dos seus investimentos e dar à população tudo o que ela precisa.
Com a aquisição destas matérias, os jogadores poderão ir comprando edifícios. Estes edifícios permitem não só obter algum dinheiro numa base de troca como também, e isso é muito importante, transformar as matérias-primas que diariamente chegam ao cais sujo e gorduroso de Le Havre em recursos mais valiosos.
Os jogadores na sua vez de jogar vão assim poder fazer uma de 2 coisas. Ou vão buscar uma quantidade variável de matéria-prima primária do tipo que enumerei ou utilizam um dos edifícios em jogo e aplicar a sua função (um deles permite construir mais edifícios). Estes fazem e sem querer adiantar muito, o que se espera que façam em jogos deste tipo. Transformam madeira em carvão, tijolo em barro, animais em bifes, peixe em peixe fumado, etc. Ou seja, a par de todas as matérias-primas iniciais, os jogadores a determinada altura vão transformá-las. Assim, e que isto sirva de aviso dos mais corajosos, o pobre do jogador vai ter mais activos para gerir do que alguma vez geriu em qualquer jogo de tabuleiro. Escusado será dizer que os recursos transformados vão ser necessários para construir edifícios mais poderosos e que valem mais pontos no final do jogo. No meio disto tudo, ou não estivéssemos nós num porto, as construções mais esperadas são os barcos. São difíceis de construir, até porque vai ser obrigatório a obtenção do recurso mais raro, mas é a partir deles que se consegue escoar os produtos. Assim, cabe ao jogador pegar nos seus recursos, sejam eles primários ou transformados e enviá-los via mar. Como está bom de adivinhar, os recursos transformados valem bem mais do que os que não o são.
No fim conta-se o dinheiro e os pontos dos edifícios.


Basicamente é esta a ideia do jogo. Outro dos aspectos importantes é que o jogador terá de alimentar a sua população e também obter a energia necessária para a transformação das matérias-primas de que escrevi há pouco. Madeira e carvão serão gastos na transformação, peixe, cereais e carne na alimentação. O ferro, o barro e a madeira servem para a construção dos edifícios. Todos estes afazeres vão dar cabo da mioleira do desgraçado do conviva e terá vários motivos de stress, principalmente nas primeiras partidas. Aconselho que cada um jogue com a intuição que Deus lhe deu e que não se preocupe muito com as consequências. Numa primeira fase é apenas aconselhável colher o máximo de informação possível para depois, já mais calmo no leito e antes que a esposa quebre o silêncio com o ronco, o jogador possa pensar o que é importante e o que não o é para melhorar a sua prestação nas jogatanas seguintes.

É muito difícil jogar a esta maravilha de Sr Uwe. Existem 130 coisas para fazer ao mesmo tempo e cada jogador na sua vez de jogar terá apenas uma acção. Situação que vai deixar muitos a gargalhar como as pessoas em que lhes é servida uma feijoada ao jantar no anúncio da Frize. Não esqueça o amigo leitor que estamos a falar de 15 recursos. Por outro lado a mecânica da quantidade de recursos de ronda para ronda ir aumentando, provoca uma tentação do jogador tão grande que acaba por ser decepcionante. Imaginemos que eu tinha pensado em pegar nas minhas vacas e transformá-las em bifes e pele curtida. Tudo bem, basta para o efeito ir ao porto pegar nas vacas disponíveis, ir ao matadouro deixar os animais e depois pagar a energia suficiente para as máquinas do matadouro trabalharem. Após todo triturado é só pegar nos bifes e nas peles e colocar na minha área de jogo. Num futuro poderei alimentar a população com os bifes e vender nos barcos a pele. Mesmo para o leitor que não jogou estará a pensar que a ideia lhe parece fazer bastante sentido. Pois, o problema é manter-se fiel ao plano. Imagine que quer ir buscar as vacas ao porto. Existem 4 vacas. Mas mesmo ao lado estão disponíveis 9 barros. Bem, se calhar o melhor é pegar já nos barros e logo se vê como vai ser com os animais. Quando o jogo der a volta, e se ninguém pegar nos animais, estarão lá 5. Mas, mesmo ao lado estão 10 moedas. O jogador fica indeciso e pega no dinheiro. Pergunta: Então e o plano de levar a vacaria para o matadouro? Lá se vai o plano. Esta tentação repete-se umas 30 vezes em 3 horas.


Apesar de todo o esclarecimento que demonstrei, a verdade é que apenas joguei uma vez. Por isso ao contrário da maioria dos jogos em que basta jogá-lo uma vez para lhe tirar a pinta, Le Havre assume-se como um brinquedo manhoso e de mau feitio. Desvenda-se aos poucos e existem sempre estratégias diferentes para explorar e colocar em prática. Nada parece certo e vai demorar algum tempo até que um jogador consiga conhecer o tabuleiro como a palma da mão. Le Havre está tão bem desenvolvido que até chateia. Nada é posto ao acaso, tudo está equilibrado e funciona na perfeição. A interacção entre os jogadores é bastante pequena, pelo menos nas primeiras jogas, onde o jogador estará mais preocupado em sobreviver do que em matar os outros. Mas não existe muita interacção. Claro que as escolhas dos adversários acabam sempre por influenciar as opções disponíveis. Se um palhaço for buscar as vacas eu não o poderei fazer. Mas como as opções são sempre tantas que nada parece influenciar muito, muito embora seja uma opinião que não posso fundamentar por ter jogado uma vez. Em comparação julgo que o Agricola tem mais interacção. Por outro lado Le Havre demora 180 minutos a ser resolvido numa primeira fase. Com a explicação das regras o tempo excede o razoável, mas acredite que valerá a pena porque há realmente muito por descobrir. Eu achei o tempo demasiado longo e custou-me um bocado, mas eram 2 da manhã e compreende-se que o cérebro e a clarividência não estejam nas suas melhores alturas. Seja como for convém avisar que Le Havre é muito pesado, bastante mais que Agrícola e vai exigir mais. No entanto quem gosta do Agrícola irá certamente ficar feliz com Le Havre. Se não gostou do Agricola parece-me que não terá melhor sorte com este. Se não tiver nem um nem outro, talvez a pele de agricultor lhe sirva melhor.
Uma coisa é certa, jogos destes há muito poucos. Se tiver de escolher entre Agrícola e Le Havre, acho que escolheria o Mercator, o 3º jogo da série a sair este ano.

Classificação: *****



13 janeiro 2009

Especial: One minute rules

Se lhe perguntarem um dia, por mero acaso, que habilidades consegue fazer num minuto, o caro leitor certamente dirá que nesse minúsculo espaço de tempo estrela facilmente um ovo, manda os mails de publicidade para o lixo electrónico, descasca um laranja sem cortar os dedos, vem aqui a este blog saber se o Zorg já se decidiu qual o melhor jogo de 2007 e, se for um jovem facilmente excitável, pode até conseguir ter uma relação sexual completa.
Mas a esta lista poderá juntar a partir de agora, caso leve a sério a opinião que se seguirá, o ensinamento de regras de alguns jogos de tabuleiro. Esta particularidade é bastante interessante e especialmente útil a todos aqueles que não têm paciência para ensinar regras e que se atrapalham facilmente na tarefa. Ao mesmo tempo, são perfeitos para testar novos jogadores e saber se na próxima oportunidade já pode pôr o Catan ou o Ticket na mesa. São a opção ideal para que os mais resistentes a uma experiência neste mundo possam confiar em si e se possam, essencialmente, divertir. Como são jogos de 30 minutos, mesmo que a experiência não corra bem, o que duvido, não se perderá nada.
Aqui fica uma lista muito incompleta do que pode encontrar no mercado de jogos que se explicam em um minuto e que demoram entre 20 e 45 minutos a serem jogados. Todos eles privilegiam bastante o factor divertimento e são ideais para introduzir novos jogadores. Ensinam-se como se ensina um banal jogo de cartas de baralho. E claro, são bastante melhores. Ah, alguns deles, principalmente os 4 iniciais, também podem ser jogados a dinheiro o que implica que, se é homem ou mulher de casino, pode aqui ter uma opção válida para as suas aventuras mudando de jogo e divertindo-se à grande. Até porque consta, pelas notícias chegadas a público recentemente, é uma carga de trabalhos conseguir que os casinos paguem os prémios que saem.

