08 maio 2008

Crítica: Bang

Hoje acordei com vontade de escrever sobre os primeiros livros “só com letras” que li. Pensei um bocado sobre o assunto, de como eram esses dias de descoberta pela literatura e apeteceu-me partilhar alguma coisa. Ainda para mais quando esta malta, dada aos jogos de tabuleiro, tem tanta coisa em comum que muito provavelmente também passou pelo mesmo.
Refiro-me aqueles livrinhos maravilhosos editados pela saudosa Agencia Portuguesa de Revistas escritos, julgo eu, durante os anos 60 e que constituem um espólio admirável da literatura “pulp”.
Herdei o gosto do meu pai. Frenético devorador das inúmeras colecções de western que a editora tinha, era raro o título que ele não lia e mais raro ainda o autor que não conhecia.
Comecei a ler estas histórias de 120 páginas, escritas às 3 pancadas ao mesmo tempo que lia as aventuras dos “5”. Mas claro que a minha paixão ia toda para os heróis que cavalgavam pelas pradarias e matavam os bandidos com as suas Colt 45.
Arranjar estes livros era também uma aventura. Havia em Moscavide uma senhora que tinha a sua livraria no vão de umas escadas. Nesse vão de escada estavam prateleiras com centenas e centenas de títulos usados, desde a ficção científica até aos policiais, passando também pelos romances de amor escritos quase todos pelas mãos da mestre Corin Tellado. Tenho muita pena que só me tenha dado, na altura, para ler os westerns e deixar de lado, até com algum desdém, os outros géneros.



Mas voltando ao negócio da senhora do vão de escadas, este funcionava mediante duas opções. Ou se comprava o livro e pronto, ia-se para casa com ele e juntava-se á colecção ou então trocava-se, ou seja, dava-se um livro e trazia-se outro pagando-se deste modo só metade. Este sistema de trocas tinha bastantes adeptos e o frenesim de leitura era tanto naquela vila nos subúrbios de Lisboa, que havia quem assinasse as capas dos livros para saber o que já havia sido lido e o que não. Claro está que as rubricas deixadas nas capas eram autêmticas obras de arte, feitas de forma a surpreender e maravilhar os leitores. Havia uma secreta paixão na forma como se assinava. O intuito era que a assinatura sobressaísse das demais. E acreditem que havia algumas mesmo bem desenhadas e, porque não dizê-lo, magníficas na sua composição mais artística.
Seja como for, a verdade é que muitas das histórias que li nessa altura foram esquecidas. Todas excepto uma, chamada o “Homem que mata sempre 7 vezes” escrita pelo meu escritor preferido do género Clark Carrados. A história era simples. Um cowboy solitário viajava pelo Oeste e alguém lhe tinha posto um feitiço terrível. O feitiço era o seguinte: acontecesse o que acontecesse, o cowboy só podia matar 7 homens por dia. Se matasse mais do que isso cairia em desgraça. Mediante esta premissa pouco encantadora, o cowboy começou a ver a sua vida a andar para trás. Em livros em que havia 5 mortes por folha, compreende-se de como era difícil gerir o feitiço. Mas mal ou bem o homem lá ia conseguindo matar os seus 7 por dia. No final da história a situação estava mais complicada. Um bando de mal feitores andava atrás dele. Dividas antigas. Então face a tamanho perigo, o nosso herói teve de forjar a sua própria morte, de forma a poder ser posto num caixão e fugir, deste modo, aos seus inimigos. Os cangalheiros levaram o caixão para a praça, minutos antes da meia-noite. O bando era constituído por 14 homens, o dobro de vidas que o feitiço permitia pôr cobro. Mas num momento de clarividência, um minuto antes da meia-noite, o nosso herói desfere 7 tiros mortais às 23:59 e mal o sino da igreja bate as doze badaladas, desfere mais 7, acabando assim com o bando e salvando a pele.
Lindo. O leitor ficou apenas sem saber como é que ele conseguiu as 14 balas quando os dois colts que tinha nas mãos só suportavam 6 balas cada. Mas é nestes pequenos pormenores que reside a magia da literatura “pulp”.
Bem, seja como for, agora deu-me a nostalgia por estes livros e ando doido a ver se consigo voltar a comprá-los em algum lado. Mas queria abranger os outros géneros. Por isso se algum de vós sabe como arranjá-los, avise.
Quem se interessar pelo assunto aqui tem dois links que explicam muita coisa e irão certamente fazê-lo lembrar de muita coisa:

