22 agosto 2006

Session Report: A formação de novos jogadores

Continua progressivamente a minha nobre missão de converter aos Jogos de Tabuleiro toda e qualquer pessoa que conheço, desde que a mesma tenha potencial de gamer e consiga articular simultaneamente movimentos de dedos com um raciocínio objectivo e lógico.
Por vezes, dada a minha heróica e incompreendida missão, comparo-me várias vezes com as testemunhas de Jeová que andam pelas ruas a distribuir o pastim “Sentinela” e a doar, de boa vontade, a palavra de Deus a quem a queira ouvir.
Heresias à parte, tenho um especial alegria por apresentar jogos novos á malta que passou comigo a adolescência e que, por uma razão ou por outra, se afastou. A vida dá as suas voltas e é natural que as pessoas sigam os seus próprios caminhos. Por isso vemo-nos poucas vezes, mas tenho-me esforçado para que os jogos de tabuleiro façam sempre parte dos nossos encontros e que sirvam, num futuro, como uma desculpa para estarmos juntos. A verdade é que as minhas últimas encomendas têm sempre em conta o efeito que o jogo vai produzir naquela malta. Bem sei que ainda agora começaram, que ainda estão muito verdes, mas não é de estranhar que, com a minha preciosa ajuda, no final do ano já estejam aptos a jogar qualquer das criações do mestre Reiner Knizia com uma perna ás costas. Enquanto isso a aprendizagem tem de ser gradual e cuidadosamente acompanhada tal e qual um pai que segue os primeiros passos da sua cria.
Depois duma sessão de Goa, há dois meses na Casa do Paulo, foi agora a minha vez de convidar a malta. A razão primordial era a apresentação da minha nova casa, mas no convite que enderecei fiz logo referência à vontade que tinha em fazer uma jogatana.
O pessoal apareceu em quantidade industrial. 6 pessoas baldando-se apenas duas o que até foi providencial porque senão não tinha jogo para todos.
Começamos a tarde com um pequena conversa sobre a vida de cada um. Todos se queixavam do mesmo. Os juros do crédito á habitação e o preço da gasolina. De resto tudo bem, ninguém foi despedido desde a última vez que falámos e até o Paulo começa a evidenciar, estranhamente, alguma esperança no futuro, isto apesar de ter sido o responsável pelo atraso de uma hora com que o pessoal chegou aos meus aposentos.
Anunciei então que seria o Ticket to Ride Marklin o jogo eleito e enquanto preparávamos o tabuleiro a pergunta mais ouvida foi a tradicional:
- Então e os dados? Não há dados?
Lá expliquei que era mesmo assim, que não se preocupassem que os dados não eram precisos para nada, aliás só serviam para atrapalhar.



Tinha uma esperança desmedida no sucesso que Ticket to Ride iria fazer a esta gente. A fé era tanta que até comprei Cerveja Guiness para servir de refresco às gargantas mais secas.
O Cabão, paradigmático e conservador avisou logo toda a gente que não jogava:
- Fico aqui a ver.
E ficou. Agarrado à sua caneca de Guiness repousou os olhos no tabuleiro e os ouvidos nas minhas explicações iniciais.
Normalmente a pior fase é a da explicação de como tudo funciona. A dificuldade reside não na explicação em si, mas antes em afastar a ideia pré concebida que estamos perante regras complicadas e complexas.
- Hum! Sem dados? Não sei não…
Mas pronto, lá expliquei o jogo calmamente e o pessoal foi entrando na onda, esclarecendo todas as dúvidas que iam surgindo. Foi engraçado, mas senti logo uma empatia deles com o jogo. Convenhamos que o mapa é bonito e as carruagens são bonitas para os olhos.
A maior dificuldade, contudo, residiu nos passageiros. Foi um bocado problemático aclarar a função destes pequenos bonecos no mapa:
- Para que é que serve os cameraman?
Mal ou bem lá ficou tudo mais ou menos entendido, pelo menos o suficiente para o jogo iniciar sem grandes percalços.