Diamant
de Alan R moon e Bruno Faidutti
De todos os exemplos que se seguem, Diamant é talvez o mais fraquinho. É um Push your Luck puro onde os jogadores que tiverem mais coragem conseguem ganhar tudo ou perder tudo. Na verdade não existe muita ciência. O papel dos jogadores é explorar uma mina. Cada secção da mina vai ser acrescentada no princípio do turno. Essa secção pode ser uma exploração bem conseguida ou um acidente. Se for uma exploração bem conseguida os jogadores dividem o valor da carta que sair. Exemplificando: Somos 5 jogadores. Sai uma carta de valor 14. Cada jogador ganha 2 diamantes e ficam 4 em stand by. Ora a seguir a este processo os 5 jogadores vão decidir secretamente se continuam em jogo ou se saem do mesmo. Se continuarem não lhes acontece nada. Se um jogador decidir sair, fica com os 2 diamantes da divisão mais os 4 que estavam em Stand By. Por outro lado se forem 2 jogadores a sair, cada um leva os 2 diamantes da divisão mais metade dos diamantes em Stand By, neste caso 2.
Para além das cartas de exploração bem conseguida, existem também as cartas de acidente. Existem seis acidentes diferentes e três cartas para cada um. Quando sai uma carta de acidente não há problema nenhum. O jogo continua normalmente. Quando sair o 2º acidente igual o jogo termina e todos os jogadores que ainda estiverem em jogo perdem tudo e ficam com zero diamantes.
Diamant é um jogo extremamente simples que beneficia quando jogado com um grupo grande. Tem a vantagem de poder ser jogado facilmente por crianças alfabetizadas e é um divertimento honesto. É uma experiência que tem muito de dois ditados populares: Quem não arrisca não petisca e Quem tudo quer tudo perde. A ideia é que quem demorar mais tempo a desistir terá mais diamantes nas explorações bem sucedidas porque as dividirá por menos gente. Voltando ao nosso exemplo acima, se a carta de 14 tivesse saído com apenas 2 jogadores, cada um ganhava instantaneamente 7 diamantes. O problema é que se saísse um 2º acidente nenhum deles ganhava nada.
Diamant é um jogo que se pode tornar aborrecido facilmente porque a sorte envolvida é grande e é tudo muito repetitivo. Mas as primeiras vezes são sempre muito divertidas e vai ouvir muitas gargalhadas, podendo assim verificar se os seus amigos ainda têm os dentes todos.
Classificação **

For Sale:
de Stefan Dorra
Só joguei uma vez e é um título que goza de excelentes críticas um pouco por todo o lado. É fácil de ensinar, fácil de jogar e há um leilão envolvido que ajuda a apimentar as coisas.
A ideia do jogo é a seguinte. Vão saindo várias cartas de valores diferentes que os jogadores vão leiloando. O problema é que numa rodada estão, para 4 jogadores, 4 cartas de valores diferentes a leilão. Os jogadores vão pondo dinheiro na mesa. O primeiro a passar paga metade da sua licitação e fica com a carta menos valiosa. E assim sucessivamente até ficar apenas um jogador em jogo. Este paga a totalidade da sua licitação e fica com a carta maior. Isto repete-se durante algumas rondas, até que as cartas saiam todas. Os valores variam entre 1 e 30. Acabadas as várias rondas de leilões, o jogador fica com um portfólio de cartas com valores diferentes. A seguir a esta fase os jogador pega no que tem e vai para o mercado. O que vai acontecer é que em todas as rodadas vão ser retirados aleatoriamente dum baralho 4 cheques de valores diferentes. Os jogadores, secretamente colocam uma das suas cartas ganhas no leilão com a face escondida. Depois de reveladas as cartas, a que for mais alta fica com o cheque mais valioso e assim por diante até que o cheque menos valioso vá para a mão do jogador que jogou a carta mais baixa. Isto repete-se por várias rondas até não sobrarem cheques e cartas nas mãos dos intervenientes. No fim somam-se os cheques.
É um jogo divertido, melhor que o diamant e com um prazo de validade também maior. Mais uma vez toda a gente joga e se diverte. O problema é que se torna chato e a felicidade inicial vai-se esmorecendo, porque as opções são poucos e tanto a parte do leilão como a do mercado não resultam bem.
Classificação: **

Félix: The Cat in the Sack
de Friedemann Friese
Agora é que as coisas começam a aquecer.
Félix the Cat é um Poker sabichão onde o enganar o próximo é o prato principal. Há bluff por todo o lado e há uma tensão crescente. Não há nada melhor para um grupo que se diverte à custa dos outros. Diz-se mesmo que, em alguns bairros de Kiev, a máfia russa se diverte à fartasana com este joguinho.
Cada jogador tem 8 cartas em mão que são iguais para todos. Estas cartas vão de valores mais elevados a valores negativos. Cada jogador no início de cada turno coloca uma carta virada para baixo. Começam as apostas e vão se virando as cartas à medida que os jogadores vão desistindo. Aposta-se para ver tal como no Poker. A curiosidade de cada um faz aumentar a parada. Quem conseguir aguentar até ao fim ganha o valor das cartas colocadas em cima da mesa. O resultado pode ser muito bom ou muito mau ou assim assim. Há muito bluff, como já disse, mas essencialmente os jogadores podem sempre controlando as cartas que vão saindo e tentar adivinhar o que pode ter sido posto na mesa. O que acontece normalmente é que alguns jogadores sabem mais ou menos o valor do que está na mesa e outros não fazem a mínima ideia. Mas como qualquer jogo de bluff que se preze, os mais informados vão subindo a parada. Os outros acompanham. O que sucede na maioria das vezes é que o subir da parada nem sempre está em consonância com o real valor da mão, havendo depois da resolução gritos de raiva e olhares desconcertantes. Paralelamente um jogador pode fazer subir a parada com o intuito de enganar os outros e estes, fugindo do plano inicial, passam todos, ficando o espertinho com uma mão fraca e com o seu dinheiro diminuído. Félix: The cat in the Sack não tem pretensões nenhumas a não ser tentar imitar as sensações do Poker. Consegue ser mais divertido e mais ritmado. Aconselho vivamente a todos aqueles que gostam do jogo americano e que por uma razão ou por outra o deixaram de jogar por envolver dinheiro e por não encontrarem ninguém disposto a apostar umas massas.
Classificação: ****

Turn the Tide
de Stefan Dorra
Enchi-me de amores por este Turn The Tide.
Faz lembrar bastante o clássico copas que me fartei de jogar nos meus tempos de secundário e que foi imortalizado pelo Windows. Existe um baralho de cartas que vai de 1 ao 50. Estas cartas são divididas pelos jogadores. A ideia é os jogadores irem colocando as cartas na mesa afim de evitar as cartas de maré que penalizam em um ponto o tipo que as apanhar. As cartas menores do baralho servem para fugir e as cartas maiores para ficar com a carta de maré melhor que evita a penalização. A partir daqui é uma questão de gerir o jogo que lhe calhar. Um aspecto interessante é que os jogadores vão trocando de mãos. Ou seja, todos vão jogar com as mãos de todos, tipo os campeonatos de bridge. Depois é uma questão de saber quem se sai melhor com as mãos dos parceiros. Turn the Tide apresenta, ao contrário dos anteriores exemplos, a vantagem de se poder evoluir enquanto jogador. Pode-se aprender algumas manhas, controlar as cartas altas que saíram e as baixas para assim maximizar a prestação. De todos é talvez o meu preferido.
Classificação: ****

Genial
de Reiner Knizia
Genial ou Ingenius deve ser o Knizia mais fácil de ensinar e que menos dúvidas suscita para quem aprende. Tudo limpinho. Cada vez que tenho o prazer de o jogar vem-me à memória o Puzzle Bubble onde o objectivo é juntar bolas das mesmas cores para elas saírem do mapa. A ideia aqui é juntar cores para se ganhar pontos. Existem 6 cores diferentes e os jogadores vão colocando as suas peças no tabuleiro. Cada vez que as peças com uma cor se juntam às peças dessa cor no tabuleiro, o jogador pontua. Se existirem, por exemplo, 3 vermelhos e o jogador juntar um 4 vermelho, ganha 3 pontos. Se o próximo jogador juntar um vermelho, ganha 3 mais 1 do vermelho do jogador anterior, somando deste modo 4 pontitos. Tudo gira à volta disto, mas os jogadores vão sempre, se forem espertos, fechando as possibilidades de pontuação dos outros. No entanto, o pormenor mais importante de todos, para o resultado final, o que conta é a pontuação que o jogador conseguir na sua pior cor. De nada vale ter 700 pontos no amarelo se tiver 2 no azul. Neste caso específico, a pontuação final seria uns míseros 2 pontos.
O grande atractivo deste Genial, é que não se percebe muito bem até onde a sorte dita o resultado ou a escolha acertada de peças que se vão metendo no tabuleiro. Diz-me a experiência que um jogador sensato nas suas escolhas tem mais possibilidades de vitória. A discussão entre sorte e sensatez tem sido calorosa nos fóruns habituais. A propósito, a ultima opinião que li sobre o assunto foi bastante esclarecedora sobre o valor deste jogo. Dizia um querido americano que se sentia ofendido porque tinha jogado 160 vezes a Genial, mas que tinha percebido que afinal é a sorte que dita as leis, uma vez que com 160 jogos deveria ganhar a maior parte dos jogos o que, na verdade, não lhe acontecia.
O jogo no mercado tem o triplo do preço das opções anteriores, mas também tem a vantagem de poder ser jogado a 2 como a 3 ou 4 sem nunca perder a beleza. A 2 torna-se mais cerebral.
Classificação: ****

