28 março 2006

Crítica: Ticket to Ride

De tempos a tempos, é certo, a indústria de jogos de tabuleiro consegue produzir um jogo que vende, mundo fora, milhares e milhares de cópias. São jogos que têm o condão de agradarem a todos os gostos, tarefa por vezes difícil, e que servem para juntar à mesa os miúdos, os graúdos, os homens, as mulheres, as amantes, os cornos, os solteiros, os casados e mais a malta que aparecer. São, portanto, nesse sentido, títulos que alegram a corja e que servem para baixarem as vendas do estupidificante Monopólio.
Paralelamente, contribuem para o crescimento da Indústria de board games. A minha teoria é bastante optimista. Com o arrastamento da crise económica mundial, é natural que as pessoas fiquem cada vez mais em casa para poupar uns trocos em vez de andarem nos comes e nos bebes em restaurantes e discotecas de renome. Neste contexto, os jogos de tabuleiro podem assumir as vezes dum chefe de cozinha ou de um DJ.
Isto tudo a propósito de Ticket to Ride. Segundo a sua editora, Days of Wonder, o jogo original da série já vendeu mais de meio milhão de cópias e os números não param de subir. Como é natural nestes fenómenos, Ticket to Ride venceu todos os prémios que havia para vencer e todos os anos o público fiel tem a oportunidade de poder comprar uma nova versão. Foi assim em 2005 com Ticket to Ride Europe e será assim este ano com Ticket to Ride: Marklin Edition. Aliás este novo título traz o mapa da Alemanha com ele. Recordo que a Alemanha é o consumidor numero um de Jogos de Tabuleiro e por isso espera-se que as vendas sejam semelhantes à venda de fantasias do Noddy para a criançada no último carnaval. Eu, pelo sim e pelo não, vou fazer a minha encomenda proximamente.
O jogo é muito fácil de jogar e um minuto chega e sobra para ensinar as regras. A um gamer mais experiente basta olhar para o tabuleiro para ver logo como é que a coisa funciona.




O mapa que se apresenta ao jogador (Estados Unidos, Europa ou Alemanha conforma a versão) contém várias cidades que estão ligadas por linhas férreas representadas por cores. Estas ligações podem ser maiores ou menores consoante a distância entre as cidades do mapa. Aqui prevalece a lógica de quanto mais linhas se tiver, mais são os pontos que o jogador ganha.
Para construir uma ligação o jogador vai precisar duma quantidade de cartas semelhante ao numero de espaços que distanciam duas determinadas cidades. Como as ligações têm cores, é imperativo que as cartas usadas para a construção da linha férrea pretendida sejam da mesma cor que aquela que está no mapa.
Exemplo: A ligação Atlanta e Miami é separada por 5 espaços azuis. O jogador para possuir essa ligação precisa de entregar 5 cartas azuis, ou então, caso não tenha esse valor, pode sempre recorrer às locomotivas. As locomotivas funcionam como Jokers e substituem qualquer carta de cor. Um jogador para fazer uma ligação pode utilizar só locomotivas.
Essencialmente é isto. As cartas são retiradas (duas por jogador) duma pilha de cartas com a face coberta ou então, caso o jogador esteja interessado, dum grupo de 5 cartas que estão com a face descoberta. Sempre que o jogador retira uma dessas cartas voltadas para cima outra é retirada do baralho substituindo assim a que foi retirada. Se o jogador preferir retirar uma locomotiva, perde o direito à 2ª carta.
Por outro lado, existem cartas de objectivo. O jogador pode retirar cartas de objectivo e escolher algumas. As cartas de objectivo obrigam o jogador, em troca de pontos, construir determinadas ligações, que podem ser longas ou curtas. Não existe limite máximo de cartas de objectivo que um jogador pode possuir. No entanto se não conseguir obter um desses objectivos perde pontos no final da partida. Por outro lado quanto mais objectivos cumprir mais possibilidades tem de ganhar.
Em cada turno o jogador vai ter de optar entre retirar cartas, construir ligações ou pedir mais cartas de objectivo. Se optar por retirar cartas quais as que retira? Uma locomotiva ou cartas de cor? É precisamente aqui que o jogo se decide. É frequente a indecisão tomar conta dos convivas e o nervosinho miudinho não conseguir ser disfarçado. A determinada altura da partida, os objectivos dos jogadores colidem e portanto perder um turno pode ditar que uma ligação seja ocupada barbaramente por um adversário. São decisões por vezes difíceis de tomar e provocam ansiedade nos menos habituados a estas coisas.
Ticket to Ride é um jogo bastante divertido que tem apenas a intenção de divertir e poder juntar a família à mesa. É um jogo que não exige muito do jogador, é visualmente estimulante, e claro, quanto mais se joga maiores são as possibilidades de vencer. Não acredito que seja possível a um jogador inexperiente vencer outro mais experiente. Existe uma curva de aprendizagem bastante interessante e motivante que faz que o jogo tenha um tempo de vida bastante longo.
Existem 3 versões do jogo. O Ticket to Ride original que funciona como eu descrevi. O Ticket to Ride Europa que introduz algumas diferenças. Nomeadamente a obrigação de utilizar cartas de locomotiva em algumas ligações e também algumas ligações poderem ser mais dispendiosas que o que o mapa indica. São os chamados túneis. Um jogador não sabe de quantas cartas de cor vai precisar para completar convenientemente uma ligação. Muitas vezes não o consegue e manifesta a todos os jogadores a sua intenção de construir num determinado sítio, o que pode ser fatal. Nesse contexto, a versão Europa é mais engraçada. A obtenção das linhas, como vimos, é mais complicada e exige também mais decisões a serem tomadas.
Em contrapartida introduz também outras inovações como as estações. Estas funcionam como uma ligação entre cidades sem que o jogador precise de jogar cartas. Desta forma apaga erros que um jogador possa ter tido durante a partida. Sinceramente não gostei nada dessa particularidade. Em suma, a construção das linhas é mais exigente e exige mais estratégia que a versão original mas a utilização das estações tornam o jogo parvo e desmotivante. Existe sempre a possibilidade de Ticket to Ride: Europe ser jogado sem estações, sendo nessa perspectiva bem mais interessante que original.


