08 maio 2007

Antiquity: uma review ainda maior que o jogo*

Prólogo

Há uns anos atrás, no planeta Splotter:

- Muahahahahhahahaaaaaaaaa! O meu plano demoníaco para conquistar a terra está quase completo, meu caro Jerouen! E é brilhante, se me é permitido dizê-lo! Sou o maior!
- Com toda a certeza majestade, pois é certo e sabido que sois o Rei dos Reis, a mais sublime e divina das criaturas... o mais belo, entre os belos! A vossa inteligência não tem igual nesta e noutras galáxias, a vossa sapiência é maior do que a de 30000 sábios e a vossa flatulência tem um aroma mais doce e delicado do que 60000...
- Chega Jerouen! Eu gosto de uma boa uma boa engraxadela - ou não fosse eu um déspota absoluto e, por vezes, sanguinário - mas estás a exagerar... a minha flatulência não cheira assim tãaaaaaaaaaaaaao bem!
- Peço desculpa por o contrariar, majestade, mas cheira! Aliás, aqui no nosso bem amado Splotter, o som de vosso flatular é como uma sirene de fábrica a anunciar o dia de pagamento... e provoca igual alegria entre os afortunados que têm a felicidade de o ouvir - prosseguiu o mestre engraxador, imparável.
- Hmmm... o meu flatular é como uma sirene... não sei se gosto muito dessa analogia...bom, não interessa... vou-te mas é explicar a genial trama que urdi para dominar a patética raça humana: jogos de tabuleiro - concluiu triunfalmente o Rei dos Reis.
- Perdão, senhor? - interrogou o surpreendido Jerouen - Jogos de tabuleiro?
- Sim Jerouen, jogos de tabuleiro! Eu explico, porque é tão simples que até tu consegues perceber: TU vais para a Terra, TU vais fundar uma empresa de jogos de tabuleiro com os parcos meios que eu te vou fornecer, TU vais passar vários anos desterrado naquele planetazinho da treta, que nem um hepsiodrínamo de 3 níveis em condições tem, a penar e a vender jogos! Quando tiveres vendido os suficientes, dás-me uma apitadela e EU, que entretanto estou por aqui a gozar as vantagens de ser um ditador absoluto, apareço lá a comandar uma força invasora e EU cubro-me de glória e adiciono mais um planeta à minha lista de conquistas...
- ... que até agora tem zero itens - interrompeu Jerouen, incapaz de esconder a irritação.
- Um item, se faz favor! - contrapôs o rei.
- A lua estava desabitada e era usada basicamente como depósito de lixo - insistiu o lacaio com uma audácia invulgar.
- Mas eu é que fui lá invádi-la - berrou o rei - por isso conta como conquista para mim! E acabou a conversa! Eu sou o rei, eu é que mando! Vais para a terra fazer jogos de tabuleiro, já! E se não queres, ou se insistes na insubordinação, vais para o fosso fazer companhia aos rufiliões venusianos, que já não comem há mais de um mês e bem agradecem um snackzinho,mesmo amargo!
- Ok, ok, majestade. Eu vou para lá trabalhar e penar e vossa majestade cobre-se de glória... parece-me um excelente plano! - concluiu apressadamente, perante o olhar decidido do déspota absoluto e pontualmente sanguinário - Só tenho uma questão: porque é que os jogos vão facilitar a invasão?
- Por causa da quantidade de componentes, Jerouen, por causa da quantidade de componentes... vou soterrá-los a todos em componentes minúsculos, de tal forma que quando lá chegar com a força invasora, não vai haver ninguém para resistir! MUAHAHAHAHAHAHAHAHAAAAAAAAA!
- Brilhante, majestade brilhante - aplaudiu Jerouen. "É o plano mais imbecil que eu já ouvi até hoje", pensou para si próprio, "e por causa deste cretino, lá vou eu ter de ir para a terra fazer jogos de tabuleiro."

Na terra, nos dias de hoje:
- Ah, finalmente chegou o Antiquity! Deixa-me abrir esta enorme e pesada caixa, para ver o que traz lá dentro...

ROOOOOOOOOAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAR

- Socorro, estou a ser soterrado pelos componentes! Ajudem-me! Tenho... de... conseguir... marcar... o... 112... tarde... de... mais...elvis?... és tu?... aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaargh.