Great Wall Of China
de Reiner Knizia
Ao contrário dos outros, este Great Wall of China não se consegue ensinar em um minuto. Aviso já para depois não virem para aqui refilar com este escriba. Vai precisar de 3 minutos porque vai haver alguém que não percebe. Mas depois da primeira ronda fica tudo entendido. Great Wall é um jogo de cartas que pega no sistema de leilão do Taj Mahal. Os jogadores vão construindo com cartas secções desta muralha que pode ser vista do espaço. As secções têm valores diferentes. Os jogadores vão gastando as suas cartas para espalharem influência pelas secções. As cartas são um recurso escasso e se o jogador gastar muito desse recurso numa determinada secção, terá menos hipóteses de ganhar pontos nas secções posteriores. Muito interessante. Existem cartas de valor 1,2 e uma carta de 3. Por outro lado algumas cartas tem poderes especiais. Umas anulam as cartas já jogadas por outros jogadores e outras podem reduzir os valores postos na mesa. O jogador vai ter de pensar muito e vai ficar muitas vezes na dúvida sobre o melhor sítio onde gastar recursos. É um jogo rápido e cheio de artimanhas. Mas no fim vai sentir um sabor agradável na alma. Além disso não se esgota e vai ser sempre uma opção válida para por na mesa. Joga-se muito bem a 3.
Classificação: ***

Fica pois aqui uma selecção pequena mas honrada, de títulos de aprendizagem rápida que poderão fazer as delícias de amigos e familiares. A estes se poderiam juntar também street soccer e Wings of War. A razão porque não os juntei foi por se terem feito críticas aos mesmos em outra parte deste blog. As críticas são excelentes, diga-se.

05 janeiro 2009

Ghost Stories: os eurocooperativos

Um gajo passa por várias fases, quando entra neste mundo dos jogos. No início, logo após ter jogado o primeiro "jogo de estratégia" em que, de facto, é necessária alguma estratégia para ganhar - a fase a que os peritos chamam "tesão do mijo" - um gajo só quer é jogos pesados e mete, o que eu chamo, as palas da complexidade: "eu sou um gamer, meu amigo! Gosto é de jogos com baixo factor sorte, muita complexidade e que dure pelo menos 6 horas! O ideal para mim seria uma mistura de Die Macher com Age of Steam e uns pozinhos de Caylus, que é para ficar mais complexo! Não quero cá trivial pursuits, nem pictionaries"!

Depois, um gajo começa a perceber que há jogos que são giros de jogar, demoram muito menos tempo do que todos Die Machers deste mundo, e onde o pessoal todo, mesmo o que gosta do Trivial e do Pictionary, se consegue divertir à grande. É aí que um gajo tira as palas da complexidade e olha à sua volta para descobrir, maravilhado, que é precisamente esse o mercado que as editoras de "eurogames" pretendem atingir e que, por isso, a oferta é imensa, original e diversificada. É nesta fase que se descobre que há toneladas de jogos de média complexidade interessantes, que há milhares de jogos de cartas da classe "20 segundos para explicar as regras, 20 minutos para jogar o jogo" que são um verdadeiro regalo com o grupo certo e que até há jogos em que toda a gente ganha, ou toda a gente perde, os jogos cooperativos.

E é de um destes cooperativos que vos venho falar hoje, mas antes, um pouco de história!

Durante muitos anos, a grande referência dos cooperativos foi o Lord of the Rings, da autoria do grande mestre Knizia. Mais tarde, começaram a aparecer alternativas, como o Shadows over Camelot (que introduziu a ideia de haver um traidor disfarçado no grupo, que podia ganhar o jogo sozinho sabotando as acções dos outros), ou o Arkham Horror, passado no universo de H.P. Lovecraft. Todas estes jogos eram ricos em tema, demoravam 2.30h, ou mais, e todos tinham a sua legião de fãs.

Recentemente, uma nova tendência surgiu: a dos jogos cooperativos rápidos (1h, ou menos) assentes em mecanismos inteligentes e inspirados. No fundo é como se os cooperativos, depois de uma fase mais visceral e ligada ao tema, se tivessem "euroízado". O percurssor destes novos "eurocooperativos", foi o Pandemic, um inacreditável caso de sucesso comercial da Z-Man. Este ano foram lançados 2 novos jogos nesta linha: o Red November, do incontornável e caótico Bruno Faidutti, e o jogo de que vos vou falar, o Ghost Stories, do quase estreante Antoine Bauza.



O tema

Alguém já viu filmes de kung-fu antigos?

A história podia ser tirada de um: o malvado feiticeiro Wu-Feng quinou mas, infelizmente, isso não significa que tenha deixado de ser um problema para toda a humanidade! Não, do além, o gajo mandou uma data de servos infernais - criaturas horripilantes, assustadoras e, de uma forma geral, pouco simpáticas - para tentar recuperar a urna onde estão as suas cinzas e que repousa numa tranquila aldeia, algures na China. Se o conseguir fazer, a humanidade está tramada, porque o sacana quer transformar o nosso planeta numa espécie de campo de férias para mortos-vivos, zombies, vampiros, e toda a espécie de malandragem do além, especialmente aquela que gosta de se alimentar de nós. Os jogadores representam os monges taoístas que têm a difícil tarefa de mandar de volta para o além as dezenas de servidores que o Wu-Feng vai enviando para atormentar a aldeia, sobrevivendo o tempo suficiente para derrotar o manda-chuva em pessoa - que se digna fazer uma aparição, quando vê que as coisas não lhe estão a correr bem - garantindo o triunfo da liberdade, da democracia, dos direitos humanos e do aquecimento global.

Claro que a pergunta que todos vocês estão a fazer neste momento é: "monges taoístas? Como é que é suposto monges derrotarem fantasmas... rezando com muita força"?

Mas por isso é que eu perguntei se já tinham visto filmes de kung-fu! Qualquer pessoa que já tenha visto um sabe que os monges taoístas não se limitam a andar vestidos com lençóis coloridos, a rezar pelos cantos do templo! Não, isto é gente danada para a porrada, treinada nas várias artes do massacre e que não tem medo de espetar a tromba de um fantasma na ombreira de uma porta, ou de partir os caninos a um vampiro com uma cabeçada à cais do sodré (que, como toda a gente sabe, é com a nuca)! Este é o tipo de monges que tu queres ter do teu lado numa rixa de bar, numa luta de gangues, ou num confronto de claques!

Para além dos monges, a próprio povo da aldeia também sabe uns truques que vão poder ser usados pelos monges taoístas na sua difícil missão. E é uma aldeia bem freakazóide: tem monges budistas, estes sim, nada dados ao combate, mas disponíveis para oferecer estátuas do Buda que fazem mal à saúde dos fantasmas ; tem umas moças sobre cuja profissão eu não me vou debruçar, mas que permitem aos corajosos taoístas recuperarem forças para o combate e até ganhar uns acessórios que tornam mais fácil a exorcização da bicheza do além ; há um cemitério, onde se enterram os mortos (duh) e onde se pode ir ressuscitar algum taoísta que tenha sido apanhado distraído e tenha sido morto à traição ; há uma feiticeira que exorciza, ela própria, um fantasma à escolha, mas leva um ponto de vida em troca, porque, como toda a gente sabe, as feiticeiras não são de confiar... enfim, há muito por onde escolher em termos de auxílio aos taoístas.