A última versão Marklin parece ser mais interessante que as anteriores. Existe um novo elemento, o passageiro que pode viajar pelas linhas arrecadando pontos pela passagem nas cidades. Por outro lado, se um passageiro adversário passar por essas cidades posteriormente ganha menos pontos e por vezes não arrecada nada. Parece-me que tem uma maior profundidade e uma escolha acertada de timing pode fazer a diferença no resultado final. As primeiras críticas referem isso mesmo, é um jogo mais exigente continuando a ser divertido e motivante. Por outro lado existem agora dois tipos de locomotivas (os Jokers) sendo que algumas delas só podem ser usadas nas ligações maiores.
E é tudo.

Pontos Positivos:
- Jogo Familiar que agrada a todos
- Apesar de ser um jogo em que a sorte faz das suas, existe uma curva de aprendizagem bastante motivante.
- Pode-se jogar por internet em excelentes condições. www.ticket2ridegame.com
- Excelente prenda de Natal e Aniversário.
- Visualmente estimulante.

Pontos Negativos:
- É um jogo light e pode ser considerado pouco exigente para os gamers mais experientes.

9 comentários:

zorg disse...

O jogo é engraçado e giro para mostrar às pessoas que os jogos de tabuleiro não têm de ser festins de lançamento de dados, estupidificantes e desprovidos de qualquer tipo de estratégia.

No entanto, ao fim de 4 ou 5 jogos, qualquer pessoa que já tenha dado uma dentada num naco mais suculento, como um jogo do martin wallace, um knizia dos bons, ou um caylus, começa a fartar-se da leveza deste ticket to ride.

Tenho curiosidade em experimentar o Märcklin Edition, porque me parece que introduz alguns conceitos interessantes. Em relação aos outros 2, prefiro claramente o original ao Europe, por causa das estações.

Hugo disse...

