27 novembro 2006

Ensaio: Caçadas, pescarias e jogatanas

Estava a eu a passear pela costa litoral portuguesa quando me deparo com pescadores de ar sorridente, de cana de pesca na mão a tentarem a sua sorte num domingo soalheiro.
A paz e a tranquilidade que esses pescadores sentiam fizeram-me pensar como é bom ter um hobby que funcione como um escape para o corrupio diário que todos nós sentimos durante a semana.
Já antes também tinha observado, com algum entusiasmo, figuras nocturnas com os seus corpos estacionados à esquina das ruas esperando a chegada de outros companheiros para uma caçada em terras alentejanas.
Nunca fui um admirador das caçadas nem das pescarias pelo que nunca me meti nisso, mas para quem o faz, nota-se um brilho nos olhos cada vez que se fala no hobby que escolheram. È natural, afinal de contas são estes pedaços de tempo que tornam as vidas de cada um suportáveis e apetecíveis.
Como sabem todos aqueles que por aqui andam, há bem pouco tempo também eu escolhi um hobby. Os jogos de tabuleiro. Bem sei que é uma coisa que não traz estatuto nenhum e que causa alguma estranheza naqueles que estão mais habituados aos nomes de Monopolio e Trivial. É natural, até porque estes dois exemplos são o cúmulo da chatice e nada de verdadeiramente motivante acontece nesses tabuleiros.
- Qual é a capital de Turquia? Como se chamou o Presidente dos EUA assassinado em Dallas?

Normalmente quando digo a alguém que tenho uma tara por jogos de tabuleiro, os segundos seguintes a tal afirmação transformam-se num silêncio pouco sedutor para a minha pessoa e sinto que acabo de descer uns pontos na consideração da criatura que, cheia de boas intenções, fala comigo. A partir da revelação a conversa tem tendência para ficar incómoda e sinto uma súbita pressa do interlocutor em se pirar o mais depressa de ao pé de mim.
Ter o Hobby dos jogos de tabuleiro não é muito gratificante socialmente. Começa logo pelo trabalho. Imaginemos uma entrevista de emprego. A determinada altura o empregador vira-se e pergunta:
- Sim senhor, temos aqui um excelente currículo. Bem vejo que tem uma experiência considerável no ramo. Tem algum hobby?
Este tipo de perguntas colocam uma pessoa como eu entre a espada e a parede. Por um lado a acção imediata é contar a verdade. Sim senhor tenho um hobby chamado jogos de tabuleiro. Havia de experimentar, porventura até era capaz de lhe fazer bem.
Seja como for, se decidirmos arriscar, a resposta vem desinteressada como sempre:
- Hum...

Mesmo em jantares sociais a coisa também descamba. Principalmente quando as pessoas envolvidas se tentam conhecer umas às outras. Uns jogam futebol, outros fazem Jogging, outros caçam, outros pescam, outros jogam Playstation e ainda há alguns que vão ao futebol.
- E tu Hugo, quais são os teus interesses?
E se, entusiasmado, avanço com a verdade, uma vez que se o jogar Playstation e o ver futebol não despertou estranheza dos presentes, a resposta, ao contrário do que gostava veio enigmática:
- Hum...

Já com as mulheres o caso é ainda mais dramático. Existe uma dificuldade tremenda em aceitarem os jogos de tabuleiro como um hobby como outro qualquer. Não sei porquê, se calhar é mesmo uma questão de estatuto. Deve ser porque têm medo de dizer umas ás outras que o marido tem como hobby os jogos de tabuleiro. Têm a mania das grandezas é o que é. Se fosse pesca ou caça, hobbys de estatuto lendário, se calhar nem se importavam:
- Vê lá que o meu marido foi ao Alentejo caçar...
A reacção dos pares perante este desvendar privado desperta não só a aceitação como também a cobiça pelo macho.
- Interessante...interessante....
Ora os jogos de tabuleiro não conseguem competir com o alarido dum peixe esventrado num anzol ou dum coelho desfeito com um tiro na cabeça. Tenho notado muitas dificuldades dos parceiros de jogatana em conseguirem arranjar tanto tempo para o hobby como os caçadores para a caça, ou os golfistas para o golf.
Eu que o diga, cada encontro pode ser um martírio.
- Oh querida! Toma lá este perfume que me custou 50 euros e já agora esta sexta à noite não contes comigo porque tenho um encontro com a malta dos jogos. Prometo que não mato nenhum animal nem gasto dinheiro nenhum.
Mas, apesar das minhas intenções pacíficas, a resposta já é há muito conhecida:
- Hum...

8 comentários:

soledade disse...