A aldeia é construída com a partir de 9 tiles dispostas em quadrado aleatoriamente. Em cada face do quadrado colocam-se 4 tabuleiros com capacidade para receber 3 fantasmas cada um, de forma a que cada fantasma fique em frente a uma fila de 3 tiles da aldeia. Na sua jogada, um taoísta move-se uma casa e depois opta por pedir auxílio ao aldeão da casa onde se encontra ou, em alternativa, pode exorcizar o fantasma que estiver à sua frente, se houver algum.



A exorcização é feita através do lançamento de dados de faces coloridas a que se podem somar os efeitos de alguns aldeões, ou a utilização de uns tokens coloridos, chamados Tao tokens. Há sorte envolvida, naturalmente, embora se possa definir com bastante precisão o nível de risco que se quer correr em cada tentativa de exorcização.



Cada um dos 4 personagens também tem um poder especial, que é escolhido aleatoriamente antes do jogo começar, para maior variabilidade. Há um taoísta que voa, outro que lança mais um dado quando está a exorcizar, outro que tira Tao tokens à borla, etc.

O feeling

Este Ghost Stories caiu-me no goto! Nunca pensei gostar de um jogo cooperativo, porque a ideia de jogar cooperativamente sempre me pareceu... como dizê-lo? Parva! No entanto, tanto este como o Pandemic me levaram a concluir, como habitualmente, que o parvo sou eu! O jogo é como um puzzle, em que a situação se vai alterando a cada jogada. O que é giro neste Ghost Stories - e nisso, acho que o prefiro ao Pandemic - é que o puzzle não tem uma só solução e há um grande leque de ferramentas disponíveis para o resolver. É por isso fácil e normal estar toda a gente envolvida e a sugerir formas de resolver a crise que se vai instalando, jogada após jogada.

Este Ghost Stories é também um jogo bastante difícil! Eu só consegui ganhar no nível introdutório ao fim de 5 jogos e só ganhei no normal ao 8º jogo (joguei 11, até agora)... e ainda há 2 níveis de dificuldade acima de normal! Mas é também muito compensador, porque se sente na pele o progresso! Um gajo nota que está a aprender e a melhorar a coordenação e a eficiência da equipa, de jogo para jogo. Não há informação escondida, o que - contrariamente ao que eu esperava inicialmente - também contribui para que toda a gente esteja em volta da mesa a analisar a situação e a dar sugestões para a resolução dos problemas.

Um jogo deste Ghost Stories bem jogado é uma sucessão de planos a 2,3 ou 4 jogadas, envolvendo vários intérpretes, intercalados com soluções de emergência, para apagar um fogo urgente. É um jogo incrivelmente tenso, com a pressão a subir rapidamente jogada após jogada, à medida que os fantasmas vão entrando, até se chegar ao clímax final, com a chegada do Wu-Feng em pessoa. Gosto imenso deste arco, que consegue dar alguma história a cada jogo. Os dados fornecem aquela dose extra de frustração, quando a coisa corre mal, mas também aquele saborzinho extra, quando corre bem! Os momentos de lançamento de dados são normalmente momentos de silêncio absoluto e atento, seguidos de suspiros de alívio e gritos de alegria, ou de imprecações furiosas e esgares de dor, consoante o resultado do lançamento.

Os componentes são muito bons e bonitos, com o toque de classe a ser dado pelas estatuetas dos Budas e dos fantasmas voadores (parecidos com os infames Dementors do Harry Potter).



Muito recomendável, sem sombra de dúvida!

04 dezembro 2008

A colheita de Essen

Quais dos jogos de Essen deste ano é que já foram jogados pelo povo superior do JogosDeTabuleiro?

Aposto que essa é a pergunta que invadiu a vossa mente e vos atormenta diariamente, em todas as horas e todos os minutos, que vos provoca pesadelos e vos faz acordar aos gritos, com o suor a escorrer pela cara, a meio da noite! Aposto que essa é a pergunta que, pouco a pouco, vos está a levar à loucura!

Ou então, não!

Mas, seja como for, essa é a pergunta a que eu quero responder com este post.

Os jogos de Essen que fazem parte da minha colecção e/ou das dos criminosos com quem eu costumo jogar são: Powerboats, Space Alert, Confucius, Le Havre, Pandemic, Ghost Stories, Mecanisburgo, Race for the Galaxy: the gathering storm, Leader 1... e creio que é tudo. Destes, jogámos até agora: Space Alert, Powerboats, Confucius, Race for the Galaxy: the gathering storm e Leader 1. Eu joguei um jogo incompleto e solitário de Le Havre, para aprender as regras, mas isso não conta.

Powerboats

Se fizerem um ligeiro scroll para baixo, serão confrontados com uma das piores reviews jamais escritas sobre algum jogo, no período que vai do paleolítico superior ao dia de ontem (que foi quando comecei a escrever a review do Space Alert). No entanto, é uma review sobre este jogo em particular e que resume, de uma forma trapalhona e, a espaços, ridícula, a minha opinião sobre o jogo. Por isso recomendo a sua leitura, nem que seja só para terem mais um argumento para gozar comigo, no caso, altamente improvável, de vos faltar um argumento para gozar comigo. Mas, resumindo a minha opinião sobre o jogo: é rápido, é fácil de explicar, é emocionante, é o meu novo jogo de corridas favorito e, apesar disso, é o jogo de corridas que mais gosto de jogar.

Space Alert

Está a caminho a pior review de sempre (comecei ontem e já escrevi o título), mas posso adiantar que este jogo foi o prato principal de uma das melhores sessões de jogo do período que vai do paleolítico superior até hoje (vamos jogar hoje e eu sou um gajo optimista por natureza)! Jogámos 3 vezes seguidas e jogaríamos mais! Mas, devido ao adiantado da hora quando terminámos o terceiro jogo, optámos por jogar antes Powerboats até às 3 da manhã. E isto num dia de semana! Não vou dar muitos detalhes, para não tirar potência ao verdadeiro murro no estômago - daqueles de fazer caír para trás e ficar no chão agarrado à barriga com convulsões - que eu espero que a review seja, mas posso dizer que este jogo é uma bomba Antónia! É caótico de uma forma positiva, é tenso, de uma forma tensa, por causa da pressão do tempo, é brutalmente temático, por causa do tema, e é extremamente rápido porque uma missão não dura mais de 25 minutos, embora os 10 passados em tempo real, pareçam 2 horas. Uma sessão de Space Alert é uma sessão de gritaria, stress e tentativas patéticas de coordenação, mais ou menos condenadas ao fracasso. É um jogo-experiência e é diferente de tudo o que joguei até hoje. Gostei tanto deste Space Alert que posso revelar que, depois deste e do Through the Ages, estou pronto para me casar com o Vlaada Chvatil, se ele algum dia pedir a minha mão!

Confucius

Este está num campeonato diferente dos anteriores. É um jogo complexo e interessante, mas com aqueles pormenores temáticos a la Wallace no topo da sua forma. Há muitas opções, há muito planeamento a fazer, um pouquinho de sorte... e o mecanismo dos presentes é extraordinário! É um jogo rijo e complicado de dominar, na melhor tradição de coisas como o Struggle of Empires, que é sempre o título que me vem à cabeça quando penso neste Confucius. Dura 2 horas e picos, tem negociação, interacção, conflito, estratégia, tema... é daqueles jogos que faz crescer a barba e faz um gajo arrotar, quando o joga! Muito bom!

Race for the Galaxy: the gathering storm

Quando se joga um jogo quase 100 vezes, isso quer dizer alguma coisa. Normalmente quer dizer que o se é doente e, provavelmente, se tem demasiado tempo livre, por falta de competências sociais que permitam, entre outras coisas, engatar gajas. Outras vezes quer dizer que o jogo é a puta da loucura, como costuma dizer o pároco da minha igreja. E, do alto dos meus quase 100 jogos de Race, posso afirmar peremptoriamente que, de facto, o sexo feminino permanece um mistério insondável para mim. Para além disso, também posso dizer que, no jogo base, as estratégias de produce/consume são um pouco beneficiadas em relação ao resto. Esta expansão resolve admiravelmente a segunda questão embora, lamentavelmente, não faça qualquer contributo para resolver a primeira. Talvez a próxima expansão inclua um "Guia de conversação para encantar senhoras"?