Eu gosto imenso do Ticket. Em termos de iniciação, na minha opinião, é capaz de seduzir mais do que o Catan. Ticket to Ride tem aquele aparato todo das miniaturas, do mapa etc.
Vou comprar o Marcklin para ver se consigo por o meu sogro e alguns dos meus amigos a jogar jogos de tabuleiro.

zorg disse...

Para introduzir novos gamers, se calhar é melhor o original. É mais simples e limpo, em termos de regras, e, na minha opinião, é melhor e mais estratégico que o Europe.

Hugo disse...

Eu pessoalmente prefiro o Europe sem as estações. Se tivesse de escolher, escolhia o Europe e colocava as estações na sanita.

fgpina disse...

Com o meu grupo jogámos há uns bons meses um único Ticket to Ride Europe.

No início tínhamos o jogo do momento, aquele jogo que suscitava alvoroço no Boardgamegeek. Aquele jogo que o guru Tom Vasel dava nota máxima .No final dessa singular experiência, digamos que passámos a verificar em dobro tudo o que o Tom Vasel escreve (na realidade e para ser justo tenho que dizer que o Tom Vasel já me levou a comprar muitos jogos e até então nada tinha falhado).


Porque deitámos as mãos à cabeça no final deste o jogo? Eis algumas razões:
1)É um facto que se trata de um jogo de comboios, mas mais no plano estético que na substância. Em momento nenhum me senti dono de uma companhia de caminhos-de-ferro (como por exemplo me sinto no Age of Steam). Senti-me somente dentro duma brincadeira matemática, que por curiosidade tem figuras de comboios. Isto normalmente para mim é a sentença de morte de um jogo. Não consigo deixar de ligar muito ao tema…

2)Sente-se alguma competição no jogo, mas a interacção é quase nula. Nada de conversação, ameaças, bluffs, negociações, leilões. No fundo é mais um “multiplayer solitaire game” em versão light.

3) Fiquei com a noção que o jogo teria piada se jogado num tempo ideal de 30 minutos e máximo de 45. As mais de 2 horas que demorou não teve piada nenhuma.

Tenho que admitir uma coisa. Um único jogo pode levar a conclusões precipitadas e podem-nos ter escapado algumas subtilezas daquelas que dão sal às partidas.

Pelo vosso entusiasmo (refiro-me mais ao Hugo), penso que devo jogar mais uma vez para fazer a devida justiça ao jogo. O problema é que há por aqui tanta coisa boa para jogar…

Uma última nota para o Hugo: pareceu-me um pouco imprópria a comparação com o Settlers of Cattan. Esse sim um jogo cheio de interacção, com inúmeras opções estratégicas e com uma mecânica simples que cativa qualquer um. Ah! e aí sinto-me mesmo numa ilha à cacetada com outros “settlers”!

zorg disse...

Eu também acho que o settlers apesar de ser um jogo amigável para novos jogadores não é, de todo, um jogo desprovido de estratégia, "sumo", ou o que lhe preferirmos chamar.

Já o ticket to ride é definitivamente um jogo bem pensado, engraçado, mas bastante light.

Creio que o que os 2 jogos têm em comum é a sua adequação a serem jogados em ambientes familiares.

No entanto, na minha opinião, há mais estratégia na colocação de uma estrada no settlers, do que num jogo inteiro de ticket to ride. :-)

Hugo disse...

Eu gosto do Ticket não tanto pela estratégia que exige a um jogador mas antes pelo fun factor que tem. Ticket to Ride, na minha opinião, tem o mérito de poder juntar à mesa jogadores mais experientes com menos experientes e proporcionar assim uma tarde divertida servindo assim de jogo introdutório para aqueles que ainda olham para os jogos de tabuleiro com desconfiança.
Seja como for existem sempre opções a serem tomadas e os objectivos dos jogadores entram mais cedo ou mais tarde em conflito. E claro, quanto mais bonito o jogo for, mais hipoteses tem de seduzir a nova malta.

fgpina disse...

Sobre um ponto temos consenso. O jogo é bonito!

Não fosse mais um titulo da Days of Wonder. Outros 2 titulos que tenho jogado desta editora são o Memoir 44 e o Shadows over Camelot. Ambos excelentes exemplos do que todos os jogos deveriam ser no plano estético.

Anónimo disse...

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