
Nasci e cresci no mundo dos jogos de tabuleiro com o Puerto Rico, altivo e dominador, confortavelmente sentado na posição de número 1 do ranking. Sempre assumi que nunca mais de lá ia sair e habituei-me a olhá-lo como o número 1. Nunca me passou pela cabeça que alguma vez o seu reinado pudesse terminar... mas terminou! E o responsável por isso é o mais improvável dos candidatos: um jogo com um tema esquisito (nada de guerras nem temas do renascimento, mas sim a entusiasmante agricultura de subsistência norte-europeia do século XVI), feito por um gajo que até aí só tinha jogos de cartas simples no currículo e editado por uns tipos cuja publicação de maior relevo até aí tinha sido um joguito de cartas sobre feijões. Agricola tomou o mundo dos jogos de assalto e passou rapidamente de grande sucesso de Essen, para grande candidato a destronar o Puerto Rico e, finalmente, para novo número 1 do ranking, posição que mantém até hoje.
É um jogo de gestão de recursos, que recorre ao mecanismo de worker placement (o autor reconheceu as influências do Caylus no desenho) e que consegue criar uma grande atmosfera temática, por mais inverosímil que isto possa parecer, já que estamos a falar, recorde-se, de um jogo que procurar recriar a agricultura de subsistência norte-europeia do séc XVI. Foi também o jogo que (re)lançou essa nobre actividade do tuning de jogos de tabuleiro: é procurar no BGG e ver a quantidade de gente, provavelmente residente na margem sul, que pôs retrovisores desportivos, escapes de rendimento e ailerons nas suas cópias do Agricola.
Gosto muito das cartas e da forma como impedem a existência de zonas de conforto em termos de estratégia, gosto muito da tensão opressiva que a necessidade de alimentar a família provoca... e é um jogo que me dá sempre imenso prazer jogar! Um grande líder do ranking e, sem dúvida, um dos jogos da década!