Se passaste o último ano enclausurado num submarino reforçado com titânio, a 4500 metros de profundidade a explorar a vizinhança da fossa das Marianas, então provavelmente nunca ouviste falar do Agricola e esta review é para ti!
Se, num episódio inexplicável de misticismo e espiritualidade, abandonaste tudo e te converteste a um obscuro culto oriental que te obriga a viver num buraco cavado no chão inóspito da estepe mongol, vendado e em meditação permanente, então provavelmente nunca ouviste falar do Agricola e esta review é para ti.
Se, quanto te falam em jogos de tabuleiro, a única coisa de que te lembras são os serões em família nas férias do natal a jogar monopólio e onde a avó passava a vida na cadeia, para gáudio geral, então provavelmente nunca ouviste falar do Agricola e esta review é para ti.
Se achas que Ameritrash é o nome técnico que se dá aos discursos do George W., se não tens posição definida sobre o papel dos dados num jogo de tabuleiro porque pura e simplesmente nunca te ocorreu pensar nisso, ou se não sabes distinguir um abstracto puro de um gateway game de medium weight, então provavelmente nunca ouviste falar do Agricola e esta review é para ti.
Em qualquer outra situação, sabes perfeitamente o que é o Agricola e, por isso, recomendo-te que vás para BGG ler as reviews dos jogos que estás a pensar mandar vir na próxima encomenda, ou então que vás reservar os bilhetes de avião para a viagem de Outubro para Essen, porque de certeza que esta review não te vai dar nenhuma informação nova.

O jogo
Agricola é a última criação de Uwe Rosenberg e o seu primeiro "gamer's game". Está a anos luz de tudo o que ele tinha feito até agora e ombreia, em termos de complexidade, com títulos como Caylus, Puerto Rico, etc. Os jogadores controlam uma família de agricultores do século XXVII, que tem à sua disposição um terreno virgem, com uma cabana de madeira. Ao longo de 14 rondas, os jogadores vão ter de lavrar e semear os campos, construir cercados para guardar animais, expandir e melhorar a cabana e, eventualmente, fazer filhos e pô-los a trabalhar na propriedade da família, que a vida de agricultor não é fácil. No final, ganha a "melhor" quinta, ou seja aquela que apresenta um desenvolvimento mais equilibrado nas várias áreas.
Os mecanismos
Uma ronda é um processo relativamente simples: cada jogador começa com 2 trabalhadores (o pai e a mãe) e, na sua vez, pode colocar um deles numa das acções disponíveis executando imediatamente a sua função. O processo repete-se enquanto houver jogadores com trabalhadores para colocar. Nada de novo aqui, pois já todos vimos isto numa série de outros jogos (Caylus, Pillars of the Earth, Tribune: primus inter pares, Stone Age, entre outros).
No entanto há aqui algumas nuances interessantes. Para começar há acções que vão acumulando recursos caso não sejam escolhidas, um pouco à semelhança do que acontece nos roles não escolhidos no Puerto Rico. Depois, o número de trabalhadores disponíveis para colocar não é fixo, já que quando os pais procriam o que acontece na prática é o jogador ficar com mais um trabalhador à disposição. Por último, é necessário alimentar os trabalhadores em rondas específicas do jogo - as alturas de colheita - e isso tem uma importância determinante no jogo. Posso dizer sem medo de mentir que a necessidade de arranjar comida para alimentar a família vai ser razão de muitos pesadelos.
Outra novidade muito importante são as cartas. No início do jogo cada jogador recebe 14 cartas divididas em 2 grupos, Ocupações e Pequenos Melhoramentos *. Estas cartas permitem obter vantagens importantes em variadíssimas áreas do jogo e podem ser colocadas em jogo, seleccionando a acção adequada. As ocupações representam a aquisição de conhecimento específico numa determinada área, que permite benefícios na execução de uma determinada actividade. Por exemplo, há uma ocupação que permite ganhar uma madeira extra, sempre que se recolhe madeira, ou outra que permite receber um estábulo de borla, sempre que se constrói um cercado para ter animais. As pequenas melhorias representam, tal como o nome indica, uma pequena melhoria que é construída na quinta e que também dá um benefício qualquer. Em termos práticos, as ocupações não custam recursos, mas exigem sempre uma acção dedicada para serem colocadas em jogo, enquanto as pequenas melhorias normalmente custam recursos e, às vezes têm pré-condições, mas podem ser colocadas como parte de outra acção qualquer.
Uma vez jogada, uma ocuipação ou uma pequena melhoria, esta fica em jogo até ao final e o jogador não recebe mais. Existem literalmente centenas destas cartas disponíveis, divididas em vários decks com flavours diferentes, e, em cada jogo, só são usadas 14 o que, em termos práticos, significa uma variabilidade de jogo para jogo praticamente infinita.