Devo confessar que esta obra de Alan Moore foi um sucesso impressionante neste grupo. Conseguia-se ver a satisfação na cara dos jogadores. Muitas piadas, muito riso, muito falatório e acima de tudo muito divertimento. Tiraram-se fotografias a dar com um pau e toda a gente fez as melhores poses para a objectiva. Éramos 6 (dois elementos formavam uma equipa) e por vezes no meio do regabofe alguém ficava mais silencioso a estudar o mapa e as cartas que tinha na mão a tentar perceber o melhor a fazer nas jogadas vindouras.
O Cabão, que tivera anunciado logo sem demoras a sua intenção de não participar no jogo, já estava, passados dez minutos, embrulhado nos cálculos necessários para resolver da melhor maneira a forma de cumprir os objectivos que lhe caíram em sorte.
A partida teve também a vantagem de ter sido bastante competitiva, pelo que haviam sempre 3 concorrentes muito próximos uns dos outros (eu, a Sara e o Paulo).
O mecanismo dos passageiros introduzido nesta nova versão do Ticket to Ride mudou completamente o jogo. Introduziu alguma complexidade, maior interacção entre os jogadores e também uma componente de estratégia bastante interessante. Estava visto, entre todos, que os pontos amealhados pelos passageiros nas suas viagens pelas cidades iriam decidir muita coisa. Durante quase uma dezena de jogadas, assistiu-se a um vai e vem de bonecos por todos os lados. O resultado foi a evaporação dos pontos em jogo num abrir e fechar de olhos. Dessa luta particular, a Sara e o Paulo afastaram-se de mim e voaram os dois para uma luta a dois. Mas a Sara continuava a ser a favorita. Saiu-se bem nos pontos que estavam em cima da mesa e já tinha pedido algumas cartas de objectivo.
Acabados que estavam os pontos das cidades, os contendores viraram-se para as caras de objectivos. Ronda após ronda eram pedidas cartas e mais cartas. Sentia-se no ar alguma tensão. Eu e o Cabão já caminhávamos para o terceiro litro de Guiness e o Paulo e a Fátima para o 3º bule de café.
Já sem hipótese, a dupla Melissa/Cabão tentava a todo o custo destruir o jogo dos outros, colocando rotas em pontos que podiam lixar os objectivos aos adversários. Esse sentimento de revolta teve alguma piada pois veio a introduzir uma aleatoriedade interessante que podia alterar duma vez por todas o rumo dos acontecimentos.
Terminado o jogo fizeram-se as contas e contaram-se os objectivos. Novamente a Sara e o Paulo ganharam vantagem nesse particular. A Sara conseguiu 5 falhando o sexto por uma unha negra. O Paulo apostou nos objectivos de curta distância e fê-los todos. A diferença de pontos dava uma vantagem à Sara de 6 pontos. No entanto, no último suspiro, o Paulo venceu os dez pontos de bónus que o jogador com mais objectivos cumpridos tem direito (Alan Moon decidiu alterar esta regra nesta versão). Venceu por 4 pontos num final dramático que pôs todos ao rubro.



Em conclusão Ticket to Ride Marklin foi o rei da festa, brilhou como uma estrela. Dominou e esteve em pleno, sem falhas e entretendo toda a gente como se esperava. Ainda para mais tem um mecanismo de pontuação que coloca os jogadores próximos uns dos outros trazendo uma indefinição quanto ao desfecho que faz crescer, jogada após jogada o interesse pelo jogo. As diferenças na pontuação vão sendo estabelecidas aos poucos e a coisa só começa a ficar definida na altura em que os passageiros começam a rodar pelo mapa. São muitos os pontos em disputa e uma hesitação pode fazer o jogador perder uns 6, 7 ou mesmo 10 pontos por passageiro. A ideia é não colocar os passageiros em viagem muito cedo nem muito tarde. Por exemplo, eu fui o último a mexer o meu 3º passageiro. Ganhei apenas 4 pontos. O Paulo, numa jogada amealhou uns 20 e tal. Por isso é bom de ver a importância destes pequenos bonecos para a pontuação final.
As locomotivas +4 introduzidas também nesta versão de Ticket to Ride não trazem nada de novo, mas também não chateiam.
Tenho também de dar uma palavra às cartas de jogo que estão bem melhores que as versões anteriores. Primeiro porque as cartas de objectivo têm todas as rotas do mapa desenhadas que acaba por ajudar bastante o jogador a delinear a sua estratégia inicial e depois para as cartas das carruagens que estão esplêndidas uma vez que apresentam miniaturas da Marklin e o nome dos modelos. Cada carta a sua miniatura. Reparei que alguns jogadores lhe prestaram a devida atenção.
Ticket To Ride Marklin é o jogo mais que perfeito para introduzir novos jogadores. Tem tudo. Beleza, elegância, competitividade e também alguma dose de estratégia.
A Sara no rescaldo duma derrota dramática lançou para o ar que o próximo poderia ser na casa dela. Seja como for o meu desejo é Railroad Tycoon. Duvido que alguém tenha mesa para aquilo, mas cá nos arranjamos.Até lá só me resta ler as regras e esperar que tudo corra, novamente, pelo melhor.


