08 novembro 2007

Crítica: Princes of Florence

Passados os dias em Roma, cidade eterna e de ruínas extravagantes, era a vez de apanhar o comboio e rumar a Florença. Essen, felizmente, já me tinha saído da cabeça e, por isso, acabei por concordar que não foi de todo má ideia passar a lua-de-mel em Itália.
A esposa, radiante com a vida, transbordava o devido contentamento. Postos de lado os problemas do quotidiano, poderíamos finalmente gastar a toda a nossa atenção um no outro e assim compreendermos, em conjunto, até que ponto o amor pode ser mágico.
Ela, imbuída duma bondade extrema prometeu:
- Para o ano vamos a Essen, ou que raio é aquilo!
Contrariamente ao esperado e às vozes opinativas, a primeira impressão de Florença não foi das melhores. Carros por todo o lado, barulho, confusão e japoneses em fila indiana a comprar tudo o que lhes aparecia à frente.
Felizmente, aos poucos, a primeira impressão foi ficando esquecida, principalmente quando os principais palácios surgiram no horizonte deixando-nos espantados com a beleza dos mesmos:
-Isto é tão lindo, se calhar em vez de Essen ou que raio é aquilo, voltamos é a Itália!
Para ser sincero, o que eu gostei mesmo foi das florentinas a andar de bicicleta. Pedalavam que nem doidas por aquelas estradas movimentadas e perigosas. Sempre impecavelmente vestidas com as melhores marcas do mercado, guiavam as suas pasteleiras com uma destreza tal, que era normal assistir a razias monumentais a carros e autocarros, escapando elas, felizmente, airosas do desastre por apenas um centímetro. Bem sei que sou um homem casado, mas se há coisa sexy neste mundo, é uma florentina a andar de bicicleta. Existe qualquer coisa de imortal nelas que me deixa louco.
Louco também fiquei com as esculturas e as obras de arte que enchiam os museus. Enquanto passeava pelas ruas interroguei-me sobre o que sentiria um Medici enquanto percorria as ruelas de Florença. Quais seriam os seus problemas, os seus anseios, os seus objectivos e onde gastava o dinheiro. Como se comportava em público, quais eram as tradições que respeitava, etc.
Foi então que me veio à memória o jogo Princes of Florence e todas as minhas interrogações foram satisfeitas, ou não fosse o jogo em questão um dos melhores de sempre.


Wolfgang Kramer é um designer bastante prolifero e que conquistou merecidamente um nome no panteão dos grandes nomes dos jogos de tabuleiro. Ter dois títulos (Princes of Florence e El Grande) no Top 10 do insuspeito Boardgamegeek é um feito de grande monta, o que, aliás, muito tem orgulhado a sua mulher, a simpática Úrsula, que não se cansa de comentar os feitos do marido, especialmente quando está na cabeleireira a armar o cabelo. É justo também juntar o nome Richard Ulrich ao feito, porque justiça seja apregoada, o trabalho de desenvolvimento nestes dois títulos foi feito em conjunto.
A história de Princes of Florence é simples de ser contada. Cada jogador é um príncipe de Florença cuja obsessão é a arte e a ciência e, portanto, de forma a conseguir satisfazer a obsessão, o príncipe vaie-se esforçar por contratar para o seu palácio os artistas e cientistas mais talentosos de Itália.
Mas como toda a gente sabe, os grandes génios são flores muito sensíveis e normalmente, para produzirem um trabalho em condições, precisam que certas e determinadas circunstâncias estejam reunidas de forma a se poderem inspirar convenientemente.
Por exemplo, um pintor só conseguirá pintar a sua obra-prima se tiver no palácio bobos (deixem-se de piadas porcas), um lago com cisnes e peixes e lhe for concedida alguma liberdade religiosa. Se o palácio do patrono tiver estas condições, a obra saída da mente deste pintor será compensada com uma pontuação alta.
Se for um médico, então a pontuação será maior se houver um Hospital e um jardim.
A ideia é que cada vez que um jogador mostrar a obra dum protegido seu ao mundo, essa obra obtenha a maior pontuação possível. Para que isso aconteça é necessário, ao jogador, comprar alguns itens no mercado. Os itens permitem construir edifícios, contratar os melhores arquitectos e bobos (lá estamos nós outra vez), edificar florestas, lagos e parques, além de permitirem liberdades (como liberdade religiosa por ex.) e contratar outros artistas ou cientistas.


