26 março 2007

Session Report: Imperial com pouco gás

É quase como uma doença. Após uma jogatana de Imperial existe a necessidade de partilhar com a comunidade a experiência que se teve. Urge contá-la aos quatro ventos e, como seria de esperar, desta vez o desejo manteve-se. Este é um dos principais atractivos deste jogo de Mac Gerdts: jogá-lo para contá-lo.
Desta vez decidi apresentá-lo a um grupo que tem vindo aos poucos a interessar-se pelo hobby. Não são jogadores experientes, nem clientes habituais das lojas online, mas nunca recusam um convite meu. São jogadores sociais, jogam mais para passar uma tarde com amigos do que pelas potencialidades do jogo. Não querem saber quem é o Knizia ou o Kramer e normalmente gostam de tudo, muito embora tenham um carinho especial pelo El Grande, Modern Art e Ticket to Ride.
Como desta vez éramos só quatro (o encontro entre Portugal e a Bélgica tirou-me alguns dos clientes habituais), decidi arriscar no Imperial. Um dos grandes atractivos da sessão foi também a primeira presença do Lindinho. O Lindinho foi sempre um feroz e inteligente jogador de Risco que partilhou a mesa há uns anos atrás. Jogar Risco sem o Lindinho não tinha piada nenhuma e por isso, achei que era uma boa ideia apresentá-lo a este mundo dos jogos de tabuleiro com um jogo que, duma forma ou de outra, tem alguns elementos familiares. As guerras, as potências, o controlo de países, etc.
Este Imperial, não é segredo nenhum, é um dos jogos, senão mesmo o jogo, que mais me surpreendeu nos últimos tempos e que constitui uma lufada de ar fresco no que por aí se produz. Por outro lado, o jogo é tão bom que depois de o jogar tornei-me bastante mais exigente e aborreço-me com muito mais facilidade com jogos que não tenham um toque especial. Confesso que hoje em dia sou um gajo insuportável no que toca a jogos novos. Tudo o que tenho jogado ultimamente me pareceu monótono, pouco inteligente e sem grande inspiração.


Imperial não é um jogo fácil. É, de alguma forma difícil de explicar a não gamers e também é difícil saber o que é preciso fazer durante as duas horas e meia que dura uma partida. As regras são difíceis de entender, não porque estejam mal explicadas, antes pelo contrário, mas porque é um jogo inovador e que traz com ele muita coisa nova a que o jogador, mesmo o mais experiente, não está habituado.
Por isto tudo tive muitas dificuldades em fazer entender as regras aos meus comparsas. Principalmente qual é o objectivo do jogo, como se ganha dinheiro e a vantagem e desvantagem dos investimentos.
Como sempre acontece nos jogos de tabuleiro, a única maneira de saber como tudo funciona é, evidentemente, jogar. E foi o que fizemos.
O Lindinho teve uma inclinação inicial pela Inglaterra. Comprou então acções do Império de sua majestade. Não satisfeito, comprou também o governo da França. O Cabão, homem pragmático, não resistiu aos encantos da Alemanha e gastou muita das suas poupanças nele. O Luís foi para a Itália e eu comprei a Áustria e a Rússia.
O Lindinho começou bem, demonstrou logo que não estava ali para brincadeiras e teve logo como objectivo dominar os mares do Norte. Construiu uma fábrica e encheu o mar com navios. Foi um começo ameaçador. Ganhou muitas zonas de influência e como tinha a França sobre o seu domínio, a paz entre os dois países beneficiou os seus intentos.
O Luís começou por distribuir os navios italianos no Mediterrâneo e a Itália foi uma potência com grande poder no norte de africa, zona que também foi cobiçada pela França.
O Cabão com a sua Alemanha avançou sem medos para os países baixos e eu marchei com os exércitos Austríacos e Russos para os Balcãs.
Foi, sem dúvida um início prometedor. Mas a partir daqui as coisas complicaram-se. A falta de familiaridade dos jogadores com o jogo fê-los cometer erros que os prejudicaram. O Lindinho, com a sua Inglaterra, não taxou e com isso perdeu uma oportunidade de ouro para se adiantar. Os outros jogadores seguiram-lhe o exemplo. Eu, mais experiente, tratei logo de avançar o marcador da Áustria e da Rússia, obtendo logo uma vantagem preciosa.
Esta situação evidenciou as dificuldades na interiorização das regras. Não consegui na minha explicação dar a entender a importância da “taxation”. Foi pena, mas creio que uma das características de Imperial é precisamente essa. Só na segunda sessão é que se está suficientemente familiarizado com as regras para que se possa gozar mesmo a sério a experiência.
Mas com a continuidade da partida, as coisas começaram a seguir o seu rumo natural, os jogadores começaram a taxar na hora certa e a ter vantagens com isso. Mas o arranque foi a conta gotas.