11 comentários:

Tânia disse...

Muito boa a session report, Hugo. Também gosto muito de introduzir amigos ao mundo dos jogos. É interessante quando nos referimos pela primeira vez a alguém dizendo que gostamos de jogar. Invariavelmente perguntam: "jogos de computador?" E aí você rapidamente explica que não, são jogos de tabuleiro.E então vem a segunda pergunta padrão: "Jogos como War (Risk)? Não, não tem nada a ver com isso. Incrível como o War virou a jogo de tabuleiro referência por aqui. É o primeiro que vem na cabeça de todos.

E aí quando tentamos convencer a pessoa a jogar uma partidinha vem uma série de resistências: primeiro a jogar qualquer coisa, depois a jogar algo desconhecido e, finalmente, a resistência a compreender regras "tão insólitas e complicadas".

Mas o bom da história é que tudo acaba bem. No fim não há quem não goste do joguinho proposto. E por isso continuarei a tentar subverter pessoas a participar de nossas jogatinas (engraçado, né? Repararam que aqui dizemos "jogatinas" e vocês aí "jogatanas"? Acho que no meu caso vou adotar as "jogatanas", ou melhor "jogatânias"

zorg disse...

Este era um sucesso esperado. O TtR é O Jogo para jogar com pessoas pouco iniciadas nestas lides e esta versão marcklin, que ainda não joguei, parece a melhor das 3.

Chirol disse...

A Tania e seus trocadilhos... :)
Mas com certeza o Marklin é o melhor T2R. Ele aprimora mecanismos dos dois primeiros e adota o bonus de 10 pontos para o maior número de objetivos, e não maior rota (o que é bem legal).

E não existe jogo melhor que o Ticket (qualquer um) para aliciar novos viciados, ops, quis dizer jogadores. Regras simples, tabuleiro e componentes vistosos, decisões emocionantes a todo o momento. O Alan Moon não precisa fazer mais nada na vida!

Chirol disse...

Ah Tania, de vez em quando pergunta se é "tipo banco imobiliário"...

Hugo disse...

Mas isto do pessoal pensar que as regras são difíceis tem muito que se lhe diga. Uma das coisas que tem mais piada é que, a minha malta, quando andava na faculdade, aprendia as teorias mais avançadas de economia, as leis mais improváveis da física ou da matemática e não se queixava, antes pelo contrário, até achava piada e tirava boas notas.
Agora, quando eu digo: Cada jogador tem uma acção por turno, colocam logo as mãos na cabeça que é tudo muito difícil e que estes jogos são muito complicados e que precisam de ajuda para se decidir.
Maricas!

2 dedos disse...

A questão dos jogos para iniciantes, fundamental para aumentar bastante as noites de jogatina, é muito importante.

Eu tenho apostado sempre no clássico Catan, pois atacar logo com um Puerto Rico é demais.

Tem resultado um pouco, mas é apenas apra 4 (n tenho a expansão) e isso tira algumas opções.

Já mandei vir o Formula Dé (q n encaixa NADA nesta categoria) e ando de olho no Caylus.

Mas depois deste texto, o Ticket to Ride será a minha escolha, pois cada vez mais os amigos têm namoradas ou esposas e é fundamental cativar o casal ;)

Hugo disse...