Capa do Público, no dia seguinte:
"Mais uma morte trágica provocada por um jogo da Splotter. Jerouen, o presidente da empresa holandesa com nome de planeta desconhecido, recusa-se a comentar."

Introdução

Antiquity é o segundo jogo na série de jogos pesados, para homem, editada pela Splotter, que tem o enigmático título "Colecção joguem isto joguem e depois não se queixem quando a gente vos invadir".

O primeiro jogo desta série, foi o mítico Roads & Boats, que custava mais do que uma unha do pé do Cristiano Ronaldo no ebay. Pesava mais 200 Kgs por causa das 10000 peças minúsculas que trazia lá dentro, usavam-se uns marcadores para escrever no tabuleiro (sacrilégio que provocou algumas crises cardíacas por esse mundo fora) e se jogava numas meras 14 horas. Apesar do seu sucesso (a simples menção das palavras Roads & Boats foi, durante muitos anos, causa de orgasmos colectivos em muitas convenções de jogos, quando a sua raridade levou a que alguns jogadores mais entusiastas até casassem com a sua cópia), o jogo não escapou a algumas críticas a que a Splotter, como boa editora-fachada-para-uma-invasão-extraterrestre que é, procurou dar resposta neste segundo elemento da mesma série. Assim, no Antiquity, já não tem de se desenhar no tabuleiro!

A caixa e o que vem lá dentro

A caixa deve ser aberta com cuidado, pois há um risco sério de avalanche, tal a quantidade de tralha que traz lá dentro! Aliás, a primeira crítica que faço aos componentes é precisamente a falta de um sinal "Perigo de avalanche" na caixa, em sítio visível (há um, mas é demasiado pequeno e pode passar despercebido).

Não estaria a exagerar se dissesse que há mais pecinhas minúsculas dentro da caixa do Antiquity, do que esteróides anabolizantes na caravana da volta à França em bicicleta, mas não o direi por respeito ao desporto. Seja como for, vem com muitas peças lá dentro, mais do que dirigentes corruptos na associação de futebol do Porto.

Para além dos peças hexagonais grandes, que encaixam umas nas outras e servem para construir o mapa (usam-se duas peças destas por jogador, para que o mapa tenha sempre um tamanho adequado), a caixa ainda traz peças de cartão pequenas, representando os vários recursos disponíveis. E são bastantes recursos: 4 de comida, 4 de luxo e 2 de construção. Também vêm peças do mesmo tamanho para a poluição (representada por umas adequadas e mórbidas caveiras) e, o pormenor que distingue os grandes jogos dos que são apenas assim assim, para as pedras tumulares que têm cada uma um nome diferente e servem para marcar as vítimas da fome. Cada uma destas peças vem numa quantidade não inferior a 30/40, mas as caveiras, por exemplo, são muito mais (eu diria umas 300). Para além de tudo isto, a caixa ainda trás a escala para marcar o nível de fome, os player-mats dos jogadores e os edifícios que se podem construir.

É mesmo muita peça!


O jogo em si

O jogo é passado numa zona não definida de Itália, na altura do renascimento e cada jogador comanda uma cidade-estado, que procura desenvolver economicamente. Mas a vida na Itália do renascimento não era só fazer para-quedas e esculpir homens nus em mármore, como se pode depreender pela descrição dos componentes (caveiras, pedras tumulares...) e os jogadores, para além de terem de competir uns contra os outros, terão sempre 2 enormes e afiados machados pendentes sobre o seu frágil e vulnerável pescoço: a fome e a poluição. E é por causa destas duas presenças constantes, a fome e a poluição, que o jogo não é nada fácil para um iniciante... mas uma coisa posso garantir: já joguei várias vezes o jogo e nunca tive de esculpir um homem nu, nem em mármore, nem em nenhum outro material!

As regras são relativamente simples e eu não vou descrevê-las em pormenor. Prefiro fazer apenas um resumo rápido e apalermado.

Basicamente os jogadores precisam de explorar os recursos que existem nos campos (representados pelo mapa grande) e usar esses recursos para construir edifícios na sua cidade (e, eventualmente, mais cidades), de forma a conseguirem cumprir a condição de vitória. Começa-se com alguns recursos, de forma a se poderem construir os edificios iniciais, indispensáveis para fazer o que quer que seja.