Leader 1

É injusto talvez referir o Leader 1 nesta lista, porque só o jogámos uma vez e, mesmo aí, com apenas 2 jogadores. Seja como for, gostei muito do que vi! Este é o jogo ideal para os cromos da volta à França! Aqueles mariquinhas que gostam de ver homens que rapam os pêlos das pernas, vestidos de licra e suados, montados em bicicletas e a dar ao pedal durante horas! Se pertences a essa estirpe, então veste a tua melhor roupa de licra, monta-te na tua bicicleta e pedala à velocidade máxima para comprar este jogo, porque isto é a simulação perfeita do ciclismo! Se, por outro lado, jogas na equipa dos machos, pelo que preferes ver os jogos de voleibol feminino e não sentes nenhum tipo de entusiasmo quando vês um homem de roupa justa, então vai comprar este jogo na mesma, porque para além de uma excelente simulação, é um excelente jogo de corridas!

26 novembro 2008

Powerboats: maldito sábio holandês!

Introdução

Sempre gostei de jogos de corridas, apesar de, até hoje, só ter jogado um verdadeiramente bom! Não sei se é do cheiro dos escapes, do barulho dos motores, ou dos bikinis das mulas semi-nuas que, habitualmente, fazem qualquer coisa não identificada junto à pista antes da prova começar, mas o facto é que desde sempre me senti fascinado por este universo.

Foi por isso que comprei o Formula Dè Mini que, apesar do sistema giro de usar os dados, sempre me pareceu que não era bem aquilo que se pretendia. Andei a namorar o Bólide, mas descobri que demorava muito tempo. Cheguei a ter o Ave Caesar no shopping basket e a caçar o Daytona 500 no ebay, mas também acabei por adiar sempre, por achar que não eram bem, bem o que procurava.

Quando joguei pela primeira vez o Um Reifenbreite, ou Zong Binguetrumf, como o Hugo carinhosamente lhe chama, pensei para mim mesmo: "Aqui está a mãe de todos os jogos de corridas! Já não dá para melhorar isto e podes parar de procurar porque isto, meu amigo, é o melhor que existe".

Até que, quando vagueava sem destino ou companhia pelo BGG, ouvi falar no Powerboats.

"Hmmm", pensei, "o Corné Von Moorsel não costuma fazer maus jogos"... e decidi ir ver o que era.

"Olha, olha, afinal também dá para jogar online... deixa-me cá experimentar..."

E foi a morte do artista!

De facto, o Corné não falhou e, após 2 ou 3 jogos no site, o Powerboats já repousava no meu shopping cart e eu carregava no botão "Proceed to checkout" com sofreguidão e impaciência.

Três dias depois, 4 homens adultos, alguns deles barbudos e mal encarados...quem é que eu estou a tentar enganar? Todos eles barbudos e mal encarados, lançavam dados e davam guinchinhos ridículos, mais próprios de menininhas de 10 anos, enquanto tentavam conduzir os seus barquinhos coloridos pelo emaranhado de ilhas e atóis o mais depressa possível, até à vitória final. Qualquer jogo capaz de fazer um homem de barba rija guinchar como uma menina, merece o meu respeito e admiração!

O jogo

O Corné Von Moorsel é um gajo que deve estar num equilíbrio perfeito com o cosmos, sabe de certeza artes marciais a ponto de partir tijolos com a tromba e só faz jogos para que nós, comuns mortais oprimidos pelo peso dos nossos prazeres terrenos, consigamos abandonar o vício e atingir mais facilmente o Nirvana. As regras são sempre tão simples que até metem nojo e, quando as ouvimos, temos tendência a pensar que o jogo é demasiado simples para os nossos skills avançados de gamers de elite. Pelo menos, foi isso que eu pensei na primeira vez que joguei StreetSoccer, a minha iniciação a este mundo zen, criado pelo sábio holandês.

Depois, começamos a jogar o jogo e percebemos que é divertido. Jogamos mais algumas vezes e pensamos que afinal até há ali mais qualquer coisa que não tínhamos antecipado inicialmente e que torna o jogo mais interessante. Vamos ao site fazer um joguito, desafiamos um dos jogadores mais bem cotados e levamos uma tareia e pensamos "bom, o gajo teve sorte desta vez. Vamos lá tentar outra vez"... e a tareia repete-se!

De repente estamos envolvidos em 10 jogos ao mesmo tempo e a perceber da forma mais difícil, como é tão mais fácil levar uma tareia de um dos jogadores de topo, do que conseguir aplicar-lhes uma a eles. E aí ouvimos a voz de Corné Von Moorsel ressoar na nossa cabeça, a dizer "agora que aprendeste o valor da humildade e a desconfiar da ilusão das aparências, meu pequeno e ingénuo gafanhoto, está na hora de perceberes a importância da persistência". Pelo menos, isto foi o que se passou comigo e com o StreetSoccer.

E o Powerboast não foge muito a esta lógica. As regras são enganadoramente simples: o tabuleiro representa um pedaço de mar ou rio e está dividido em hexágonos pequenos. no tabuleiro estão colocadas 3 bóias numeradas.



Cada jogador controla um barco e o objectivo é contornar as 3 bóias por ordem e depois disparar para a meta de forma a ser o primeiro a chegar.
Na sua jogada, cada jogador tem de:
- Decidir se quer adicionar ou remover um dado.
- Decidir se quer relançar um ou mais dados.
- Decidir se segue em frente, ou se vira 60º em qualquer direcção.

A seguir deve somar o valor de todos os dados que tem e avançar esse número de casas na direcção escolhida. Se encontrar um obstáculo pelo caminho - uma ilha ou uma bóia - recebe um ponto de dano por cada casa que deveria ter movido e não pôde mover e perde todos os seus dados. Quem acumular mais do que 4 de dano, afunda e perde essa manga. Há um twist importamte: se houver opção entre bater e não bater, o jogador é sempre obrigado a escolher a trajectória onde não bate (ou a que lhe rende menos dano, caso bata em todas), mesmo que isso o desvie da rota planeada.

Uma corrida é composta por 3 mangas e o jogador que fizer mais pontos no somatório das 3 será o vencedor. Os pontos da segunda manga duplicam e os da terceira triplicam. Os dados têm apenas 3 faces, numeradas de 1 a 3.



E o jogo é isto!

A apreciação

Este é, tal como o StreetSoccer, uma obra-prima-zen, do mestre de kung-fu holandês! Consegue, com regras tão simples que até metem nojo, ter uma fidelidade ao tema impressionante e, ao mesmo tempo, ter estratégia suficiente para que um novato tenha de suar bastante antes de conseguir ganhar a um jogador mais experiente. E é temático... meu deus, como é temático! Como nas corridas a sério, grande parte da ciência está em saber escolher as melhores trajectórias (porque neste jogo escolhe-se mesmo a trajectória em vez de apenas se mudar de faixa), que podem não ser as mais curtas. Para além disso, é preciso aprender a gerir bem os dados, planear 2 ou 3 jogadas em antecipação e saber quando é que vale a pena arriscar e quando não vale. Há sorte envolvida, naturalmente, mas esta é mitigada não só pelo facto dos dados variarem apenas entre 1 e 3, como, principalmente, pela forma brilhante como são utilizados, permitindo que passem de umas rondas para as outras sem serem relançados, caso seja essa a vontade do jogador.

O jogo pode jogar-se de 2 a 6 jogadores e, como qualquer jogo de corridas que se preze, lida bem com mesas bem fornecidas. Curiosamente, ou talvez não, fazer um mano a mano também é bastante interessante. Aliás, no site só dá para fazer jogos a 2 e isso não me tem impedido de passar lá a vida. Mas, voltando ao que interessa: as 3 mangas fazem-se em mais ou menos 1 hora (depende da experiência e do número de jogadores), mas é perfeitamente exequível fazer só uma mangazita em 20 ou 25 minutos, para encher um tempo morto.

Acho que é um dos melhores jogos que já joguei, da colheita de Essen deste ano, e, provavelmente, o melhor jogo de corridas de sempre, destronando até o lendário Um Reifenbreite, ou Zip Zap Zunfenbrücken, como o Hugo carinhosamente lhe chama.

03 novembro 2008

Wabash Cannonball: o lobo em pele de cordeiro

Wabash Cannonball é o primeiro jogo da Historic Railroads Series, da Winsome e a estreia do seu autor, o misterioso artista oriental Harry Wu, nestas lides dos jogos de tabuleiro.

Para quem não sabe, a Winsome Games é uma empresa muito pequena, que se dedica ao desenvolvimento de jogos de comboios. O seu pessoal resume-se a John Bohrer (o ex-melhor amigo de Martin Wallace que agora disputa com ele os direitos de publicação da nova edição do Age of Steam), um multifunções Canon qualquer coisa, com impressora jacto de tinta e scanner integrados, uma guilhotina comprada na Staples e um cigano com uma máquina de plastificar, que dantes costumava estar à porta da DGV a oferecer-se para plastificar as cartas de condução do pessoal.