Como se pode perceber, num jogo de Princes Of Florence há muito para ser feito.
Metade dos itens necessários ao trabalho dos artistas são comprados num sistema de leilão, a outra metade é comprada directamente sem necessário andar a subir paradas.
O sistema de leilão aqui apresentado não é um artifício simplista. Isto porque, por turno, só vai poder ser leiloado um item da mesma família. Isso é particularmente tenso porque, se houver 2 jogadores com vontade de contratarem um arquitecto, alguém vai ficar a chuchar no dedo e terá de esperar pelo próximo turno para poder comprar um.
O leilão, em Princes Of Florence, é pois a alma do jogo porque foi genialmente desenhado de forma a poder ser manipulado pelo jogador activo. Eu passo a explicar. O jogador activo coloca à venda um item, mas não é obrigado a oferecer nada por ele. O que acontece é que o jogador activo, ciente desta vantagem, coloca à venda itens que não lhe interessam só para ver o circo pegar fogo e assim eliminar os outros jogadores (os jogadores que compram itens em leilão vão saindo do jogo e não podem leiloar mais durante o turno). Quantos menos jogadores estiverem a licitar, maior a possibilidade de poder comprar o item que lhe interessa ao menor preço possível, uma vez que a concorrência foi eliminada nos turnos anteriores.
O que se assiste é toda uma manipulação do leilão consoante os interesses do jogador activo. Isto é impagável e constitui por si só toda a magia deste jogo. O mais interessante nisto tudo é que num leilão de Princes of Florence tudo pode acontecer, e portanto dá um gozo do catano fazer parte disto.
Além do leilão, o jogador tem mais duas acções por turno que podem ser gastas na compra de itens que não exigem leilão ou para apresentar trabalhos de artistas. Estes trabalhos vão receber pontos consoante os itens que o jogador comprou ao longo do jogo. Se um médico precisar dum hospital e dum jardim para realizar a sua obra e se o jogador conseguir ter comprado o jardim e o Hospital, ganhará mais pontos que, por exemplo, só possuir o Hospital.


Os pontos ganhos nas obras serão convertidos imediatamente em dinheiro ou pontos de vitória. Esta é uma decisão tramada porque, paralelamente, é necessário não só gerir a quantidade de dinheiro que se quer ter em mãos para ganhar os concorridos leilões mas também porque não convém acabar a partida com muitas moedas no pecúlio pessoal. Quanto maiores forem as sobras de florins no fim, menos pontos o jogador vai ter no resultado final. Bom, bom, é acabar o jogo com zero florins no bolso. Seja como for, fica já avisado o leitor que a administração do dinheiro não é fácil e a piada está na premissa de quanto menos se gastar mais pontos se ganha. Daí a importância de haver algum oportunismo na forma como o jogador activo vai manipulando o leilão. A ideia é que, quanto mais dinheiro os adversários gastarem nas suas compras, menos pontos vão ter no final.

Além do leilão, o jogo tem uma componente mais solitária, onde o jogador tenta encaixar os edifícios que vai comprando no seu palácio. Assim, vai ser necessário arrumar os edifícios (que possuem formas esquisitas) bem ao estilo de Tetris. A tarefa não é muito difícil, mas também não é fácil. É que os edifícios não se podem tocar e isso queima muito espaço disponível inviabilizando compras futuras. No entanto, sempre que um jogador consiga ganhar 2 arquitectos, poderá juntar os edifícios e assim ter um palácio mais bem composto. O pior é que os arquitectos ganham-se nos leilões e já se vê a dificuldade que há em os obter. Mas se a vontade do jogador passar por ter dois arquitectos, terá a sua possibilidade de manipular o leilão para que isso seja possível.
O jogo basicamente é isso. Uma componente de leilão onde existe uma luta muito apertada pelos itens postos à venda com muita interacção e muita disputa e depois uma componente de administração de acções, mais solitária e menos interessante também. Evidentemente que as acções nesta segunda fase são poucas e portanto é natural nos primeiros jogos haver muitos a serem cometidos. A piada disto tudo é que o jogador não consegue saber que itens é que ganha em leilão, e isso vai fazer toda a diferença quando for necessário gastar as acções. Acaba tudo por depender de como correr o leilão. Às vezes corre bem, outras não corre nada de especial.


Numa última análise, Princes of Florence é um clássico e vai ser jogado ao longo dos anos sempre que houver oportunidade. É uma presença obrigatória nas estantes dos jogadores e tende a agradar a todos, desde os mais experientes aos menos.
A forma como o leilão se processa é muito inteligente a a experiência de jogo é única. Nenhum jogo no mercado tem um leilão tão motivante (se excluirmos o RA).
Atenção contudo. Existem 2 versões no mercado e ambas têm componentes diferentes. Pelo que se diz por aí a edição da Rio Grande é melhor e mais bonita e pelo que tenho visto é realmente verdade.
Mas uma ideia fica. Apesar das dificuldades, era mais fácil, na altura, um príncipe aturar os caprichos dos humanistas que um produtor aturar, hoje em dia, cineastas portugueses depois de realizarem um filme sobre os meandros do futebol.