Uma ronda segue um ciclo (muito simplificado): atribuir trabalhadores a edificios e construir novos edificios, activar os edificios (eventualmente isso pode implicar construir novas quintas, portos de pesca, ou minas, no mapa da paisagem), armazenar os bens que sobraram se houver capacidade para isso e depois colher os bens produzidos nas quintas, pescados nos lagos ou extraídos nas minas, já construídas nos campos. No final da ronda trata-se da poluição e da fame.
Uma das coisas mais interessantes do jogo é a forma quase orgânica como as regras captam a essência daquilo que representam. Um exemplo: para se poder construir uma quinta, é necessário uma semente (que tem de ser um tipo de comida). Depois literalmente planta-se a semente, ou seja, coloca-se um marcador de poluição no hexágono no mapa onde se vai fazer a quinta, e a semente por cima e faz-se o mesmo (colocar um marcador do mesmo tipo do da semente por cima de um de poluição) em todos os hexágonos directamente adjacentes ao da semente. Em cima do marcador central, o da semente, coloca-se o trabalhador representado por um cubo da cor do jogador a que pertence. Quando se chega à fase das colheitas é só pegar no bem produzido e deixar lá a poluição. Quando a semente, que é o último marcador a ser retirado, sai, o trabalhador volta a estar livre para ser atribuído a outras tarefas e no lugar onde estava a quinta só sobra um espaço poluído. Brilhante!

Outro ponto interessante do jogo é a transformação da paisagem que vai tendo lugar, à medida que o jogo decorre. Isto acontece de duas formas distintas. Por um lado, a poluição vai começando a ocupar uma percentagem cada vez maior do espaço livre, dificultando cada vez mais a vida aos jogadores, que precisam de cada vez mais ginástica para conseguirem manter a sua capacidade produtiva. Para além disso, a exploração de madeira (talvez o recurso mais importante do jogo), literalmente transforma as florestas em planícies. E enquanto a poluição se consegue, com algum esforço, limpar, as florestas desaparecem de forma permanente. Extraordinário!

A condição de vitória é escolhida pelos próprios jogadores, durante o jogo, o que também não deixa de ser curioso e engraçado. Para o fazer, é preciso construi um edifício especial, a catedral, que nem sequer é particularmente caro. Nesse momento, o jogador escolhe um dos 5 santos disponíveis para adorar e, com ele, adere a uma condição de vitória e recebe, ao mesmo tempo, um benefício especial. Por exemplo, o benefício do santo que eu escolhi no último jogo é permitir-me guardar qualquer quantidade de bens, sem ter necessidade de construir um edifício para o efeito.


O feeling

O Antiquity é um grande jogo, seja qual for o ângulo por onde se olhe para ele! A caixa é enorme, a quantidade de componentes é desmesurada e a qualidade do jogo é extraordinária! Para além disso o pénis das pessoas que têm a ousadia de escrever textos enormes sobre o jogo, é absolutamente colossal.

De facto, a única queixa que tenho em relação ao jogo é, ironicamente, o tamanho minúsculo de algumas das peças, que as torna difíceis de manipular.

De resto, é o sonho de qualquer homem! Regras intuitivas, não muito complicadas e sem excepções, uma jogabilidade desafiante e complexa construída sobre as interacções entre os vários recursos, os edifícios e a ameaça permanente da fome e da poluição, tornam este jogo um sério candidato a substituir a companheira de qualquer gamer que se preze!

[início de comentário sexista]

Soubesse o Antiquity lavar a roupa e cozinhar e a minha Maria já tinha recebido um par de patins!

[fim de comentário sexista e completamente mentiroso, ouviste meu amor?]

A fome e, principalmente, a poluição sáo uma preocupação constante. Passa-se o jogo todo a esbracejar, deesperadamente a tentar manter a cabeça fora de água e nas primeiras vezes que se joga, só conseguir isso já é bastante complicado. É como o início do Age of Steam, mas durante o jogo todo. A forma como se definem as condições de fim do jogo também coloca questões interessantes (construo já, para começar já a beneficiar do bónus da catedral, ou espero e posso escolher uma condição de fim de jogo mais de acordo com aquilo em que o meu jogo se tornar lá mais para a frente?). O motor económico é complexo e o número enorme de escolhas que proporciona garante uma enorme diversidade estratégica. O factor sorte é reduzidíssimo.