Atenção, que estamos a falar do John Bohrer que é considerado nalguns círculos um dos melhores developers de jogos que por aí anda! Para quem não sabe, o developer é o gajo que olha para o protótipo do autor, o testa exaustivamente e lhe retira as ideias parvas. Dizem as más línguas que o impacto da sua zanga com Martin Wallace tem sido bastante visível nos jogos deste último. Não sei porque razão, mas o nome Perikles vem-me à cabeça. Noutros círculos, no entanto - aqueles mais próximos do seu ex-melhor amigo - a opinião generalizada é que John Bohrer não passa de um merdas.

Da minha parte, não sei quem tem razão, mas estou confiante que a história fará justiça a estas duas grandes personalidades da cultura contemporânea. O que me interessa é que ambos continuam a fazer jogos!

Mas voltando ao que interessa: o objectivo da Winsome é fazer jogos com componentes muito mais - eles chamam-lhes protótipos - e levá-los a Essen em edições muito raras e limitadas. A ideia é que estes "protótipos" chamem a atenção de um dos big kahunas das grandes editoras alemãs e estas os republiquem em grande escala, ou então vendê-los directamente a totós como eu, por preços exorbitantes. No caso deste Wabash Cannonball, o plano correu na perfeição. Por um lado, depois de ter sido apresentado em Essen no ano passado, este Wabash Cannonball foi lançado este ano pela Queen, com o nome de Chicago Express. Por outro lado, há um "protótipo" na prateleira deste totó, pelo que essa parte do plano também correu bem! Já decidi é que não vou adquirir a nova edição da Queen! Totó, ma non troppo! Pelo menos é que digo a mim próprio todos os dias.

Sobre o autor, o misterioso artista oriental Harry Wu, há que dizer também que muito boa gente está perfeitamente convencida de que não passa de um pseudónimo do próprio John Bohrer, que terá optado por não assumir em nome próprio a autoria deste jogo. Porquê, ninguém sabe. E se por um lado, nunca ninguém os viu juntos na mesma sala, por outro, parecem existir diferenças físicas irreconciliáveis, já que John Bohrer usa óculos e veste-se sempre de fato e gravata, enquanto Harry Wu não tem óculos e costuma usar uma espécie de kimono oriental, à la Fu Manchu.

A dúvida persiste, embora me pareça que há gente a ver demasiados filmes do James Bond.

O jogo

O mapa está dividido em hexágonos e representa a zona dos Estados Unidos, entre o Ilinois e a Pensilvânia. Do lado direito do mapa começam 4 companhias de comboios. Do lado esquerdo, nas margens do lago Michigan, encontram-se Chicago e Detroit. Cada companhia tem um número fixo de acções que poderão ser vendidas durante o jogo. O número de acções que cada companhia tem disponível para vender varia e este é um pormenor da máxima importância.

As regras são simples. Na sua vez de jogar, um jogador pode escolher uma de 3 acções possíveis: capitalização, desenvolvimento ou expansão.

Quando um jogador escolhe capitalização, escolhe uma companhia que tenha acções disponíveis e coloca uma acção à venda, num leilão. O dinheiro resultante da venda da acção entra para os cofres da companhia e é o que lhe vai permitir operar e gerar lucros.

A acção de desenvolvimento permite "melhorar" um hexágono à escolha no mapa, por onde passem os carris de, pelo menos, uma companhia. Os efeitos dependem do tipo de terreno: o desenvolvimento de uma cidade ou de uma mina faz aumentar a cotação das companhias que por lá passam, enquanto as florestas permitem injectar dinheiro nos seus cofres. A acção de desenvolvimento não custa dinheiro e qualquer pessoa pode desenvolver qualquer hexágono, desde que lá esteja, pelo menos, uma companhia.

A última acção possível é a expansão. Expandir uma companhia é, na prática, assentar carril! O objectivo é ligar as várias cidades, gerando lucros para a companhia e, por arrasto, para os seus accionistas. Esses lucros são representados pela cotação da companhia, que esta vai ligando mais cidades. Em termos práticos, expandir uma companhia é acrescentar 1, 2, ou 3 cubos à linha dessa companhia no mapa. Os custos de expansão dependem do tipo de terreno dos hexágonos em causa e os custos são suportados na íntegra pelos fundos da própria companhia. Para um jogador poder executar a acção de expansão, tem de possuir pelo menos 1 acção da companhia em causa.

Cada acção pode ser executada um número limitado de vezes. Para controlar isto, existem 3 másculas tracks no tabuleiro (creio que na edição da Queen são uns mostradores redondos, todos bonitos e potencialmente indutores de homossexualidade a quem apreciar demasiado a sua beleza). Quando duas das 3 acções se esgotam, as companhias pagam dividendos aos seus accionistas e as tracks são reiniciadas. O valor do dividendo que cada companhia paga é o valor da sua cotação a dividir pelo número de acções que a companhia vendeu até ao momento. Este é outro pormenor da máxima importância porque esta "diluição" do valor das acções (quanto mais acções já foram vendidas, menor o valor unitário de cada uma delas) pode ser utilizada pelos jogadores em seu benefício.

Quando a primeira companhia consegue chegar a Chicago, acontecem 2 coisas importantes: há um pagamento de dividendos especial só para essa companhia e entra em jogo a Wabash Cannonball, que começa em Fort Wayne. Esta nova companhia funciona de forma exactamente igual a todas as outras (podem ser vendidas acções, pode ser expandida, etc) e os seus efeitos no jogo dependem muito da situação.

O jogo acaba após terem sido pagos os dividendos, se 3 companhias já não tiverem acções para venda e/ou cubos para construir camino de ferro. Há mais algumas condições de fim de jogo, mas as que acontecem mais habitualmente são estas. Ganha quem tiver mais dinheiro na mão (o portfolio accionista não serve para nada, no fim).

Há mais algumas coisitas, mas o jogo é mais ou menos isto.

A minha opinião

O Wabash Cannonball é um jogo dissimulado. À primeira vista, é simples e inofensivo, mas não é. Parece que tudo se resume a comprar acções de uma companhia e depois tentar expandi-la até Chicago, para receber o tal dividendo extra. Mas rapidamente se percebe que as coisas não são assim tão simples.

O mecanismo de acções é muito engenhoso e previligia, de uma forma simples e limpa, as alianças temporárias entre os jogadores. Passo a explicar o teor desta afirmação com um pequeno exemplo explicativo a que chamarei "Pequeno Exemplo Explicativo".

Pequeno Exemplo Explicativo

Imaginemos que estamos a jogar com 4 jogadores. Se eu tiver 2 acções da companhia "A" e estiver a tentar que ela chegue a Chicago, vou poder expandi-la uma vez a cada 4 acções que são executadas no jogo, já que cada jogador na sua jogada executa uma acção. Mas se eu tiver uma acção da companhia "A" e outro jogador tiver outra acção, isto significa que vamos poder expandir a mesma companhia 2 vezes, em cada 4 acções, ou seja, ao dobro da velocidade da primeira situação. E se fizermos isso de uma forma concertada, há uma probabiilidade muito maior da companhia ser a primeira a chegar a Chicago e receber aquele dividendo extra gostosão. A desvantagem desta situação é que vou dividir os lucros com o outro gajo que também tem acções da minha companhia embora, verdade seja dita, ele também esteja a trabalhar para o nosso bem comum. A vantagem é que os outros jogadores ficarão a chuchar no dedo e a olhar para nós, cheios de inveja do nosso sucesso.

Mas esta colaboração entre 2 accionistas igualitários de uma companhia assenta num equilíbrio muito frágil e só funciona quando há igualdade entre os intervenientes. Assim que deixa de haver igualdade - porque, por exemplo, um dos invejosos de que eu falava escolheu "capitalização" para tentar mandar as gânfias ao nosso lucro, e o outro gajos adquiriu mais uma acção da nossa companhia "A" - o outro accionista deixa de ter interesse em colaborar na sociedade. Porquê? Porque já não terei interesse em estar a desperdiçar as minhas acções numa companhia que vai dar mais lucro a outro gajo do que a mim... ele que gaste as acções dele! Em certos casos - leia-se "muitas vezes" - um accionista minoritário até tem interesse em lixar deliberadamente a companhia em causa, para impedir o maioritário de ter um lucro significativamente superior ao seu e, assim, vencer o jogo. Isto é particularmente verdade, quando está em causa a chegada a Chicago, com o seu respectivo dividendo extra e/ou quando há um diferencial grande em número de acções entre o accionista maioritário e o(s) minoritário(s). Como é que se lixa deliberadamente uma companhia? Expandindo-a para sítios idiotas, de forma a esgotar o seu stock de cubos, e/ou a gastar o seu dinheiro. Nos nossos últimos 4 ou 5 jogos, nenhuma companhia conseguiu chegar sequer perto de Chicago e muitas optaram por fazer expansões parvas para o meio das montanhas (que é onde é caro), o que é bem representativo do que eu estou a dizer.