Pontos Positivos:
O Leilão e o bluff que ele desperta
A administração do dinheiro que terá de ser sempre ao florim
É um jogo que agrada a todos
É um clássico

Pontos Negativos:
A componente solitária, com a experiência, pode-se tornar previsível

6 comentários:

zorg disse...

Concordo com quase tudo o que dizes. Só acho que não dás ênfase a um ponto muito importante neste jogo: a componente estratégica!

Este é dos jogos, ditos alemães ou "euros", onde a estratégia de longo prazo é mais importante. Para se ter hipóteses de ganhar este jogo (quando se está a jogar com pessoas minimamente experientes, claro), é preciso planear, planear e planear! É perfeitamente normal estar-se na jogada 2 ou 3 e já se saber o que se quer fazer na jogada 6 e 7, quantas obras se vão apresentar, etc.

Esta importância da estratégia sobre a táctica não é muito habitual neste estilo de jogos e é, na minha opinião, uma das coisas que distingue este jogo.

soledade disse...

Boa review. Já vi que as férias valeram a pena. Já agora, se é para ver cenas imortais a andar de bicicleta, para o ano borrifa em Essen e vai a Amsterdão. Lá, as bicicletas são meeeeesmo espectaculares.

Concordo com o Zorg. É a estratégia de longo prazo que faz muita diferença neste jogo. Lembro-me que nos primeiros jogos de Princes que joguei acontecia-me muito deixar trabalhos para fazer no final e depois aperceber-me que só podia fazer duas acções no meu turno. Eu sei que é um bocado estúpido este exemplo, era mesmo um erro de primata mas, adiante, é verdade que o jogo exige planificação e experiência.

O problema de PoF é mesmo a falta de interacção e de rejogabilidade. Vamos jogando outras coisas mais macacas e vamos querendo fugir um bocado do jogo "sempre igual". Mas estou contigo quando dizes que é um clássico que merece estar no top.

vital disse...

Concordo totalmente convosco, e o que mais me atrai no jogo além do tema, é ser disputado ao milimetro, tornando a estratégia de longo prazo um dos seus principais trunfos.

Por haver apenas 7 turnos e muito poucas acções é um jogo que amadurece com a experiência. Pena é que quando jogado com novatos deixa muito pouca margem para que algum ganhe o jogo e depois de jogado algumas vezes pode tornar-se um pouco repetitivo. É preciso que repouse algum tempo antes de voltar a ver a luz do dia.
Sem dúvida um clássico a guardar ao lado do Puerto Rico.

Boa critica, bem escrita e cheia de humor. É sempre um prazer ler os teus textos. :)

Bruno Valério disse...

Esqueçe os jogos Hugo! Itália é para ser apreçiada de alto a baixo. E com muuuuuuuuuuuuito tempo.

eeheheh

Abraço!

Spirale disse...

"O problema de PoF é mesmo a falta de interacção e de rejogabilidade. Vamos jogando outras coisas mais macacas e vamos querendo fugir um bocado do jogo "sempre igual"."

Opiniões à parte, acho que o problema deste comentário pouco feliz é mesmo esse: ser pouco feliz.

Falta de interacção? Não entendo. Se calhar o Pictionary é melhor? A fase de leilão tem interacção q.b., e mesmo a fase de acções permite alguma interacção através das cartas de profissão, ou das obras que se vende - sendo a melhor, premiada com 3 pontos, ou quando alguém compra a última liberdade disponível, que outro jogador também possa querer... Enfim. O jogo tem a interacção que tem de ter e funciona. Nem mais, nem menos.

Quanto à "rejogabilidade" aí acho que volta a espalhar-se ao comprido. Mas é a sua opinião. Na minha experiência, este jogo é dos que é mais solicitado nos grupos em que jogo. Bem amado por todos. E todos, eu incluído, queremos continuar a jogar este jogo. É um jogo que não farta, pelo contrário. Não jogamos sempre, mas voltamos sempre a jogá-lo.

Deduzo que seja daqueles que joga muita coisa diferente mas apenas uma ou duas vezes. Mas há quem faça isso e depois goste de repetir a dose.

O jogo não tem qualquer espécie de problema. O amigo Soledade é que tem problemas com o jogo. Assim sim, estamos de acordo. :-)

Catenaccio disse...

Fantástico. Não o jogo, mas o facto de ver alguém em sintonia quanto à lua de mel. Eu casei em Julho de 2005 e a escolha também nos pareceu óbvio: Itália, mais propriamente Roma e Florença. Sem dúvida, uma óptima escolha para quem não quer passar uma semana sentado à sombra de um coqueiro.