Assim até dá gosto ser invadido por extraterrestres!

* o título original da review era "Antiquity: uma review resumida". Mas, infelizmente, a inépcia do autor impediu-o de conseguir concretizar o ambicioso objectivo a que se propôs, ou seja, descrever de forma resumida o Antiquity. Pelo facto o autor pede as mais sinceras desculpas e humildemente chicoteia as suas próprias costas, usando apenas o seu colossal pénis.


9 comentários:

soledade disse...

Boa review. Grande, como o jogo. Eu também gostei muito do Antiquity. Não percebi nada dele, achei a lógica fantástica mas difícil de gerir. Talvez para mim, não sei. Mas está dentro dos jogos mais brilhantes que eu conheço, certamente.
A repetir. E acho até que, como tem o tabuleiro directamente proporcional ao nº de jogadores, muito interessante a 3. Imagino que tanto a 4 como a 2 tb seja.

Bruno Valério disse...

Sinceramente... tanta peça tanta peça e nem uma foto pró camóne vêr :D !

Confesse que nunca joguei... algo que deixo nas mãos do crítico :D

hmocc disse...

Mais um "Chapeau" para o Imperador Zorg. Grande review.

Hugo disse...

Eu nunca joguei por isso não posso fazer minhas as palavras do Zorg. O problema são as pecinhas que podem chatear um bocado, mas se o jogo for tão bom como o pintam um gajo até se esquece.

Seja como for não acreditem muito na review. Foi só um pretexto ordinário para o zorg falar no seu pénis.

Chirol disse...

Acho que o zorg achou o veículo errado para divulgar o seu pênis... só tem barbado nesse blog! (A não ser que o zorg seja muito moderno...)

abraços!

PS: alguém aqui já jogou/se interessou pelo Marvel Heroes?

zorg disse...

#chirol

Não, de facto o Zorg não é particularmente moderno, mas também a sua intenção era divulgar o JOGO e não o pénis (que não passou deu um engenhoso artifício literário). Parece é que algumas das pessoas que comentaram são, elas sim, muito modernas e, de uma review gigante, não conseguem pensar noutra coisa... :P

Sim, já andei a investigar o Marvel Heroes, mas para te ser sincero não me inspirou muito. Gosto do tema (eu era grande fã de revistas da marvel, quando era mais miúdo), mas os comentários que vi no BGG falam em regras demasiado confusas e numerosas, pouca profundidade estratégica... isso acabou por fazer desvanecer o meu interesse. Tu recomendas?

Chirol disse...

Foi apenas uma brincadeira com auto-promoção do zorg... :)

Mas recomendo muito o Marvel Heroes! Principalmente se eras fã dos quadrinhos (o jogo depende de um certo "espírito" favorável). As regras são um pouco confusas, mas depois que se pega o jeito o jogo fica bem fácil. E o sistema de combate é muito legal!

Conheço gente que adora (eu, o stein e o Dimitri) e gente que detesta (a bel). Se você curte quadrinhos, vale a pena tentar. É MUITO legal simular uma briga entre o duende verde e o homem-aranha, ou o Magneto contra os X-men. Tem bastante sorte envolvida (muitos dados), o que sempre garante o suspense dos combates. para mim é diversão garantida.

abraços

abraços

Stein disse...

Vou reforçar aqui o comentário do Chirol a favor do Marvel Heroes: vale a pena sim.

Para os fãs de quadrinhos é muito difícil não gostar do jogo, tal a quantidade de pequenos detalhes que evocam o respectivo clima (o texto das missões, os locais no tabuleiro, as minis, o visual do jogo como um todo).

Para os jogadores de tabuleiro há atrativos:

- variedade de poderes que exigem decisões diferentes nos combates

- balanço geral dos times comparado às missões em jogo implicam numa escolha de estratégia que vai da definição de quem executa a missão até a missão a ser escolhida e que nem sempre são óbvias

- se por um lado existe um desbalanceamento por outro isso exige do jogador um trabalho de pesar os riscos envolvidos em cada ação, o que para mim é um desafio, o que significa diversão.

Mas de qualquer maneira é a velha questão de gosto: Eu gosto.

abs

Anónimo disse...

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