Caro Hugo,
e como esse Humm é barulhento não é?
Aquele silêncio dramático, incómodo, desconfortável, tipo Pulp Fiction, que se segue à arrojada e destemida declaração, "jogo jogos de tabuleiro".

Num rasgo de tabuleirice bacoca devíamos ir para as ruas gritar e assumir a nossa condição. Atirar as caçadeiras e as canas de pesca para a fogueira reafirmando os nossos ideais, saindo do armário.

Porque se não, qualquer dia, corremos o risco de estarmos numa sala de 5 por 5, sentadinhos em volta de uma fogueira imaginária a dizer, "olá eu sou o Paulo e sou tabuleirófilo."

Abraços
Paulo

PS: "figuras nocturnas com os seus corpos estacionados à esquina das ruas esperando a chegada de outros companheiros para uma caçada em terras alentejanas"

mesmo sendo no Alentejo, eu acho que isto ainda é ilegal

Costa disse...

Também já senti o aperto de estômago, o nó na garganta, de quando alguém pergunta o que gostamos de fazer. "gosto de Cinema e... de... jogos de tabuleiro..."

Recentemente comecei a dizê-lo em inglês... "o que é que eu gosto de fazer? Olha, jogo boardgames!"

Depois explicamos e a estranheza não desaparece, não! Mas não sei, se calhar por se dizer em inglês, a coisa fica mais fácil de explicar.

Claro que isso não impede os outros de virarem a cara para o lado, fazerem uma careta e pensarem... geek!

Geek? Sim, e com muito gosto!!

Hugo disse...

lol
essa de dizer em inglês é fantástica.

Rui Conde disse...

Acho muito interessante este tema...
Não sei o que aconteceu em Portugal? As pessoas não jogam jogos... É estranho, partem do principio q é coisa de crianças. desconhecem completamente e acham mm q é coisa de geeks. No meu caso, quando conheço alguem, acham q n combina cmgo, comentam, « n te imaginava assim» , pergunto o pq? e a resposta é, «n sei, fazes surf, tens uma loja de surf, jogas ténis, estas sp a rir, so queres sair e conhecer mulheres, jantaradas, f d s fora, etc...» Fico sem resposta, mais ainda, pq n consigo ver a relação, vejamos, desportista n pode gostar de jogos? rir e jogos, n combinam? n, já sei, ser heterossexual n combina c jogos... Ou seja, nós, aqueles q jogam, jogos inteligentes, n somos desportistas, n rimos e somos gays... Realmente...
O q acho tb curioso, é q se me dou ao trabalho de falar sobre alguns jogos, estas pessoas ficam fascinadas e querem jogar em proxima vez e cobram por n terem sido convidadas se passa mto tempo sem o pretendido convite.
A triste realidade é esta, o mercado de jogos em Portugal, n sofreu gdes alterações ao longo dos anos, os jogos q são dados a conhecer em Portugal, continuam a ser os mesmos, Monopolio, Risco e outros ainda piores, como é sabido por todos, os «nossos» jogos, são mto «exclusivos», caros e em lingua estrangeira, sendo por isso, inteiramente desconhecidos do gde publico.

Hugo disse...

As pessoas vão jogando.
O que se passa é que os jogadores vão transferindo para os não jogadores as maravilhas dos boardgames. O que tenho notado é que tem havido uma aceitação muito grande das pessoas do “hum” quando experimentam.
Essencialmente, parece-me que quem experimenta dá muita importância ao facto que este tipo de jogos consegue reunir pessoal á mesa e conseguem que as pessoas interajam umas com as outras. Ainda há pouco tempo o Zorg falava nisso. Existem famílias em que os elementos estão cada um para o seu lado. Um joga playstation, outros estão a ver televisão, etc. Ora os jogos de tabuleiro fazem com que as pessoas se sentem à mesa e conversem, façam negócios entre elas e estejam animadas durante uma partida. Os jogos de tabuleiro podem ter uma importância interessante no estabelecer ligações entre pessoas que de outra forma não estariam frente a frente.
Eu, por exemplo, tenho um grupo de jogo constituído por malta que andava comigo durante a infância e juventude. Com o tempo cada um foi para o seu lado. Hoje em dia combinamos uma vez por mês uma jogatana. Toda a gente vem. São partidas óptimas porque estamos a falar uns com os outros e sentimo-nos bem por essa ligação não se ter perdido. Se, por exemplo, os convidasse para tomar um copo provavelmente seria mais difícil juntar essa malta. Com um jogo consigo. Nunca dizem que não. E confesso que alguns elementos estavam reticentes em começar a jogar.
Agora tenho pena que esta subida de jogadores se proceda quase na obscuridade. Continua a ser uma coisa que não é falada como uma coisa interessante e nesse sentido é um tema que não vem facilmente à baila.
Seja como for, no BGG estão registados 300 portugueses que, na verdade, constituem muito mais jogadores. Em princípio deve de haver muitas centenas de jogadores por aí.
Este blog, por exemplo, tem em média mil e tal visitas por mês e, segundo as estatísticas é um número que tem vindo a subir. Isso representa um importante indicador do hobby em Portugal e também no Brasil porque muitos dos visitantes são do Brasil.

hmocc disse...