http://www.historia.com.pt/APR/APRindex.htm
http://www.corintellado.com/


Mas atenção. Afinal de contas, praza-se muito o saudosismo deste escriba, mas para o bem e para o mal, este blog ainda é de jogos de tabuleiro. E podem perguntar-se os que até aqui chegaram, mas que raio é que isto tem a ver com jogos de tabuleiro?
Simples, isto tudo para falar do Bang. Um jogo de cartas muito pouco simpático que tenta dar ao jogador um pouco do ambiente dos tiroteios do velho oeste.
O sistema é simples. Os jogadores são divididos em 3 grupos.
O grupo da lei constituído pelo Xerife cuja função é matar os fora da lei e pelo Vice cuja função é proteger o Xerife e tem os mesmos objectivos que ele
O grupo dos renegados. Estes homens têm como objectivo serem os novos Xerifes e para o efeito terão de ser os únicos homens vivos no final do jogo
O grupo dos fora-da-lei que querem matar tudo o que mexa.
O jogo termina quando o Xerife morrer ou então quando este matar toda a gente.
O jogo funciona através de cartas. Cada jogador assume uma personagem que ninguém conhece. A partir daí vão sendo distribuídas cartas que o jogador poderá usar de forma a cumprir o seu objectivo. Vai receber armas, umas melhores que as outras que pode disparar contra os adversários. Vai receber também canecas de cerveja que lhe vão permitir pontos de vida. As cartas são várias. A ideia é que ao jogar uma que tenha em mão, o seu poder seja aplicado. O poder quando aplicado faz com que sejam disparadas balas certeiras, fazem com que os tiros sejam falhados etc, etc.


A ideia era boa, mas funciona pessimamente. Bang é um jogo muito mau, até mesmo para ser criticado. Só o faço porque queria mesmo escrever sobre as revistas. Mas para terem uma ideia da minha experiência de jogo, eis o que aconteceu. Éramos 10 a jogar. Demorei meia hora a poder jogar uma carta. Joguei uma que me permitia disparar sobre um determinado jogador. Disparei, mas falhei o tiro. Meia hora depois o jogo acabou com a morte do Xerife. Estive uma hora sentado à mesa para jogar uma carta. Horrível.
Pode ser que o jogo funcione melhor com menos jogadores, mas as minhas experiência com muitos foram francamente más. Além disso o jogo tem muito pouco para oferecer. Até era capaz de afirmar que Bang foi o pior jogo que alguma vez joguei se excluirmos o jogo da glória.
Seja como for, se é o espírito do Oeste que quer reviver, tente arranjar um livro do Carrados ou do M.L. Estefânia, que certamente vai ficar melhor servido.

Classificação: *

10 comentários:

Melissinha disse...

Adorei! Desta vez até cheguei à parte dos jogos e tudo.

Bruno Valério disse...

O Bang! mau? Oh Hugo como é que te atreves a escrever uma coisa dessas?

:D

soledade disse...

Muito bom o texto. O Pulp escrito não faz parte do meu imaginário. Eu é mais filmes!
Em relação ao Bang "não joguei e não gostei". É o tipo de jogo que não me atrai rigorosamente, nada. Só de ver jogar já me incomoda.
Portanto, mesmo sem jogar, nota 1!

PS

Anónimo disse...

Realmente, voce so queria mesmo falar dos livros, porque resenha que e bom, nao teve nada!

vch disse...

Acho que devias dar mais uma hipotese ao jogo com menos pessoas. Já joguei com 10 pessoas e tem demasiado downtime, mas só jogar uma carta foi mesmo azar (como qualquer jogo de cartas).

O ideal é 5, mas pode ser esticado até 8. E dois jogos seguidos com personagens diferentes vale a pena para tudo comecar a conjugar... ou entao nao ;-)

Daniel disse...

BANG se joga em 7! huahuahuhuahau..xerife morrer logo, OU EH BURRO, ou jogaram errado...kkk

Régis disse...

Uma pena...
você deu azar ao jogar bang..
O jogo é muito bom...
Um dos melhores card games que já joguei...
Ficamos nos finais de semana até 4 horas da manhã jogando de tão bom que é e tem até fila esperando para jogarem.
Acho que vc não leu as regras direito ou vcs não souberam jogar..

Carai nassa disse...

cara na moral esse jogo e considerado um dos melhoes jogos de cartas da atualidade....aprende a jogar po depois posta alguma coisa....o jogo e muito bom principalmente com as espançoes.OBS:ele so é jogado no limite de 7 jogadores...sendo 1 cherife 2 ajudantes , 3 foras da lei e 1 renegado....Amigo nao entenda por ofença a sua pessoa mais procure ler as regras do jogo antes de jogar vc disse que havia jogado com 10 como isso foi possivel eu nao sei mais.....jogue denovo com as regras e vera que e super divertido..um abraço

Anónimo disse...

Alguém sabe onde o comprar?
Obrigada

Diego disse...

Realmente o jogo é muito bom e se adicionar as expansões fica melhor ainda. Se jogar com menos participantes e aplicar as regras corretamente ele fica bem dinâmico.