Por último, outro aspecto que eu acho muito interessante é o sistema de pontuação. Há imensas categorias que podem pontuar, mas cada uma delas, salvo algumas excepções, pode contribuir no máximo com 4 pontos. Por outro lado, o falhanço total em qualquer uma das categorias, significa, na maior parte dos casos, pontos negativos! Assim, não ter cenouras significa 1 ponto a menos, enquanto ter 4 ou mais cenouras, significa 4 pontos. No final somam-se os resultados de todas as categorias. Isto obriga a um desenvolvimento equilibrado e proporciona algumas das tensões mais importantes do jogo, já que é muito difícil conciliar o crescimento nos vários sectores de uma forma eficiente.
O feeling
Agricola é um jogo extremamente temático. As acções não estão abstraídas, como é normal neste tipo de jogos, e para se conseguir fazer qualquer coisa com relevância é preciso normalmente dar vários pequenos passos. Por exemplo, uma forma interessante de arranjar comida é cozinhar animais. Para cozinhar animais é preciso, antes de mais nada, construir um cercado com capacidade suficiente para os ter lá, que é uma das acções disponíveis. Mas, para se poder construir um cercado é preciso ter madeira! E para ter madeira, é preciso ir cortá-la, que é outra acção! Depois de se ter constuído o cercado, é necessário ter os animais para pôr lá dentro e obtê-los é outra acção. Mas para os poder cozinhar, é preciso ter uma lareira ou um forno e para os contruir sáo precisas mais 2 acções: uma para obter o barro e outra para construir efectivamente a lareira (ou o forno). Fazendo a contabilidade, são necessárias 5 acções, só para ter a possibilidade de cozinhar um animal! E fazer pão ainda é pior!
Esta granularidade das acções tem várias consequências positivas. Para já, obriga a que os jogadores passem o jogo a efectuar planos de curto/médio prazo, que lhes permitam ir obtendo os recursos necessários. Depois, as acções têm um valor altíssimo e qualquer uma que seja desperdiçada pode ter consequências muito graves. Se combinarmos isto com a existência simultânea de vários objectivos, às vezes nada conciliáveis entre si, é fácil perceber porque é que é normal ver homens adultos a chorar como meninas, quando jogam Agricola. Para além do mais, tudo isto é extremamente temático e bem integrado no jogo, o que torna toda a experiência muito intuitiva e ajuda muito a "digerir" a complexidade.
Depois temos as cartas, que providenciam a macro-estratégia. Quando pega nas 14 cartas, no início, um jogador experiente de Agricola toma imediatamente uma série de decisões que vão ter consequências ao longo de todo o jogo e vão definir as linhas gerais da estratégia. Depois é preciso encaixar as acções de que se vai dispondo nesse Grande Plano das Coisas... e isto, meus amigos, eu posso garantir que não é nada fácil! É que colocar cartas em jogo custa acções e as acções são muito escassas! Aquela acção que foi usada para pôr o Zé das Vacas só é útil se depois eu conseguir ter vacas, para rentabilizar o Zé. Senão, mais vale usá-la para outra coisa qualquer, como por exemplo ir buscar comida, para não ter de ir mendigar.
O Agricola também é um jogo bastante complexo. Há muitos recursos para gerir (comida, barro, madeira, pedra, colmo, milho e cenouras) e há muitas áreas que é preciso desenvolver. O sistema de pontuação obriga a que sejam "cumpridos os mínimos" em áreas muito distintas e a presença das cartas adiciona uma camada adicional que pode dar cabo da sanidade de um gajo! Mas o recurso mais difícil de gerir de todos são as acções! Não há ronda de Agricola em que eu não pense, com um ar sonhador e uma lágrima no canto do olho "ah, se eu tivesse só mais uma acçãozita, conseguia finalmente expandir a minha casa e dar à minha mulher o filho que ela sempre quis... e com outra, podia cozer o pão e escusávamos de estar aqui a mastigar milho cru".
A conclusão
Tudo isto se conjuga para fazer do Agricola um jogo excepcional! Há tensão a potes, há estratégia, há táctica, há variabilidade, há risos, há lágrimas, há depressões profundas, há mãos no ombro, solidárias e olhares desolados para o resultado final de 14 rondas de tormentos. Ouve-se muitas vezes, no final do jogo, "deixa lá que da próxima vez corre melhor".
Mas o que nunca falta é a vontade de tentar outra vez!
Para mim é um grande jogo, que merece inteiramente toda a histeria que se tem gerado à sua volta! E é um sério candidato ao mais aguardado prémio do ano, o conceituadíssimo Estupendo de Ouro Estupendo 2007!