Eu vou deixar aqui uma outra achega: existe um site, que descobri quase por acaso, que se chama Ludopédia.

É um site "Wiki" fundado por boardgamers brasileiros, o qual não tem - penso eu - participação portuguesa significativa.

Eu criei um link no BodeGueims para a Ludopédia pois acho que se trata do site com mais potencial para fazer crescer a comunidade dos jogadores de jogos de tabuleiro de ambos os lados do Atlântico e permitir um intercâmbio muitissimo proveitoso.

Porquê? Porque se trata de um site "Wiki", que, tal como a Wikipedia, qualquer pessoa pode editar, contribuir.

Como diz o Hugo, o "Hum" é realmente desconfortável em Portugal. Aqui na Grã-Bretanha a resposta, não sendo entusiástica, é de curiosidade. Penso que muito por culpa da Games Workshop e da tradição dos wargames.

Mas há que ter esperança e, cativando novos jogadores (mesmo que sejam apenas jogadores ocasionais, não geeks), a mentalidade irá decerto evoluir.

soledade disse...

Estou de acordo com o Conde. Acho que o pessoal acha que, só porque jogamos boardgames temos de ser gays, não beber copos, não jogar ténis e ter boas notas :P

O crescimento da comunidade está-se a conseguir, apesar de tudo. Nas cidades maiores já se começam a vislumbrar algumas boas novidades, como lojas e clubes de jogo.

O problema do crescimento no País está sempre correlacionado com o acesso. Enquanto o acesso não fôr generalizado não se consegue melhorar muito. Não digo que tenhamos de chegar ao Continente mas, pelo menos, a uma ou outra loja mais maistream, dentro das cidades. O ideal era mesmo que o Planeta de Agostini distribuisse, mas acho isso pouco provável. heheheh

Para além disso, mesmo que alguém tenha a coragem de investir no negócio em Portugal, com os preços que se praticam, é impossível. Veja-se o caso da netsurf, por exemplo. É uma boa tentativa mas um bocado caro demais comparando com, sobretudo, as alemãs.

Portanto, dá-me ideia que o ideal é sermos nós a irmos espalhando a semente por aí, dizendo que somos gamers de peito cheio para ver se despertamos curiosidades e pomos "la gente" a jogar. Depois disso bem, depois, dá-me ideia que o negócio já começa a ser mais apetitoso e até, quem sabe, não surja uma editora portuguesa...

Abraços
Paulo

fgpina disse...

Caro Hugo,

Já há bastante tempo que não comento, por estar realmente bastante ocupado profissional e pessoalmente (ou seja, não tenho também jogado!) mas continuo regularmente a visitar-vos. Vale sempre bem a pena.

Neste post, tens aqui várias observações muito bem apanhadas, especialmente o “humm…”. O humm consegue reunir em 4 letras aquilo que se pensa em muitas mais. A minha interpretação pessoal para o humm é algo do tipo “Este gajo com esta idade ainda gosta de brincar ao Monopólio e ao Sobe e Desce? Tenho de o apresentar ao meu sobrinho de 9 anos”. Aprendi que convém introduzir a conversa com algumas actividades «seguras» e só após ouvir um ou dois “interessante…”, lançar a escada para os jogos de tabuleiro. Não me livra do “humm”, mas pelo menos é-me concedida alguma dúvida. Depois de ter passado a usar essa estratégia vejo que já algumas vezes me perguntam “isso é tipo Monopólio?”, e tenho ainda um minuto e meio para desenvolver conversa sobre jogos de tabuleiro.

Na realidade há um desconhecimento completo sobre o que são estes jogos e uma associação imediata a coisas para menores de 10 anos.

Apesar de tudo, penso que esta barreira não é a pior de ultrapassar. A pior barreira é mesmo conseguir exercer a actividade, até com parceiros já devidamente doutrinados. É o que se passa comigo. Não me faltam bons parceiros nem bons e muitos jogos. O que falta mesmo é: 1º os gamers terem coincidência de disponibilidade 2º nessas raras ocasiões não surgirem os habituais impecilhos (namoradas, mulheres, filhos).

Um abraço,
Filipe