2 dedos:
Sim, Ticket to Ride Marklin é sucesso garantido para uma jogatana com namoradas e namorados e eventualmente crianças.
Por outro lado o Formula dé tem a desvantagem de poder nao agradar a todos por causa do tema.
Mas agora cada vez que escolho um jogo tenho de pensar bem, não só no numero de jogadores como também na complexidade do mesmo.
Ontem tive a pensar em comprar as expansões do Catan para 5 e 6 com o Cities and Knights. mas li uma session onde fazem referencia às 6 horas de jogo. Isso pode arruinar a experiência.
Mas aproveiro para perguntar aqui ao pessoal jogos que sirvam para 5 ou mais jogadores com um grande fun factor e tb alguma dose de estratégia. E claro muita interacção.
Agora as minhas proximas apostas vão ser o Railroad Tycoon (seis jogadores, mas o mapa vai tapar toda a mesa o que pode ser uma desvantagem) e depois o RA (5 jogadores e alguma complexidade no meio de leilões).
Depois talvez aposte num formula dé e num Amon Re dependendo este ultimo de como correr a sessão de RA.
Qualquer dia publico um livro sobre o assunto: Como educar novos jogadores.

Chirol disse...

A aposta no Ra é boa. Sempre tenho como termômetro "não gamer" a minha mulher, e ela gosta do Razzia (versão mafiosa do Ra), do Ticket, do Amun-Re (se bem que o número de fases e a pontuação do Amun-Re podem assustar de primeira), além do Alhambra e Catan.

O principal para atrair novos jogadores são jogos que sejam simples, rápidos, tenham interação, mas sem "passadas de perna" (traições). Os fillers podem ser um bom começo, pois preenchem estes pré-requisitos, como o Korsar, Guillotine e o Bohnanza (por que não jogamos mais este?).

E depois de tudo a gente pode chegar no caylus e puerto rico! :)

Ana K. disse...

Olá a todos!
Já faz um tempo que de vez em quando venho aqui no "jogos de tabuleiro" e fico espiando tudo bem quietinha.
Sou a esposa-termômetro-não-gamer do Chirol e buscava encontrar aqui um pouco de "material científico" para minha mais recente pesquisa: "Como lidar com maridos hard-gamers".(Claro que depois do sucesso desta, pretendo expandir a pesquisa para "Viva cercada de hard-gamers sem desespero").
Quebro o meu silêncio e colaboro com a pesquisa de vocês, já que posso ser considerada alvo do objetivo que vocês expuseram aqui.
Na verdade, apesar de não gostar de jogar nada naturalmete, não posso mais ser considerada uma não-gamer sem introduzir um viés aqui, pois grande parte dos meus últimos finais de semana desde janeiro, tenho passado com jogos e jogadores. Mas vamos lá:
Como todos vocês disseram, a escolha do jogo é importante, e o Ticket realmente é o que eu mais gosto. Apostem nele rapazes!
Mas, o que mais assusta um não-gamer (depois das regras do Caylus, é claro!) é a "fome" de jogar. Por isso, rapazes, disfarcem! Convidem um não gamer para ir ao cinema de vez em quando, passem um dia sem fazer nenhum cometário sobre os jogos perto deles e chamem-no para jogar: Creio que não demora para que se divirta bastante com a "jogatana" sem a preocupação de estar num meio de loucos que giram em torno de um tabuleiro que não tem dados!
Ah, e não se esqueçam de avisar que o tempo escrito na caixa é de mentira (quase sempre): No mínimo a namorada-esposa-não-gamer que está preparando o jantar agradece!
Abraços para todos!

Tânia disse...

Eu acho que o Carcassonne também é um clássico bom para iniciar futuros jogadores. Já tive algumas experiências com ele. Acho que o principal é que as regras sejam rapidamente explicáveis e o jogo não seja muito demorado. O Korsar também é muito legal, pois podem jogar até 8 jogadores em dupla (o que facilita o entendimento dos novatos pois a dupla pode discutir a vontade sua jogada). Além disso ele é muito rápido de explicar, rápido de jogar e bonito.

blogbel disse...

Gente, depois do post do Chirol, dizendo que a Ana gosta do Razzia, Ticket, Catan, Amun-Re e Alhambra e depois de um (extenso) comentário da "não-gamer" dá realmente para acreditar que a digníssima é... não-gamer????!!!! Ana, você já passou desse estágio! hauahauahaua