Subitamente começou uma procura desenfreada às acções da França. A razão era simples. A França teve sempre muitas tropas e podia conquistar muitos territórios, não só porque tinha muitos exércitos, obra feita pelo Luís, mas também porque urgia estragar o arranjo do Lindinho de ter para ele a França e a Inglaterra. O único problema foi que o poderio militar não se evidenciou nos pontos de vitória da França. Isto porque os jogadores que se sucediam na governação do império francês não construíram fábricas. A simples construção duma fábrica (vale 2 pontos) iria fazer subir a França para os níveis da Inglaterra (que entretanto eu comprei e taxei) e da Rússia. Mais uma vez a inexperiência dos jogadores veio ao de cima. Não consegui, na minha explicação, evidenciar o peso que uma fábrica tem no resultado do país. Por isso não é de estranhar que os países que se evidenciaram no resultado final foram os países que tinham uma fábrica (Inglaterra e Rússia).
No meio disto tudo o Cabão tratou logo de estragar a paz entre a Áustria e a Rússia, comprando-me a Áustria. O Cabão foi sempre um investidor agressivo. Comprava com grande oportunidade os governos dos países, mas o problema dele foi o facto de não ter construído fábricas. Principalmente na Alemanha, país que teve sempre ao longo do jogo mas que tratou logo de o destruir financeiramente. A Alemanha teve os seus cofres vazios durante metade da partida, mas com uma quantidade de exércitos capaz de assustar a França, que nessa altura já tinha uma posição confortável no norte de Africa e também na península Ibérica. A França foi sempre um império que passou muitas vezes de mão, foi bastante cobiçada, mas não teve efeitos práticos. Faltavam fábricas para que o país, depois duma “Taxation” subisse no Ranking.
A Itália também esteve bem. Teve uma forte presença no norte de África e Mediterrâneo. Trabalho do Luís que sempre tratou dos interesses territoriais do país. Mas também ele falhou ao nunca ter construído uma fábrica ou porto.
A minha Rússia, antes de ser cobiçada por todos, ganhou bastante vantagem, não só porque tinha uma fábrica construída como também teve sempre muito bem nos territórios dos Balcãs e nos países nórdicos.
E o jogo foi caminhando para o seu final. Eu ganhei com alguma vantagem, a razão foi a minha experiência anterior.
Apesar dos erros, O jogo foi emotivo e bastante divertido. Toda a gente estava envolvida e a compra de títulos foi sempre emocionante e os jogadores acabaram por gostar de experiência. Mas enfim, não conseguimos evitar o amargo de boca de que só no fim é que todos estavam a perceber a mecânica do jogo, perdendo a partida com isso a competitividade e o equilíbrio. Havemos de jogar outro para a próxima!
Fica aqui só um conselho a todos aqueles que vão no futuro apresentar este jogo a outros jogadores: Insistam na importância das fábricas e da “Taxation” e de como os resultados da “Taxation” influênciam o ranking dos impérios.

10 comentários:

soledade disse...

Gostava de ter estado aí a jogar isso convosco, vinho, Imperial...

Há jogos que a experiência vem mais ao de cima que outros. Imperial é assim. Precisa ser jogado.

Reparei que o vinho acabou. Para além da experiência, também se pode usar essa táctica, a do embebedamento. Acho que pode ser uma boa estratégia...

Viva Portugal!

hmocc disse...

Boa session report, muito util para mim que pretendo jogar este jogo em breve.

Abraços.

Hugo disse...

Soledade:
Sim, vinho do bom (merlot - cortesia do Luís) e chouriço de porco de preto de barrancos.
Sim, o vinho acabou como seria de esperar, o jogo é muito movimentado e puxa pela pinga!

Hmcc:
Lê bem as regras com especial atenção para as taxations. Explica bem as vantagens de ter fabricas e de taxar o máximo de vezes possíveis.
Diverte-te.

Obelix disse...

Também já experimentei este, com o Zorg, o Shaim, o Francisco e a Marisa, e devo dizer que, felizmente, não houve tantos erros e o jogo decorreu bastante bem! É um grande jogo mesmo! E já agora, Hugo, não sei se já experimentaste, mas quando puderes joga Twilight Struggle! É só para dois jogadores, mas é muito bom!
É sobre a Guerra Fria, e tem todos os acontecimentos importantes dessa altura, vale mesmo muito a pena!

Hugo disse...

Fui mesmo agora invadido por inumeras mensagens do Zorg a dar conhecimento do vosso jogo de ontem e como o jogo é bom.
Ando curioso.
Estou numa fase em que quero só jogar a jogos verdadeiramente inteligentes e imaginativos. Tou farto de cartinhas, colocar peões, etc. Quero coisas novas!
Por isso, acho que o TS vem ao encontro disso que procuro.

hmocc disse...

Hugo,

Obrigado pela dica.

E o Twilight Struggle é, como diriam os gajos da agência publicitária de chelas: " um jogo com um requinte do €@#@&%§!!!"

Agora a sério, é mesmo.

Abraços

Bruno Valério disse...

O Imperial aparenta ser mesmo muito bom... infelizmente ainda não consegui terminar um único jogo :)

soledade disse...

"Estou numa fase em que quero só jogar a jogos verdadeiramente inteligentes e imaginativos. Tou farto de cartinhas, colocar peões, etc. Quero coisas novas!
Por isso, acho que o TS vem ao encontro disso que procuro."

Pronto. Agora estamos em sintonia. Estás na fase do vinho mais difícil, já não te apetece aqueles simples de beber.

Joga o Twilight Struggle e daí a ficares agarrado a jogos com tema e card driven vai um instante. Aposto!

zorg disse...

Até agora a minha experiência com os card driven wargames tem sido muito boa! Só joguei Hannibal e Twilight Struggle, mas são os dois absolutamente arrebatadores! Tão arrebatadores que até já ando a ponderar a loucura de avançar para o Paths of Glory, apesar das suas 7/8h de tempo de jogo...

Quanto ao Imperial, é também um grande jogo, embora num contexto completamente diferente. Na classe dos jogos com guerra, diplomacia e desenvolvimento económico é, provavelmente o meu preferido, a par do Mare Nostrum com a expansão. Absolutamente extraordinário.

Stein disse...

Só um reparo, o manual em inglês do Imperial é mal escrito, detalhes como a ação do investor e como pontuar no jogo ficam devendo muito.

De resto um jogo excelente, alcançou tudo o que Antike ficou devendo.