Sprinters e maratonistas

Para adicionar à complexidade, as companhias não são todas iguais. E não são iguais porque não têm todas o mesmo número de acções disponíveis para serem vendidas, nem o mesmo número de cubos para construir linha. Há vantagens e desvantagens em investir numa companhia com poucas acções. Por um lado, quanto menos acções uma companhia tiver disponível para vender, maiores são os dividendos que potencialmente vai pagar (lembrem-se que os dividendos dependem da cotação da companhia e do número de acções vendidas). Por outro lado, se uma companhia tiver poucas acções disponíveis para vender, pode ter problemas de dinheiro (vender acções é a única forma que uma companhia tem de ganhar quantidades significativas de dinheiro) e, por isso, ficar estagnada, sem se conseguir expandir. Eu costumo dividir as companhias entre as sprinters e as maratonistas e a melhor maneira de utilizar cada tipo é diferente.

Conclusão

Tudo isto para dizer aquilo que já deve ser óbvio: eu estou perdidamente apaixonado pela minha personalidade electrizante... e, para além disso, gosto muito deste Wabash Cannonball! Cada jogo é um desafio difícil e interessante, em que cada jogador tenta colocar-se numa posição em que os outros tenham de o ajudar, para se ajudarem a si próprios. E isto não é nada fácil de fazer. O jogo é de informação perfeita (o dinheiro de cada um tem de estar visível), não tem nenhum tipo de factor aleatório, mas é de tal forma complexo e compacto que cada jogo é muito diferente de todos os anteriores.

Não é um jogo fácil de perceber, embora as regras sejam muito simples. Nas primeiras vezes que se joga, em que todos os jogadores são inexperientes, é muito fácil cometer erros numa fase inicial, que depois são irrecuperáveis. Também é normal um jogador inexperiente "dar" a vitória a outro jogador ao cometer um erro, sem perceber muito bem que o está a fazer. Felizmente o jogo é rápido (um jogo demora entre trinta minutos e uma hora, quando já toda a gente sabe o que anda a fazer) e. por isso, as consequências desses erros não são muito penosas.

Mas quando se está a jogar com uma mesa de jogadores que sabem o que estão a fazer, este é um jogo rápido, complexo e interessante, que dá imenso prazer jogar. Recomendo vivamente!

22 outubro 2008

Memoir 44: Soldadinhos de plástico

Muita coisa tem vindo a mudar na minha vida de jogador nos últimos meses. Se é verdade que, durante muito tempo, qualquer jogo de tabuleiro me fascinava e me distraía durante várias horas, independentemente da sua temática, mecânica ou mesmo aparato visual, agora, depois de ter começado a jogar jogos com uma vincada ambiência militar, a minha definição de entretenimento deu um rodopio de 180º e tudo o que não possua tiros, sangue e mortes pode tornar-se bastante aborrecido e é bem natural que daqui para a frente me torne um tipo insuportável quando chamado a jogar um Euro.
A minha primeira experiência no domínio dos Wargames foi através deste Memoir 44. Esta afirmação pode inclusive estar neste momento a despertar os mais variados comentários de desprezo por parte dos Wargamers, mas a verdade é que, digam eles o que disserem, Memoir 44 é uma óptima porta de entrada para este fabuloso mundo dos jogos de guerra.
Richard Borg conseguiu, através dum sistema imaginativo e bem oleado, reduzir a duração de reprodução duma batalha, normalmente 77 horas, para apenas trinta minutos. Além deste feito, que não é tão pequeno como isso, Richard Borg simplificou as regras de tal forma que um jogador conseguirá calmamente, e em apenas meia hora, ler o livro de instruções na cama antes de adormecer e ainda ficará com tempo suficiente para chatear a parceira para uma fogosa aventura sexual. Aviso já os leitores audazes que a fogosa aventura sexual durará bastante menos que a leitura.
Esta notável filosofia da simplificação criou um novo paradigma na abordagem a este tipo de jogos. Agora sabemos todos que, qualquer pessoa, poderá fazer uma batalha com um amigo sem chatear a esposa que normalmente, noutras condições, ficaria privada do seu macho pelo menos durante uma semana. Esta inovação, bastante sensata diga-se, trouxe com ela muitos novos jogadores e, claro, muitas vendas.



Memoir 44 foi feito de encomenda para as comemorações do 60º Aniversário do Dia D e da libertação da França. Por isso não é de estranhar que os primeiros cenários dos muitos disponíveis sejam precisamente do afamado desembarque na Normandia e das consequentes batalhas em terras Francesas.
A ideia do jogo é bastante simples. Dum lado estão os Alemães e do outro os aliados. Tradicionalmente, salvo algumas excepções, no primeiro contacto com o jogo, cada um dos adversários terá a oportunidade de movimentar dois tipos de unidades, os soldados e os tanques. Os tanques são mais rápidos que os soldados e têm um poder de fogo de meter medo. Por outro lado, de nada valem em certas localizações, como florestas, cidades ou cercas de florestação onde perdem poder de fogo. As unidades de infantaria, por outro lado, têm mais facilidade em se esconderem e aproveitarem os terrenos que constituem cada cenário para beneficiarem de alguma vantagem face à oposição das unidades inimigas. Cada unidade de infantaria pode lançar em batalha 1, 2 ou 3 dados consoante a distância a que está do alvo. Por outro lado os tanques “disparam” sempre 3 dados, mas este número pode ser reduzido quando o disparo tem como objectivo unidades estacionadas em cidades ou florestas cuja visibilidade é menor. Aproveitar as características dos terrenos e os pontos vitais do mapa são os factores determinantes para vencer uma batalha.
Existem mais algumas coisas que vão aparecendo com o desenrolar das campanhas, como fortes, arame farpado, pontes, artilharia e unidades especiais que tornam cada cenário uma experiência única com características distintas e singulares.

Toda esta roda militar que este escriba vos escreve é movimentada por cartas. Cada general ou jogador tem várias cartas na mão e essas cartas servem para darem ordens às unidades que estão no terreno. Por exemplo, o jogador tem uma carta que lhe permite movimentar todas as unidades no lado esquerdo. Desta forma o jogador na sua jogada movimenta só as unidades do lado esquerdo do mapa. Em contrapartida, todas as outras unidades ficam paradas. Existem cartas de vários tipos, que permitem movimentar apenas uma unidade, recuperar unidades que sofreram baixas em rondas anteriores, construir trincheiras, duplicar o poder de fogo, pedir um ataque aéreo e muito mais. A ideia subjacente a tudo isto é que o jogador não pode movimentar as suas peças conforme a sua vontade. São as cartas que ditam o que fazer. Ao jogador caberá a tarefa de, mediante as opções que tem em mãos, seguir aquela que melhor lhe serve no rumo da batalha. Poderá haver alturas em que o pobre do general não terá nada de jeito que possa fazer. Muitas vezes acontece o jogador ter várias unidades do lado direito da batalha e não ter cartas que permitam movimentá-las. Nestas ocasiões o melhor é fazer o que se pode com o que se tem ao centro e à esquerda.


Como já referi, uma batalha nunca demora muito tempo a ser resolvida. Tudo isto se desenrola rapidamente. Todavia, julgo que um cenário desvenda-se totalmente aos jogadores nas primeiras 3 tentativas e, a partir daí, pode-se tornar bastante previsível e os generais perderem a motivação para o repetirem. A boa notícia é que existem, pela última contagem, 7026 cenários espalhados pela net e alguns deles podem ser mesmo sacados da página oficial do jogo. Muitos foram desenhados pelo próprio autor. Se mesmo assim o jogador achar que é pouco, então porque não fazer os próprios cenários e partilhar essa veia com o mundo? Memoir 44 é um jogo que nunca se torna repetitivo e existem sempre desafios diferentes, com regras diferentes e pormenores variados. Se juntarmos isso ao facto de haver 5 expansões com muitas novidades dentro delas (existe mesmo a possibilidade de trazer aviões para o mapa), a experiência Memoir 44 parece não ter fim. Como se tudo isto fosse coisa pouca, existe sempre a possibilidade de se juntarem 2 mapas e jogar-se em Overlord, que transforma uma simples batalha num épico para mais do que os tradicionais dois jogadores com o dobro das unidades e das opções.


Memoir 44 é um jogo catita, servido com dezenas e dezenas de figuras de plástico que tornam tudo agradável à vista e que transformam os combates numa diversão. Não é um jogo de guerra como nós os imaginamos, difíceis, cheios de particularidades e que dão trabalho a aprender e jogar. Mas isso é, contudo, o seu maior trunfo. É um jogo directo e simples que elimina tudo o que pode ser supérfluo e apenas se centra nas manobras de cada lado da contenda. Não espere decisões muito difíceis mas também não espere grandes facilidades. Vai sentir dúvidas e vai ter afrontamentos quando lhe faltarem as cartas para o movimento que lhe dava jeito. O melhor é usar a imaginação. Tudo limpinho, sem sangue e sem lama. Na verdade faz-nos lembrar a altura em que, quando éramos mais novos, comprávamos soldadinhos de plásticos e que depois, quando so tínhamos na mão não sabíamos o que fazer com eles. Quanto muito, lançávamos berlindes para ver quantos é que tombavam. Pois bem, Memoir 44 é o jogo para essas figurinhas de plástico mostrarem o que valem.
Além disso, pode até servir, para os pais mais interessados, como introdução à segunda guerra mundial aos filhos.

Classificação ***

24 setembro 2008

Session report: Imperial

ho do vos ser sincero. Cada vez me custa mais escrever para aqui. Não é que não goste de o fazer, mas a preguiça para o feito é tanta que na maior parte das vezes acabo por desistir. São 3 anos nisto, meus amigos, 3 anos! Ando cansado, velho e parece que estou sempre a escrever o mesmo post.
Mas apesar de tudo, depois de ter jogado a semana passada a Imperial de Mac Gerdts, fiquei com um bichinho de fazer uma Session Report gloriosa, daquelas a contar como correram as mudanças de países, as guerras, o sangue, o dinheiro e os interesses políticos por detrás de cada jogador. Mas se a intenção era boa, pior foi a sua concretização. Nada! Passei o fim-de-semana a ver bola, golf e a beber margueritas (que entretanto aprendi a fazer). Nem o computador liguei e a determinada altura já estava com os copos e o momento ideal para a escrita passou.
Por isso deixei de lado a aventura de escrever uma session gloriosa e vou apenas descrever as minhas ilações sobre a jogatana. Assim, a seco, sem rodopios narrativos nem nada. Esta é a session report mais aborrecida que você, leitor, pode encontrar nos blogs da especialidade, mas por outro lado pode até ser bastante interessante discutir. A ideia é conhecer as experiências dos caros leitores sobre este jogo e como é que as partidas fluem no vosso grupo.

Filipão: O Filipão foi sem dúvida o jogador da noite. Numa estreia absolutamente sensacional, conseguiu trazer muita frescura à experiência. Sem saber muito bem o que fazer e de maneira a esconder-se do jogo, nunca assumiu nenhuma potência. Ora, esta opção acabou por ser bastante proveitosa para ele. Com ela, acabou por poder comprar acções de todos os países e como não tinha o controlo de nada, acabava por adquirir as acções sempre que a carta de investor passava de mãos. Por outro lado, como tinha acções de praticamente todos os países acabou por estar sempre a receber dinheiro cada vez que alguma potência caía no investor. Por esse facto os seus ganhos, apesar de serem poucos de cada vez, eram constantes. Acabou por ser uma estratégia bastante funcional que me fez pensar no jogo e equacionar toda a minha forma de jogar. Filipão não se aguentou até ao fim. Ironicamente, a determinada altura, acabou por decidir, num acto de coragem, comprar o poder na Áustria. A partir dessa altura não pôde mais comprar acções com a passagem do investor, porque não beneficiava da regra que permite a um jogador sem controlo em nenhuma potência poder comprar uma acção. Filipão apostou na Áustria, perdeu a aposta e acabou por perder o primeiro lugar.

Hugo: Eu fiz o que costumo fazer nos jogos todos de Imperial. Compro a Áustria e a Rússia e faço um pacto de não agressão e consigo que as potências em questão dividam os países da Europa do Leste. Isso é o suficiente para lutar pelos primeiros lugares e também para que tanto a Áustria como a Rússia sejam bons investimentos. Mas desta vez a coisa não correu muito bem. Quer dizer, ao princípio as potências em questão até se destacaram (mais a Rússia) mas não deram o salto. Descobri, que apesar da vantagem inicial duma ligação Áustria/Rússia chega-se a um ponto em que estas se anulam e acabam por não conseguir evoluir. Penso que vai ser a última vez que faço um jogo baseado no controle Austra/Rússia. Bem me avisou o Zorg para esse facto.

Zorg: Investiu mais na Itália e Inglaterra, com algumas investidas na França e Rússia. Acho que nunca assumiu o risco e ficou sempre na expectativa. A expectativa compreende-se porque foi um jogo em que as potências andaram sempre juntas pela track de pontuação. Era de facto muito difícil prever qual seria a vencedora para se gastar dinheiro nas suas acções. A oportunidade só chegou no fim, mas já era muito tarde e os outros jogadores anteciparam a vitória da Alemanha e já tinham comprado acções desta, obtendo vantagem sobre ele. No entanto fiquei impressionado como ele trabalhou a Inglaterra e ganhou dinheiro com ela. De facto com um investimento fraquinho conseguiu retirar imenso das terras de sua majestade. Inglaterra deve funcionar bem como apoio marítimo á França ou mesmo Alemanha. Acho difícil conseguir ser a potência mais valiosa num jogo.

Spirale: Em termos de grandes líderes, Spirale sabe o que faz. Com uma astúcia sem memória, Spirale assumiu a si a Alemanha e construiu uma potência com “P” grande. A Alemanha ganhou o jogo e foi Spirale que lhe edificou o poder. Apesar de tudo, Spirale não ganhou. Foi o jogador que mais se esforçou por levar uma potência a bom Porto, mas não conseguiu a vitória. Bateu em tudo e todos mas aprendeu que ser um bom líder em Imperial não serve de nada. No entanto Spirale vai fazer referência durante vários meses a esta sessão e principalmente à Alemanha que conseguiu construir.

Ricardo: Começou o jogo como o Filipão. Passou o início escondido do grande palco, sem assumir nenhuma potência. A determinada altura do jogo pegou na França e na Itália. Percebeu-se que a França tinha grandes hipóteses de ganhar o jogo quando ele lho pôs as mãos. A determinada altura havia dúvidas se seria melhor comprar acções da França ou Alemanha. Mas, ao contrário de Spirale, Ricardo nunca teve uma mão de ferro e nunca conseguiu assumir-se como um líder nato. A França, acabou por não evoluir na classificação e acabou se afundar. Mas Imperial tinha uma surpresa reservada para os jogadores. Deu a vitória a Ricardo. Apesar de ser um mau líder, acabou por ganhar. Beneficiou de comprar a última acção dum país, numa altura em que se sabia que a Alemanha ia ganhar. Comprou uma acção alta deste país e ganhou. Isto levantou-me uma questão pertinente. Saber se o último jogador a comprar uma acção ganhava sempre. Isto porque nas minhas 3 últimas partidas foi isso que aconteceu. Mas outros jogadores juraram-me que nunca tinham reparado nisso.


A sessão foi muito boa. O Jogo terminou às duas da manhã e havia tanto para falar na altura que, devido ao adiantar da hora e à obrigação de acordar cedo na manhã seguinte, vimo-nos forçados a despedirmo-nos. Mas essencialmente esta secção fez-me ver Imperial com outros olhos e perceber alguma coisa dele. Para já que tem sorte. Parece-me, de alguma forma, que quando o jogo se começa a definir, os jogadores que vão ter a possibilidade de investir têm vantagem.
Por outro lado, de nada valem as teorias que se possam ter sobre o jogo. Tudo pode falhar na hora de fazer as contas. E isso é fantástico, ou não fosse ele um SpielPortugal. Por outro lado também é um jogo que se transforma consoante as dinâmicas dos grupos.